Bloqueio

© Dalva Agne Lynch

 

Como formar pensamentos em um dia cor de cinza?

Até do amarelo se pode inventar poemas e estrofes

Porque ele se mistura ao vermelho para criar a manhã.

Mas o cinza sufoca. Vejo minha tela – que é branca – vazia

Porque o cinza fora de minha janela me intimida e me tolhe.

Não há cinza em sentimento algum a não ser tristeza

Mas nem essa é cinza: é violeta. Cinza é a falta.

A depressão. O buraco enorme deixado por seja lá o que.

Toma conta do horizonte, das faces das pessoas que passam

E de repente se insinua em meu teclado e me tolhe.

E o capítulo que me falta escrever fica não escrito

O poema que se me nascia fica irresolvido, informe

Como essas nuvens cinzas por sobre a silhueta da cidade.

Não há o desespero da chuva, a paixão da tempestade

O irromper do vendaval. Não há nem mesmo a carícia da neblina

Ou a sensualidade do dia ensolarado, em explosões de luz

Para depois amanhecer cor de lavanda por sobre o mar

Colorindo descansadamente as nuvens sobre os montes.

Não, nada. Só o cinza de um progresso absolutamente necessário

Mas nem por isso menos desprovido. Menos desolado.

Cinza é a cor das minhas amarras, das minhas ataduras

Do que me segura as mãos, do que me tolhe a mente.

E de repente se me rompe a barragem do silêncio

E as palavras jorram no teclado não pela cor cinza

Mas em rebeldia contra as cadeias e amarras que me tolhem

Levando minha mente a olhar para além delas, para além do cinza

Para o meu próprio quadro na parede, ouro e lavanda sobre o mar.

Olho o quadro onde coloquei todas as cores da antemanhã

Nascendo por sobre a baía a despeito de um desamor.

Observo com cuidado a palmeira sob a qual sentei

E chorei o incompreensível, o absurdo, o incomensurável

Em tons e sons, e com sabor de maresia. Mas são as minhas cores

Não as cores do real. Elas pertencem a mim, não às coisas.

As cores verdadeiras, as que cobrem a tela e que me enchem os olhos

São aquelas que empreguei a despeito do cinza do desencanto

O cinza estúpido do abandono, do desprezo, do desamor.

Sento-me outra vez ao teclado e deixo correr palavras

Verbos, adjetivos, pronomes, conjunções.

Retomo o capítulo que deixei aberto

E refaço a vida ora em tons pastéis, ora em cor magenta

Recolorindo o cinza, desafiando o tempo

E com meus dedos recriando o amor.

 

(fig.de fundo: Rio, óleo sobre tela)

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