Zubiri - Pamplona2� dia - 20,5 km |
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Saímos às 7:40h. Segundo meus planos, deveria pernoitar em Cizur Menor que fica cinco quilômetros depois de Pamplona. Ainda em Zubiri, vimos uma padaria na qual entramos dispostas a tomar café. Estava cheia de peregrinos. Depois de dez minutos sem sermos atendidas, desistimos e saímos em jejum. Atravessamos o ponte e seguimos até a fábrica de Magnesita onde perdemos a sinalização que, ou estava deficiente, ou nós estávamos distraídas. Sem sabermos que direção tomar, dividimo-nos em pares, um em cada direção, à procura das setas. Jumara e eu ouvimos uns gritos e retornamos. Depois, silêncio total. Como Ju estava com os joelhos doendo, seguimos mais devagar por entre montes de magnesitas, onde tiramos lindas fotos, sem nos darmos conta que estávamos totalmente perdidas. Notei que a minha sombra tinha mudado inteiramente de posição. Sempre pela manhã o sol batia nas nossas costas, o que é óbvio, pois o Caminho é em direção leste-oeste, porém, o sol estava batendo em meu rosto. Ninguém para dar uma informação. Ainda insistimos um pouco, pois à frente via-se um povoado do outro lado do rio. Avistamos um guindaste e aproximei-me para pedir informação. Desapontada, soube que estávamos indo de volta em direção a Zubiri. Nossa! Estávamos mais de dois quilômetros fora do percurso; Jumara a estas alturas estava se apoiando no meu bastão para aliviar a dor nos joelhos. Voltamos a andar vagarosamente, agora na direção certa. Tínhamos que alcançar Larrasoaña, onde havíamos combinado encontrar Flávia e Yoko para lanchar. Caminhavámos por verdes trilhas de bosques úmidos ao lado do rio Arga. Cantávamos e agradecíamos a Deus a oportunidade de estar num lugar lindíssimo quase intocado pelo homem. Ju andava cada vez mais devagar, eu ficava cada vez mais angustiada querendo acelerar. Tive uma vontade enorme de seguir adiante e deixá-la para trás. Todavia, não tive coragem de abandoná-la à própria sorte. Uma amizade muito forte já nos unia. Santiago me dava outra lição: paciência. Atravessamos a gótica "El puente de los Bandidos", do século XIV, assim chamada porque era o local onde os peregrinos eram emboscados por bandoleiros. Chegando a Larrasoaña, procuramos um lugar para comer. Sem querer, fomos dar no bar do Zangalo, onde comemos bocadillos, café com leite e um pedaço de torta de Santiago (feita de amêndoas, ovos e açúcar). Estranhei pois me disseram que essa torta só era encontrava na Galícia, que fica na última etapa da peregrinação. Saindo do bar, senti uma ardência no pé: era a minha primeira "ampolla" (bolha). Munida com meu kit peregrino, gentilmente amealhado e a mim doado por Lourdes e amigos, costurei-a, deixando o "Compeed" para outra ocasião. Foi uma sorte ter todo este material pois, até aquele momento, não havíamos encontrado uma só farmácia aberta. Saímos de Larrasoaña cantando. Dali em diante, o Caminho era de cascalho, parte pela mata e parte em céu aberto. Fonte à vista, água geladinha e refresco para cabeça, pés, enfim - tudo. Encharquei-me. Fazia muito calor, e o sol estava inclemente. Pode parecer estranho, porém, não pensava em ninguém e não sentia saudades, pelo menos até aquele momento. Aos poucos aquela angústia de ter que andar rápido foi passando e eu estava até gostando de ir devagar. Estava aprendendo a ser mais calma e paciente. Puxa, Santiago tinha começado cedo a me dar lições, e eu a assimilá-las. Jumara, por seu lado, estava aprendendo a ser menos vagarosa, portanto estávamos nos adaptando uma a outra perfeitamente, cada uma abrindo mão de um pouco. Cidade à vista, achamos que era Pamplona. Ledo engano, era Villava, tínhamos ainda mais 6 quilômetros de caminhada. Entramos na cidade observando as sacadas floridas com bandeiras do ETA. Bebemos da fonte e saímos atrás das setas amarelas, dentro da cidade são bem mais difíceis de achar. Podem estar pintadas no meio-fio, no tronco de uma árvore, na fachada de uma casa, num banco de praça ou numa