Criança

para Gabriel

© Dalva Agne Lynch

 

 

Você está despertando - mas não, não desperte. Quisera eu

Poder mantê-lo adormecido no tempo e no espaço, adormecido

Enquanto a música do tempo continua a tocar seu ritmo desenfreado

Sua batida irrevogável, inexorável, fria, sem arrependimento.

Você, adormecido ainda - o tempo ainda não conseguindo dissuadi-lo

De simplesmente ser. Mas você despertará, criatura e criador que é

Inexoravelmente vivo. Você, cheio de sonhos ainda de seu sono abençoado

Protegido, acalentado, cercado por braços que o amam.

Quisera que você nunca despertasse para a tempestade de poeira inútil

Para o intenso sentir sem objeto que significa estarmos vivos.

Mas não - você está, agora mesmo, neste instantee, enquanto escrevo

Ativamente despertando, espreguiçando seu corpo de criança

Sua mente tão velha quanto o mundo, seu coração ileso.

Como segurar você no sono, quando nem o Eterno segurou o Homem

E nem mesmo a realidade dura da terra inóspita o fez voltar-se?

Desperte pois, criança. Vista essa roupa ridícula de ser-se adulto

Sua carapuça de criatura pensante, analítica, lógica, racional.

Abrace os anos que lhe esperam, longos anos vazios, ilógicos

Irracionais. Anos de busca pelo sono do que não mais existe

E por um poder abdicado à beira do leito abandonado

Descartado com o ressonar pacífico da curta noite da inocência.

Desperte pois, amigo, amado, criança em busca do Infinito

Sem saber que o Infinito estava lá, no sono de seus sonhos já passados

No descanso dos seus minutos que já se foram.

 

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