A Escada de Jacob
(1996)
© Dalva Agne Lynch

Eu tentei te fazer poemas
mas busquei platéia
aplausos
bajulação
e, sob os holofotes
esqueci-me de ti.
Ah, sim, eu te amo
mas a vida me engolfa
enreda-me
enfeitiça-me
e eu a vivo
contraposta a ti.
Ah, sim, eu te quero
mas adoro tudo o que é belo
e escolho algo mais
qualquer algo mais
além de ti.
Teus braços, tua sombra
são meu único refúgio
mas procuro a claridade
o barulho
a multidão
e, no turbilhão
esqueço-me
até duvido
de ti.
Há
esperança na porção
de
Ruach*
que
me deste?
Ele
- ela
clama
por união contigo
enquanto
o restante de mim
inutilmente
persegue
a si mesmo.
Kiddush*
eu a
percebo
entrevejo-a
mas
ela me é estranha...
Como
posso ser eu
intrinsecamente
HaKaddosh*
vivendo
em meio à decadência
sendo
eu
inevitavelmente
decadente?
Há
por acaso outro caminho
para
ti?
Tu
dizes, que suba a mim
o
que é isento de culpa.
Como
posso eu?
Os
degraus da tua escada
são
escarpados demais.
Tu
dizes, venha a mim
aquele
cuja língua
não
se entrega ao mal.
Ah,
mas quantas palavras
desprezíveis
odiosas
jorram-me
da boca
em
um só fôlego?
Mélech
HaOlam*
como
posso eu
não
cometer o mal?
Ou
como posso
fraca
não lançar
olhos de inveja
a
quem parece ser
quando
apenas tento?
Não,
Mélech HaShalom*
eu
não posso.
Contaram-me
sobre outro caminho.
Falaram-me
de uma ponte
algo
menos escarpado
menos
íngreme
levando
de mim
até
o monte onde estás.
Acreditei.
Mas
de repente, HaShem*
não
havia mais ponte.
Apenas
meus dedos
entreabertos
por
entre os quais se escoaram
em
pedaços
meus
sonhos.
El
Rohi*
vês
meus pedaços
espargidos
no chão
como
vês minhas faltas?
Na
balança da justiça
a
que empunhas
qual
dos dois fardos
subirá?
No
livro que contém minhas faltas
também
minhas lágrimas
estão
inscritas.
Qual
das duas listas
é
a mais longa?
Estou
quebrantada,
El
Rophi*.
Disseram-me
que enviaste
alguém
dádiva
gratuita
para
catar meus pedaços
para
pagar meus pedágios
e
carregar o fardo
que
me coube.
Mélech
HaMelochim
.por
que então seria
que
ainda se paga pedágio
alto
preço
por cada
passagem
por
cada ponte
que
leva a ti?
Ah,
Elohim*
levanto-me
mãos
estendidas
meus
dedos antenas
cinco
em oposição a cinco
com
a circuncisão da boca
de
entremeio.
E
entendo.
Não
estamos separados.
A
escada que subo
não
me leva a ti.
Ela
segue rumo a mim mesma
ao
superior que sou
dentro
de mim.
Nos
degraus
Ruach
Ha'Koddesh*
penetra-me
circunda-me
torna-me
um
com
outros que vejo
com
a natureza
com
o infinito
ao
meu redor.
Se
sofri, todos sofrem.
Se
me regozijo
todos
se regozijam.
Apenas
não podemos ver.
Ainda.
Entendo
agora.
Entendo
e
abro meus braços
acolhendo as
dores
como
antes acolhi
o
riso.
Eu
te vejo agora.
Não
o construtor de pontes
não
o autor de listas
não
o que carrega o fardo
que
me cabe levar
roubando-me
a dádiva
divina
do
conhecer.
Ruach
HaKoddesh
o
Santo Espírito
o
Sopro Divino
o
Fio da Vida
ata-nos
juntos
dor
por dor
riso
por riso
em
um continuum
ad
infinitum.
Vejo
agora
a escada
de Jacob
subindo
em sons
em
harmonia
até
os portais
abertos
escancarados
sem
pedágio
ou
dor.
Com
Jacob escalo
os
degraus dos Anjos
e
sou uma contigo
Adonai*.
Palavras em hebraico: Ruach (Espírito
e sopro); Kiddush (santificação, separação); HaKaddosh (Separada,
consagrada); Mélech HaOlam (Rei do Universo); Mélech
HaShalom (Rei da Paz); El Rohi (O que Vê); HaShem (O
Senhor); El Rophi (Aquele que Cura); Mélech HaMelochim
(Rei dos Anjos); Elohim (Deuses); Ruach HaKoddesh (O
Espírito Santo, o Sopro Divino); Adonai (Meu Senhor).