lixeira. Atravessávamos a cidade lentamente. De repente paramos e nos abraçamos chorando. Estávamos exaustas, e com nossa amizade solidificada. Sabíamos que podíamos contar uma com a outra para o que fosse necessário. Eu estava feliz por não ter seguido o impulso de deixá-la e seguir só. Saindo de Villava, encontramos sentadas no meio-fio Flávia e Yoko, preocupadíssimas conosco. Seguimos juntas até Pamplona. A muralha medieval que circunda a cidade é imponente. Passamos por uma ponte levadiça, que agora é fixa, e entramos pelo portal norte da muralha. A cidade é bem grandinha, e impressionam as ruelas e construções medievais. Finalmente achamos uma farmácia aberta. Compramos um estoque de "Compeed" e "Radio-salil" (pomada anti-inflamatória para massagear os pés e pernas). Tentei comprar um desodorante porque o meu esqueci em casa numa das muitas arrumações da mochila. Só havia uns enormes e super pesados. Desisti. Deixei para a próxima parada. Aproveitei para pesar a mochila, Uau!!!! Só 6,4 quilos. A da Jumara devia pesar uns 12 quilos. Mais uma vez não consegui chegar onde havia planejado. Já fui avisada de que, em Pamplona, o albergue era ruim. Optamos por procurar um hostal (uma hospedaria ou estalagem, bem mais baratas que um hotel). Todos muito ruins ou lotados. Então voltamos à Praça del Castillo e nos hospedamos no Hotel la Perla, o mais antigo da Espanha. Razoável. Ju e eu ficamos num quarto e Flávia e Yoko em outro. Que luxo!! Um banheiro só para nós. Toalhas limpas e felpudas!!!! Tomamos banho e lavamos a roupa na banheira. Nosso quarto tinha uma sacada onde eu rapidamente estiquei meu extensor, fazendo um varal. Eram 7:00 horas e corri para uma loja de esportes para Ju comprar roupas mais adequadas. Ela estava machucada, não sabíamos ao certo onde a loja ficava, e tínhamos pouco tempo antes que elas fechassem. Portanto, não havia outra alternativa senão tomar um táxi. As outras duas se recusaram dizendo que não entrariam num carro durante todo o Caminho. Eu não era tão radical. Saindo da loja Coronel Tapiocca, fomos a outra de esportes bem em frente, e Ju comprou o resto que faltava. Calça-bermuda, óculos escuros, casaco de montanhista, porta-garrafa d�água e um bastão retrátil. Dali corremos para selarmos nossos passaportes. Jantamos no Café Iruña (que quer dizer Pamplona em basco), o mais antigo (1888 ) e tradicional de lá. Ainda bem que era ao lado do hotel, pois eu estava muito cansada. Não tinha dores nas costas nem nas pernas, apenas os pés me incomodavam. Naquele momento, decidi que ia seguir sozinha no dia seguinte, e quando saí do restaurante liguei aos prantos para Gustavo participando a ele minha decisão. Era difícil, mas eu precisava seguir. Já estava atrasada de novo. Meu destino deveria ter sido Cizur, no entanto mais uma vez parei antes. Eu tinha um plano que precisava seguir porque senão ia me desencontrar de Gustavo. Choros e despedidas antes de dormir. Ju pediu que eu reconsiderasse. Passei a noite rolando na cama, talvez fosse a angústia ou medo de sair só. No meio da madrugada desisti da empreitada. | |
Pamplona - Puente la Reina3� dia - 25 km |
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Mais uma vez saímos muito tarde, por volta de meio dia. Primeiro, fomos ao correio, onde Ju despachou uns seis quilos de excesso para Santiago. Depois voltamos às lojas, pois Yoko queria um bastão, e Flávia um porta-garrafa de colocar na cintura, e por último paramos para tomar o café. Eu já estava aflita de novo; afinal, o trecho até Puente la Reina incluía a subida ao Alto do Perdão. Eram 24 quilômetros para serem feitos sob o sol da tarde. Saí na frente, e Flávia me seguiu. Atravessamos o campus da Universidade de Navarra, e aos poucos fomos nos distanciando das outras. Chegando a Cizur Menor selei minha credencial e sugeri ficarmos por ali. Flávia insistiu que devíamos tentar chegar a Puente la Reina. Então participamos a Yoko e Ju - que devido a nossa parada tinham nos alcançado - que seguiríamos, mesmo sem ter a