Caminhada Final

 

para David, que, na jornada desta vida

perdeu o que dela havia de melhor

porque nunca aprendeu a amar.


© Dalva Agne Lynch



 

Meus dedos dançam no teclado dando forma ao que é informe

Vestindo com palavras aquilo que está escondido em silêncio.

Ao longe, percebo uma figura solitária desaparecendo em névoa

O rosto já envelhecido, os cabelos brancos já não abundantes

E os olhos – amargos, duros, cruéis – lentamente perdendo o brilho

Consumido em rancores, desconfianças,  lascívia, possessão.

Apenas uma pequena figura escura, solitária, perdendo-se em névoa...

Os anos vividos não o quebrantaram, ao passar por cada perda

Por que ele nem as percebeu. Ainda jovem, arrogante, viril,

Passou por cada uma delas pisando-as sem dó, desprezando-as

Certo de que nunca retornariam ao cair a névoa do entardecer

Cobrando de volta cada minuto desprezado, cada momento rejeitado

Cada sentimento e fato jogado fora como coisa inútil, passageira.

Observo aquela figura curvada desaparecendo ao longe, solitária

Aquela forma sombria, velha, cansada, amargurada –

E de repente percebo que és tu, meu amado, meu amigo, amante

A quem com alegria eu teria acompanhado em direção à névoa

Com quem teria compartilhado como coisa minha cada perda

Acariciando as marcas da vida impressas em tua face.

Estendo a mão, tentando parar o inexorável dos teus passos

Tentando alcançar a silhueta de teu corpo lentamente se afastando

Tua figura solitária, sombria, cansada, amargurada –

Carregando aos ombros o fardo extra do meu desencanto...

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