Como as coisas degringolam rapidamente
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Cena 1: Na pista.


Fernando passa, Aline quase não acredita. Ele entra na carrapeta, cumprimenta os DJs e sai. É ele mesmo?! Está difereeeente... Os dois se reconhecem, e 5 minutos de conversa fiada se passam. Filipetas pra lá e pra cá, Ana se acabando de rir, etc. etc.

(...)
— ...E tem a festa do Marquinhos com aquele outro DJ, o... como é mesmo o nome dele?
— Feel.
— Isso, Feel...

Feel passa, de longe manda uma piscadela. Aline sorri e acena de volta. Aline aponta para Feel como que fazendo sinal para Fernando: “ó, esse é o Feel”.

— Você o conhece?
— A gente tá namorando.
— Namorando?? E o jogador de futebol, cadê?!
— No meu bolso não está! [ri]
— Você tá namorando esse DJ?!
— Tô.
— Isso é sério?? [cara indescritível, meio rindo meio chocado]
— É. Tem algum tempo já.
— Tá zoando!
— Não tô zoando, pô.
— Que isso... fala sério, impossível.
— Impossível por quê??
— Sei lá. Só achei meio... improvável.
— Quer que eu chame ele aqui? [ri]
— ...
— A gente tá morando junto e tudo.
— Quê?!
— Aliás, pode-se dizer que eu – brr! - casei, certo? Não é isso que as pessoas falam quando moram junto??
— Mas... com esse DJ?
— É, ué.

Diante de um Fernando mudo, Aline continua, sorrindo:

— Você sumiu por muito tempo, Fernando.
— É... tô vendo... [coça a cabeça]

Os dois riem. Ela mais, ele menos.

— Mas, Aline, você não chifra ele não?

Silêncio. Ela hesita por alguns instantes, mas balbucia algo que não contou nem para as paredes do seu quarto:

— Uma vez só. Revival com o ex, mas aí não conta. A gente mal tinha terminado.
— Você chifrou esse DJ com o jogador de futebol??
— Hum-hum. Ele – o DJ – foi originalmente um chifre do Rodrigo, entende?
— Hum, parece justo então... [dá um gole na cerveja, nem um pouco espantado]

Aline ri. Claro que ele entende, o puto foi chifre do Rodrigo as well. Aliás, quando ela voltou com o Rodrigo ela saía com o Fernando!

— Entããão... ele tinha uma namorada, eu também. Foi assim por um tempo até que ele terminou de vez com ela e ficou martelando no meu ouvido... pressionando... foi um horror pra tomar coragem e largar tudo, viu.
— E depois de anos com aquele jogador tentando, você vai e casa com um DJ? [ri por não ter mais nada a fazer]
— E em poucos meses!

Feel se aproxima.

— Fernando, esse é o Feel, que toca com o Marquinhos na festa que eu tava te falando.

[Os dois se cumprimentam. Fica aquela expectativa de como o Fernando será apresentado. Aline não dá um pio]

— Prazer, Fernando. Também sou DJ.


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Cena 2. Na carrapeta.

— Sabe quem é esse figura? [falando de Fernando, que acabara de sair dali]
— Não. [despreocupado]

Fernando ‘acha’ Aline na pista e a cumprimenta. Aline dá dois beijinhos e – que estranho! – sorri! Fernando fala com Ana e ficam os três dançando.

— Ele namorou a sua namorada um tempão.

Fernando não sabe se vai, se fica, se volta, se bebe. Olha para Aline, vira de costas, vira de frente de novo, olha de novo, vira de costas mais uma vez. Ana já não se agüenta mais de rir. Aline não está neeeem aí e dança distraída.

— É? [O DJ dá um gole na long neck, meio incrédulo, rindo, ainda despreocupado, mas agora olhando para a pista]

A música muda, Aline continua dançando, Fernando agora já está de frente pra ela, querendo a todo custo dar um jeito de se aproximar.

— Acho que, por baixo, uns três anos.

Fernando fala alguma coisa com Aline, que sorri e concorda.

— Hum. [Agora o DJ já não tira mais os olhos da pista]
— Sempre que se encontravam, ficavam....

Aline volta a dançar, Fernando fica parado que nem bobo. A música muda – mais uns 30 segundos para Fernando puxar assunto mais uma vez. Ela ri e se empolga, parece estar contando algo pra ele. Ele se empolga, responde algo que a deixa ainda mais empolgada e saca do bolso uma filipeta, que dá para Aline. Ela tenta ler a filipeta naquele pisca-pisca frenético, ensaia pulinhos, cutuca Ana, mostra a filipeta. Fernando recosta na pilastra e só olha.

