Staccato

 (Julho, 1999)

© Dalva Agne Lynch

 

Dizer, estou ouvindo a chuva em staccato batendo nos vitrais

É tão banal quanto dizer que a chuva está batendo em staccato

Ainda que seja absolutamente verdade, ainda que seja real.

E observo com todos os sentidos aguçados por uma falta que não entendo

Pelo buraco enorme deixado por algo que nem sei  o que venha a ser

A chuva batendo contra os vitrais desta minha falta pelo inexistente.

Se digo, o que me falta são teus braços ao meu redor, e teus beijos

Não seria isso também banal e inútil, e ridiculamente lugar comum

Sem deixar de ser absolutamente verdade, e verdade que dói

Sendo a dor também real como o staccato na janela?

No entanto ambos são banais, e absolutamente inúteis.

Dizer que o que me falta hoje em meio à chuva é teu amor

E dizer que a chuva bate na vidraça o tempo que não passei contigo

É banal e inútil. Mas ainda assim a chuva bate seu staccato contínuo

E ainda assim esse espaço feito pelo teu não estar aqui me dói

Como se fosse algo importante, imprescindível, inadiável.

Sento-me frente à janela, observo as gotas descendo pelos vidros

Em desenhos totalmente indescritíveis em termos de poema.

E me pergunto por que a banalidade é sempre mais forte do que o resto

Como as frutas na fruteira lentamente se decompondo

Porque não foram consumidas em seu tempo determinado.

Nenhum poema se faria para as frutas, nem para o tempo que passou

E no entanto as frutas são as mesmas, apenas acrescidas do tempo

Por elas passando, deixando marcas. E isso também é banal

Como o staccato da chuva nos vitrais.

Volto-me outra vez para o interior do quarto, para o livro aberto

Para o poema inacabado. Tomo da fruteira inutilmente apodrecendo

Jogo a prova do tempo lixo adentro, e volto a me sentar.

O staccato persiste. Também persiste a perda, o vazio, a ânsia.

Penso na tua falta, ainda real, e na chuva, mais real ainda.

Retorno ao livro e mergulho em outras eras

Outra vida, na qual o tempo passou com significância

Com realidades maiores do que uma fruteira

Com uma importância maior do que o staccato na janela

Com uma utilidade maior do que esse vazio inacabado.

E a chuva continua batendo, incessante, na janela

O staccato do tempo do meu desamor.

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