"É
a coisa mais errada a fazer. Uma péssima coisa a fazer. A
última coisa a fazer. Mesmo assim...."
Mesmo assim, ali está Aline, no canto da pista de dança, recostada em Fernando, que a envolve em seus braços de forma quase – quase! – bonitinha. Os dois estão quietos, Aline olha para baixo. O DJ no som é o Feel, que por sua vez abraça e beija outra garota escondido dentro da cabine, crente que nenhuma luz seria capaz de bater ali e revelar o que estava acontecendo. (Ha!)
Aonde exatamente as coisas deram errado Aline não sabe dizer. "Something happened on the way to heaven", já diria a música.
Aline se revolta. Olha para a cabine de som, vê a menina saltitando ("Dez anos mais nova! Onde ele catou isso, no jardim de infância??"), volta a recostar em Fernando.
Fernando acaricia suas costas, pescoço, cabelos. Tenta se aproximar do rosto dela, atrás de algum eye-contact. Aline não consegue se mexer. No máximo, coça o nariz. Ela faz que 'não' com a cabeça, ele indaga o que foi. Aline não diz nada, mas sorri e o beija, com os braços já em volta do pescoço de Fernando. Ela reclama, "você é muito alto!", ele quase se desculpa, "Pô... eu sempre fui alto...", para depois envolvê-la de novo entre os seus braços.
É como se Fernando tivesse virado um grande urso de pelúcia. E Aline, uma criança de 8 anos.
Aline não se conforma. Não-se-con-for-ma! Está errado. E-R-R-A-D-O. Ela não tinha que estar abraçada ao Fernando! Ela é do Feel, que coisa estúpida! Coisa mais estúpida ela aqui com o Fernando....... ele lá com aquela pirralha..... escondido pra ninguém ver.... mas aí bate uma luz, bate a bebida, chega o Fernando.......... tudo errado, tudo errado, tudo errado!!!!
Já Fernando fica relembrando o primeiro diálogo.
— E aí?
Cadê o namorado-DJ?
— Não sei... [sorriso cansado]
— Não sabe?
— Não. Ele pediu um tempo. [olhando pro chão]
— Um tempo?
— Pois é. A gente se fala, mas... [suspiro] só
isso, a gente se fala.... [gesticula com as mãos, como que
mostrando um grande vácuo]....[suspiro]
Na hora ele não conseguiu falar nada. Como ele queria ter falado alguma coisa para alegrá-la! Alguma piada, alguma farpa, alguma canastrice. Qualquer coisa tava valendo – menos "sinto muito", claro. Ele não falou nada, Aline se afastou e só voltou a vê-la 3 horas depois. Sentada, sozinha, olhando uma latinha de cerveja perdida no chão que nem dela era. Segundo diálogo:
De novo Fernando não respondeu nada. Tapado! Não deu dois minutos e Aline já estava de pé, dançando. O silêncio dele o perturbava. Por que não falou algo espirituoso? Algo que a prendesse ali?
E mais meia hora se passou até o terceiro – e derradeiro – diálogo. Mas dessa vez foi ela que se aproximou.
— Tá chato lá em cima... [virando a terceira Ice, "ligeiramente" bêbada]
De novo Fernando não abriu a boca. Dessa vez Aline reclamou:
Aline fica des-con-cer-ta-da.
Desconcertada!
Fernando sorri sozinho lembrando da cena: que depois disso ela sorriu, sorriu muito, olhou para um lado, olhou para o outro, passou a mão no seu rosto e ficou na ponta dos pés para conseguir alcançá-lo com um beijo. Que ele a abraçou imediatamente e não soltou mais. Que os dois estão ali parados desde então.
Algo,
porém, o traz de volta: Aline está olhando mais uma vez
em direção da carrapeta. E suspirando. Fernando nota e
propõe sair dali.
Os dois saem da pista, se sentam afastados. De início, Fernando não se mexe. Mas aí Aline deita a cabeça no ombro dele, que então a envolve com os braços, numa cena que Ana descreveria como "comovente".
Aline dá tantos suspiros que Fernando arrisca:
— Você
quer ir embora? Te deixo de táxi na porta da sua casa.
— Não... tô bem aqui. [fazendo carinho no
braço dele]
Novamente
Fernando se cala. Não sabe o que fazer. O tempo passa... os dois
parados ali... abraçados...
Duas músicas depois, ele não agüenta:
— Você
vai voltar pra ele, né.
— Oi??
— E eu vou ficar sem você de novo, né.
— [muda]
— Larga ele de vez, pô. Fica comigo.
— Eu já estou ficando.
— Não, Aline. Isso é só rebound, você
não está aqui comigo. Sua cabeça tá
lá naquela cabine. Você quer o DJ, não eu.
— ...
— Eu gosto de você muito mais do que ele gosta. E há muito
mais tempo.
— Mas Fernan---
—Você sabe disso, sempre soube.
— Não, eu---
— Claro que sabe, Aline. Pô, era óbvio. Sempre estive na
tua mão. Como estou agora, mesmo com você de olho naquela
carrapeta.
— [olhos arregalados]
— Você tem certeza que quer voltar pra esse DJ?
— Eu...
— Você gosta mesmo dele ou é só um troféu?
— Fernando...!
— Aline, um cara como ele não te entende nem nunca vai te
entender. Aposto que ele te cobiçou quando você namorava e
não sossegou até ter o que queria. E agora que ele tem,
percebeu que as coisas não são bem assim como ele
imaginava, que ele não tem o controle de tudo, que com
você é diferente. Então pede um tempo.
— [muda]
— Esse cara é o errado, pô.
— Errado é você falar essas coisas pra mim.
— Por quê?
— Errado e injusto.
— Injusto?!?
—Agora que eu estou namorando você vem com essa conversa??
— Você não tá mais namorando. Ele pediu um tempo,
tá lembrada? Não volta pra ele, cara. Não tem nada
a ver vocês dois.
— Mas o que diabos faz você achar que *a gente*
daria certo?! [rindo, incrédula]
— Porque quando a gente tenta com outros dá tudo errado.
Fernando a beija levemente, um estalinho para ficar na história. Aline está em choque.
—Vou indo.
Você vai ficar?
— V-vou... vou ficar......
— Então tchau. [mais beijinhos curtos de despedida]
Aline emudece.
Já de pé, Fernando mexe nos cabelos dela e pede: "Pense nisso". Fica com as mãos soltas ali, ainda próximo dela, na esperança de ser puxado, quem sabe? Mas não. Aline está toda encolhida na cadeira, fazendo que 'não' com a cabeça. Não, não, não, tá tudo errado. Tá tudo errado! Ela é do DJ!
Mas... qual DJ?
(continua)
Principal