O Mundo Após Lillith

(O Mundo Após Lillith, óleo sobre tela - 09/99)
© Dalva Agne Lynch
Quarta-feira, 16 de setembro de 1999
Hoje fui ao meu atelier de pintura, sem vontade de pintar nada.
Há um caos total aqui dentro de mim. Como colocar isto em cores? Comecei a brincar com as tintas, sem saber o que estava fazendo, e pintei uma flor babaca em um cartão cor-de-rosa. O pessoal começou a fazer troça de mim.
"Ô Dalva, 'cê tá apaixonada, menina?"
Eu, pintando flores em um fundo cor-de-rosa? Nunca pinto coisas assim.
De repente algo acordou. Uma onda de rebeldia, um vento de ira... Todo mundo havia retornado aos seus trabalhos. Eu me vi sozinha, circundada por aquele vento irado... e foi como se meus dedos estivessem se movendo por si mesmos, e as cores estivessem se misturando por alguma força que não a minha.
Comecei a literalmente jogar as tintas sobre a superfície da tela com uma espátula, e assoprar as cores com força, espalhando-as na brancura. Depois joguei água raz sobre as cores, e comprimi as cores contra a tela com chumaços de papel higiênico! O pincel não dava o efeito que eu queria. Algodão tampouco. A espátula tampouco. Simplesmente fiz um monte de bolas de papel higiênico e comecei a comprimir a tinta contra o papel, moldando as formas.
Quando terminei,
tinha tinta pela cara, avental, mesa, chão, you name it. A dona do atelier
estava me olhando torto. Mas o resultado foi de arrepiar os cabelos.
Isso nunca havia me acontecido antes.
Vejam a figura acima: um rio escuro e atribulado, passando por entre duas árvores contorcidas, penetrando fundo em uma cova, da qual emana uma luz vermelha. Fora, o escuro. A copa das árvores se contorcem, o chão parece se mover sozinho... Ao lado esquerdo, no céu escuro, brilha o pentagrama, como uma lua sangrenta...
O céu se enrola como um pergaminho queimado, desaparecendo nas trevas crescentes.
A conhecida paisagem bucólica do Paraíso antes da traição de Eva cresceu e se expandiu por si mesma, jorrando de dentro de mim com vida própria - vista através dos olhos esgarçados de Lillith, a amante excomungada.
As pessoas do
atelier ficaram olhando: "O que deu em você, Dalva? Acabou a paixão?" Rolaram as
piadas.
Ah, mas eu sei o que houve.
Hoje Lillith se
levantou dentro de mim, cercada de suas Fúrias, e coloquei na minha tela a
rebeldia da expulsão injusta, e do caos que resultou no paraíso, quando a
verdadeira mulher se foi dando lugar à escrava.
E coloquei na minha tela as cores proféticas do coração do macho...
