É Blur. É "Bang"! Bang goes another year / in and out of one ear, e ela abre um sorriso. O que vem à sua mente não pode ser definido. Telefonemas durante a semana, longas conversas-de-carro no fim de semana, chegada e night, night, night.
Esta música, por alguma razão
que ela não sabe explicar, recria o velho ritual em sua cabeça.
"Bang" nunca testemunhou aquela época, mas o Blur sim. Suas canções
mais antigas inevitavelmente resgatam sensações esquecidas
por ela; há um "quê" de naftalina no ar quando as ouve. Não
tem jeito, assim que se começa a contar um espaço de tempo
em anos, já é meio caminho andado para um certo flashback.
Engraçado, lembranças de
algo-que-se-tinha-mas-já-passou-e-agora-é-tudo-beeem-diferente-por-causa-das-
circunstâncias-mas-poderia-*sim*-ter-continuado-do-jeito-que-era,-why-not?
não costumam ser lá muito bem-vindas, mas esta lhe parece
estranhamente boa. Talvez por estar, hoje, no mesmo recinto que ele. Talvez
porque esteja numa festa que muito lembra aqueles tempos. Talvez por ter
sido uma agradável surpresa.
Então fica dançando de olhos fechados imaginando que ele pudesse estar ali com ela de novo, só durante "Bang".
Mesmo que ele estivesse ocupado com outros
afazeres naquele momento, em vez de estar ali com ela, como tanto gostaria,
[ele não deve ligar Blur a esse tipo de lembrança. Talvez
ele se recorde com outra música, outra banda... quem vai saber?]
, ela não fica frustrada. A sensação de ter voltado
no tempo, com os olhos fechados, já era o suficiente para deixá-la
reconfortada - mesmo tendo que lembrar sozinha de como era bom [ele deve
ter esquecido. Ou quem sabe não está ouvindo?]. Fica rindo
sozinha, ninguém ali pode adivinhar o que está pensando.
[Talvez a "substituta"
... deve ter lá suas musiquinhas que daqui a alguns anos lhe trarão
o mesmo efeito que esta aqui está trazendo na "substituída".]
Mas aí deu aquela vontade louca de
voltar à realidade, abrir os olhos e ver se aquela outra estava
dançando. E - medo dos medos! - ver se, ao aparecer por aquele longo
corredor que dá acesso à pista, ele iria na sua direção
ou na dela. É uma coisa boba, besta, sem significado prático
algum, mas que ela desejava muito saber. E só porque era "Bang". Qualquer
outra hora, qualquer outra situação, qualquer outro qualquer,
ela não se importaria.
Por mais que a imaginação seja fértil, não há nada mais gratificante do que viver uma realidade-quase-sonho. Então arriscou uma olhadela para o longo corredor e ele não estava lá. A música já quase caminhando para o seu final, e ele não ia aparecer.
Eis que lá em cima, numa espécie
de "sacada" para a pista, algo lhe chama a atenção: uma figura
miúda acenando, acenando, fazendo firulas engraçadinhas com
o refrão. É ele! Ahh, e é na sua direção!
Porém, num instinto precavido, olha antes ao redor, verificando se
aquela garota poderia estar atrás dela. [You never know...]
Agora sim, ela acena de volta, recebe e manda beijos pelo ar, restando poucos segundos de "Bang". E, bang goes another day / where it went I could not say, um pequeno-grande gesto, tanto dele, quanto dela, denotam ainda a existência de algo que estava apenas adormecido.
Apontando um para o outro, na maior brincadeira, pareciam cantarolar: "I don't need anyone / but a little of your love would make things better..."
[Yeah... from time to time.]
Ela sorri. Não dá pra saber lá debaixo, mas ele está
feliz - e querendo um abraço.