Razão de Ser
© Dalva Agne Lynch

O
que amei em ti não foram as asas viris do teu desejo
Nem
as velas enfurnadas de teu grande amor.
O
que amei em ti foi teu cansaço
Resultado
das horas que gastaste lapidando sonhos
Fabricando
enredos, construindo mitos.
O
que amei em ti foi a força que acumulaste
Ao
passar a vida por ti deixando arestas
Esculpindo
sulcos nos traços do teu rosto.
O
que amei em ti foi tua ânsia por descanso
Depois
dos vales e montanhas que cruzaste.
Teu
caminho desenhou um mapa em teu semblante
E
amei em ti tua posição de marco,
De
diretório, de indicador, de bússola.
Eu
te acolhi no aconchego dos meus braços
E
acalentei em meu amor os sonhos que perdeste
As
amarguras acumuladas pela ausência
Pelo
irresolvido, pelo inexplicavelmente informe.
Eu
te amei por tudo o que não tinhas
Por
tudo o que não eras mas sonhaste ser
Por
tudo o que perdeste ou nunca alcançaste
E
por tudo o que te restou depois da luta.
Mas
nada disto te bastou, nada te rendeu conforto.
E
eu amei então a tua espera, a expectativa,
A
paciência tecendo horas e preenchendo espaços.
Só
meus espaços não se preencheram.
Só
minhas espera permaneceu em vão.
Tu
te voltaste ao teu caminho, outra vez inteiro
Lapidando
sonhos, fabricando enredos,
Construindo
mitos e pensamentos vãos.
Amei
então aquilo que eu tivera, a tua espera
A
lembrança, o marco, o diretório, a bússola.
Com
o meu ser poeta, arquiteta, formadora
Eu
procriei, como mulher que sou,
E celebrei em versos o que nunca foi.