Shabbat

(1997)

para Paulo Coelho

© Dalva Agne Lynch

 

Movem-se as pontas do xale por sobre minha cabeça

Na brisa que pela janela entra, sem convite.

Minhas mãos dançam em círculo, asas brancas

Por sobre as chamas. Baruch Atah Adonai Eloheinu

...l’hadlik ner shel Shabbat.

Na escuridão dos milênios brilha a minha luz solitária

E por ela minha alma sobe rumo ao infinito.

Mas os anjos que me cercam hoje não são de paz.

Hoje perante a luz levantei minha arma de palavras

E os anjos se vestiram com armaduras de guerra

E empunharam espadas desembainhadas, em prontidão.

Seus cabelos dançam no vento de minha ira

E me coloco à frente de suas hordas em rebeldia.

Sou a que não aceita o jugo, o rótulo, a posição de escória.

Hoje minhas velas iluminam meu campo de batalha

E a criatura milenar que em mim habita

Perita que foi no veneno, no punhal, no encanto

Fechada em seus aposentos com seu caldeirão, suas poções

Outra vez desperta. Minhas poções agora são palavras

Meu caldeirão é meu teclado. Permuto letras como ingredientes

E fabrico minha magia com rimas e versos e frases.

Como todas minhas irmãs, milênios afora, levanto as mãos

E meus dedos cantam no teclado a canção eterna

A mesma daquelas que antes de mim também cantaram

E ansiaram como eu por esse mesmo algo inefável, infinito.

E ao meu redor, a noite de Shabbat se fecha

Incomensurável. Levanto-me frente às hostes de meus anjos

Preparados, armados, expectantes

E escrevo.

 

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