certeza de que chegaríamos lá. Separamo-nos novamente das duas e começamos a subir. Ao longe avistávamos Pamplona e, ao fundo, os Pirineus tornando-se cada vez menores às nossas costas. À nossa frente campos de trigo e no alto, os célebres moinhos de vento, hoje supermodernos, em metal, lembrando uma hélice de avião. Paramos em Zaraquiegui para descansar. A fonte estava seca, e nenhuma alma viva à vista. Rodamos o "pueblo" (pequeno povoado) e nada. Hora da "siesta". Chegamos perto de uma casa, batemos palmas, um rapaz apareceu e nos indicou uma fonte no ponto mais alto da cidadezinha. Fazia um calor infernal. Arrastamo-nos até ela onde saciei a sede, encharquei a cabeça e pus os pés de molho. Saímos à procura de uma sombra para nos sentarmos. A única era a da torre da Igreja de San Miguel. Um cachorrinho branco aproximou-se, pedindo comida e carinho. Encontramos ali mais dois peregrinos lanchando. Um, totalmente louco. Disse-nos que estava peregrinando como penitência por ter matado a sogra que, aliás, se parecia muito comigo. Não sabíamos se acreditávamos ou não, mas o fato foi que me assustou um bocado, principalmente porque tínhamos um trecho bastante ermo à frente. Lanchamos rapidamente para nos afastarmos o máximo possível do louco. Fomos subindo aos poucos até 734 metros de altitude. Chegando ao Alto do Perdão, para nossa surpresa, um lindo monumento: esculturas de peregrinos em ferro, andando, em direção de Santiago. Em frente um oratório; ajoelhamos e pusemos nas mãos de Deus o nosso Caminho. Começou uma descida bem mais íngreme e difícil que a subida, em meio a numerosos trigais. Lembrei-me de que alguém havia comentado que os trigais eram o canal direto de comunicação com Deus. Fizemos nossas preces e gritamos feito loucas os nomes de todas as pessoas queridas. Ao mesmo tempo, chorávamos muito. Foi um momento de grande emoção e saudade. Lembrei-me de pessoas que não via há muito tempo: minha filha que está morando fora, minha mãe, Bernardo, Gustavo, amigas queridas, enfim, de todos. Também os entes queridos já falecidos foram lembrados. Pedi-lhes proteção. Em Muruzabal, um velhinho, assim que nos avistou, levantou-se e muito, mais muito vagarosamente, veio interceptar o nosso caminho, pedindo-nos um beijo. Eu dei. Que doce de velhinho, devia ter uns 90 anos. Esqueci de tirar uma foto. Seguimos caminhando. Um pouco antes de Obanos, cruzamos com dois casais, e as senhoras vieram nos abraçar e beijar. Imagine, nós suadas e sujas!! Mas isso não fez a menor diferença para elas. Uma delas se chamava Pureza. Conversamos e nos indicaram um "hostal" para dormir em Obanos. Dei-lhe um broche com a bandeira do Brasil. Seguimos até Obanos, mas Flávia insistia em chegar a Puente la Reina. Eu estava exausta e ficaria por ali mesmo. Mas como faltavam menos de três quilômetros, seguimos em frente. Na saída da cidade encontramos dois paulistas com um recado da Yoko e da Ju. Elas tinham decidido ultrapassar o Alto do Perdão e pernoitar no primeiro "pueblo" que alcançassem. Chegamos a Puente la Reina, cidade em que os Caminhos Francês e Aragonês se encontram, cansadíssimas, às 19:30h, com o sol ainda alto (no verão o sol se põe por volta das 22:30h), e fomos para o albergue. Estava praticamente lotado, e não havia hospitaleiro à vista. Resolvemos tomar banho, lavar a roupa e ver se alguém aparecia. Tomei posse de um colchão, desta vez em cima do beliche. Nada mau, seis peregrinos por quarto. Corremos para a Igreja de São Pedro para conseguir um selo e tentar assistir ao fim da missa. Estava tudo apagado, mas o padre nos deu a bênção do peregrino e carimbou nossas credenciais. Tentei visitar a Igreja do Crucifixo, linda igreja templária, que tem um crucifixo que em vez de ter a forma tradicional de um "T", tem a forma de um "Y", mas estava fechada. Jantamos e voltamos para o albergue. Fui escrever um pouco no refeitório. Eu estava exausta e precisava dormir. Coloquei os protetores nos ouvidos e a máscara. Rolei um pouco na cama de molas barulhentas e apaguei. |