— Sei. [o DJ já nem presta mais atenção no outro DJ. Olha fixamente para onde a namorada está – ela de costas, Fernando também. Os dois estão lado a lado. Fernando parece boquiaberto, enquanto Aline só faz que ‘sim’ com a cabeça, de braços cruzados, rindo entre uma frase curta e outra]

O DJ sai da carrapeta em busca de outra long neck. Dá uma piscada de olho – um tanto nervosa – para Aline, que sorri pra ele. Na volta, resolve parar ali.

— Fernando, esse é o Feel, que toca com o Marquinhos na festa que eu tava te falando.

[Os dois se cumprimentam. Fica aquela expectativa de como o Fernando será apresentado. Aline não dá um pio]

— Prazer, Fernando. Também sou DJ.

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Cena 3. No táxi.

— Da onde você conhece esse Fernando?
— Hmmm... da outra boate. [pausa] A gente ficou tempos atrás. Quer dizer, ficava.
— Hum. E ele é DJ?
— Era. Era?! Bom, sei lá se é ainda.
— Você já ficou com quantos DJs?!
— O que você está insinuando?
— Nada, só acho curioso...
— Hey, foi você que chegou em mim do nada, lembra?? Eu tinha namorado!
— Eu sei, calma...
— Humpf...
— Mas você me falou que nunca tinha namorado um DJ antes...
— E eu nunca namorei, ué. Fernando não conta – nem como namorado, nem como DJ. [ri]

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Cena 4. Em casa. Exatos nove dias depois.

Ela acorda e ele não está ao seu lado. Levanta-se para tomar o café da manhã e o encontra dormindo no sofá.

Acha estranho. Faz sua refeição, quieta, para não acordá-lo. Escova os dentes, pega o jornal, faz a sua pilha de leitura dominical e se enfurna no quarto.

Pouco depois ele entra e diz: “Aline, eu preciso de um tempo”.

Tempo?? TEMPO?? What the fuck!?

— Tempo?
— É. Tempo.
— Por quê, o que houve?
— Tenho que pensar umas coisas, tô confuso. Acho que não vou conseguir continuar com você assim.
— Mas assim como, o que aconteceu??

Ele suspira profundamente, mas não responde. Ela insiste.

— O que foi que aconteceu? Aliás... você mal falou comigo direito ontem. O que houve?

Feel repassa mentalmente um diálogo imaginário.

“Você e esse Fernando.”
“HÃ?!”
“É.”
“Que tem ele?!”
“Você não me disse que namorou ele, não me disse que ele era DJ.”


Aline não deve fazer idéia que a perturbação é por causa de uma criatura que apareceu na primeira festa que os dois foram sem o Feel discotecando. Que a pulga se instalou atrás da sua orelha esse tempo todo e estourou, do nada, ontem (nem ele sabe explicar como).

Ele quer mesmo confrontá-la? Quer outro stress?

Não. Feel quer uma relação normal. Quer que os dois tenham pelo menos um mês seguido sem sacolejos ou estranhamentos. Mas tá difícil...

Então ele arrisca. Não deu outra:

— Acho que é esse Fernando, não sei.
— HÃ?! Que tem ele?!
— Você não me disse que namorou ele, não me disse que ele era DJ.

Aline tem ímpetos de gritar “e daí???”, mas opta pelo “EU NUNCA NAMOREI O FERNANDO, FICOU LOUCO?!”

Silêncio.

— Quem te disse esse absurdo?? Eu fui chifre da namorada dele, é diferente.

O-oh.

— Por três anos??
— Três anos?! Sei lá se foram três anos...
— É verdade ou mentira?
— Mas que diferença isso faz? Não tô entendendo...
— Aline... não sei... já não sei de mais nada agora... preciso de um tempo, não tá dando certo a gente.
— Não tá dando certo? Por quê?
— Não sei... é sempre isso com você, uma surpresa...
— Pô, mas Feel... putz, quando que eu ia imaginar que seria relevante te contar sobre o Fernando?? Era só uma ficada, nunca foi nada demais! Não aconteceu nada demais naquele dia, te apresentei pra ele e tudo...

Silêncio.

— Feel, não tô entendendo, isso tem mais de uma semana...
— Pois é, mas eu continuo confuso.
— Puxa, mas não é possível... não entendo...
— Aline, vamos dar um tempo, ok? Do jeito que está eu não consigo nem pensar direito. Não quero brigar.
— Mas... mas...
— Tá complicado assim.
— Mas... por quê? O que o Fernando tem a ver com isso?
— Não sei. [pausa] Não sei. Esquece, nem sei se tem a ver com esse Fernando mesmo. Só sei que eu preciso de um tempo. Vou pra casa da minha mãe por uns dias.

O DJ vai embora, fechando a porta atrás dele e deixando Aline pálida, muda, sozinha, lembrando da noite anterior. Ela não ganhou um beijo sequer dele – e pelo visto não vai ganhar outro tão cedo.

Duas lágrimas escorrem, uma no rosto dele, outra no rosto dela. “Um tempo”, ele disse.
E assim, just like that, a felicidade da Aline se foi.

Marina
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