Oooops, a comida tá fugindo!

 

 

Todo brasileiro dá um jeito de trazer na mala alguma gostosura verde-amarela que não pode ou é muito difícil de ser encontrada igualzinha por aqui como feijão, palmito e sonho-de-valsa. No meu caso e no do Bruno, batata-palha e requeijão Catupery.

 

Após chegarmos de viagem do Brasil, convidamos o Nicholas e a Sabrina para experimentar uma das nossas receitas mais adoradas, a qual chamamos carinhosamente de “camarão-com-batata-palha-e-catupery”. Ou seja, uma camada de camarão refogado com cebola, alho e tomate espalhada no fundo do pirex, sufocada por uma generosa camada de requeijão Catupery e, como golpe final na dieta, uma cobertura transbordante de batata-palha. Tudo levado ao forno para ficar mais crocante e dourado.

 

Foi com essa água na boca que fomos a uma das duas maiores redes de supermercados locais buscar o último ingrediente que faltava para o prato: o camarão.

 

Por aqui eu faço uma pausa para explicar um costume local: comer a comida o mais fresca possível.

 

Quando a gente chega por aqui, é até interessante ver os peixes e outros frutos do mar vivos, expostos em pilhas de aquários nos restaurantes e supermercados. Tratamos como uma dessas peculiaridades que os turistas adoram ver, fotografar e contar sobre o oriente. Até que você olha bem e começa a perceber que pode ser um pouco triste.

 

Na maioria das vezes, os peixes não estão ali bem cuidados e alimentados. Estão amontoados, machucados, multilados pela dura jornada que fizeram desde mar, jogamos por puçás de recipiente em recipiente. Alguns ficam flutuando de lado, semi-mortos, cegos... Não são para se olhar, são comida. 

 

Os caranguejos ficam com os pés atados. Ainda assim, há sempre algum tentando escapar. Ele vai escalando a pilha de outros caranguejos condenados até que, intrepidamente, consegue projetar-se para fora e cai... num aquário dos pepinos-do-mar. É estranho observar como alguns já desistiram de tentar ou nem começaram. Ficam apenas mechendo os olhinhos.

 

Da primeira vez que vi um desses aquários, fiquei ali parada, com cara de dó. O Bruno, percebendo, me puxou: “Vão achar que você é doida.” Mas, volta e meia, fico observando um camarão fugitivo pulando para o chão do supermercado.

 

Deixando a tristeza de lado, lembro que que esse é o destino de quase todos os animais que são abatidos em série. Então, OK, vamos comer! Pedimos os  camarões e os recebemos... vivos! Como assim? Pedimos para o rapaz matar. Ele não entende inglês. Então o Bruno faz um gesto ilustrativo, como se estivesse torcendo e arrancando a cabeça de um camarão, enquanto eu seguro o saco pululante. O rapaz diz algo incompreensível.

 

“Eu não vou matar de jeito nenhum! Esquece!” _ digo. O Bruno aponta para o único pacotinho de camarão congelado que há no display e diz para o atendente: “Quero como esse aqui!”

 

Faço um gesto de degolação para o rapaz, passando a mão reta em frente ao pescoço, achando que ele ainda não entendeu o que estamos querendo. Ele meche a cabeça negativamente e continua falando algo. Não chega a ser uma comunicação.

 

O Bruno me olha com o ar de “Tem certeza que não?” e meus olhis respondem: “Não tem a menor possibilidade! Pelamordedeus!”. Então ele sai para procurar alguém que fale inglês.

 

A essa altura eu já estou com raiva dos camarões. Quero que todos morram! Deus que me perdoe... mas não dá mais tempo para ir comprar em outro lugar e nós prometemos para as visitas “camarão-com-batata-palha-e-catupery”.

 

O Bruno chega com o gerente e me diz que ele vai mandar matar, mas vai custar um pouco mais caro. Entregamos os camarões à sua sorte.

 

Dou de costas, aliviada. Volto em menos de um minuto. Olho para o saco, todos mortos e descascados.

 

Eram cinzas, mas ficaram bem rosados no calor da panela.

 

Quem mandou serem tão gostosos?

 

 

 

Liliana Bettina Alvez, Hong Kong, Junho de 2004.

 

 

 

 

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