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Já faz muitos anos

Os homens silenciosos, como nós, não temos medo. Por isso- e há sempre que se precaver-, a palavra é a nossa armadilha, a nossa tocaia. E o caso seja irrecusável falar, preferimos as palavras duras, consonantais, todas aquelas palavras que trazem em seu bojo a recordação de uma arma. Não é preciso dizer que somos muito perigosos.
Era perto da meia-noite de um dia qualquer da semana, já faz muitos anos. Íamos em cinco duplas. Toda cidade dormia e, de ruído mesmo, somente os nossos sapatos produziam aqueles estalos, próprios de quem nada teme, nem ante nada se acovarda.
O bar- e há sempre um bar em nosso caminho- ficava a cem jardas de onde, por decisão repentina, parámos. Nossos dez olhos fizeram lentamente um giro de 180 graus, do leste para o oeste: um automóvel negro, um busto de mártir, a igreja, um automóvel azul, a farmácia, dois cães sonolentos perto de um lixo. A primeira dupla tomou a dianteira, nós seguimos.
Já encostados no balcão, cavalgámos todos os nossos dedos sobre a madeira. Pelo espelho à nossa frente vimos todos eles ( algumas mulheres, alguns homens, uns atónitos, outros bêbados) nos olhando. Mais uma vez martelámos o nó dos dedos no balcão. O taberneiro nos trouxe a garrafa com vários copos.
Bebemos em silêncio uma e uma dezena de vezes. Tínhamos muito tempo. Sempre tivemos tempo. Talvez a eternidade.
O primeiro a nos provocar a palavra era nosso velho conhecido. Aproximou-se. Disse coisas aliciantes. E antes que abrisse a boca pela terceira vez o eliminámos.
Mas eles eram teimosos. Nem haviam retirado o cadáver, outro, e outros, já tentavam-nos com artifícios diversos: palavrinhas, palavrórios, ninhada de sílabas. Por isso, foram caindo. Não é preciso dizer que jamais errámos um homem.
Por fim, veio o surdo-mudo. Tocou-nos os ombros, queria um trago. Depois outro e uma garrafa. Ele fedia a cebola e a fatalidade. Era o mais esperto deles. E como apenas gesticulasse e nos cansasse, e porque tinha todas as palavras audíveis e inaudíveis encravadas no fundo dos olhos, também o sacrificámos. Doce e silenciosamente.

Paulinho Assunção,Pequeno tratado sobre as ilusões, Campo das Letras, 2003

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