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O Anjo da História 
Poder-se-á descrevê-lo como um monstro? Observêmo-lo
enquanto desce as escadas que conduzem à antecâmara
do destino: haverá quem o respeite quando assim
se deita, como Olympia, tão submisso? Não se descortinará
nas olheiras um fogo posto ? Prefere os actos às palavras
mas, quando se cala, parece tão persuasivo.
Consistirá o seu segredo em fechar-se assim tanto
por dentro?! Os resposteiros em que se embrulha,
contudo, são de veludo. Verde, a maquilhagem
com que parece vir do sepulcro. Mas a pose
é grandiosa. E a saída de cena imponente,
abrupta. Não diz nada. Deita os fósforos fora.
Enquanto a plateia arde e uma teoria de espectros
se levanta para o aplaudir, impaciente e estúpida.
 
Corrigindo as provas de um livro, em 1821
O melhor é seguir o exemplo de Beyle, apostado
em escrever, para afastar de si todos os sinais
de uma memória querida, o relato minucioso
do seu ano de retorno a Paris, em 1821. E de facto,
a memória do não-vivido atravessa-se à nossa
frente como a promessa de um ideal cujo fim,
no entanto, preferíamos não ter conhecido.
A reserva em nós do impossível? Mas lamentar-
nos-emos sempre de que nosso céu esse sol,
mesmo obscuro, não nos tenha ofuscado com
o seu brilho. Sim, é sempre com lágrimas
nos olhos que, um dia de chuva, corrigimos
as provas confusas do destino. Nas páginas
brancas do livro- das flores que se desprendem
da gravura- o autor pensa no paradoxo
que dele fazia o leitor infiel do seu livro.
O equivalente de uma experiência que só
se torna credível de por outro ter sido
escrita. Daí a dúvida sobre onde começara
(para acabar) na vida, a literatura.
Profite de ma douleur pour t L. 18.
Pétalas de frase que, ao cair do vaso,


Contra-revolução e literatura
Invariavelmente, toda a estética aspira ao poder.
A um controlo das almas, ou das emoções, que
depois se traduz num mimetismo confuso
dos músculos. Mas sempre uma reserva- ou
um dispêndio- de energias. Será essa a função
obscura da poesia? Exercer um benévolo
terrorismo? Como lhe contrapor a experiência
de dissolução que dela faz, antes de mais,
uma lenta erosão pela febre do espírito?
A poesia é uma doença, mas o seu contágio,
ao contrário do que os pragmáticos pretendem,
não constitui fonte de alegria. Retenha-se
a impossiblidade da morte- e a atenção
presente na sua discreta música. Foi mesmo
o que escrevi? Até nas fantasias de despossessão
a vontade de persuadir, com s suas anfibologias,
persiste. Talvez seja essa a razão da indiferença
a todas as formas de reconhecimento do espírito.
Nenhum bálsamo serena o que em nós se corrompe
de ter sido definitivamente perdido. Interrogam-se
os poetas do lago sobre a razão e ser dos cisnes
                                e o seu sentimento de exílio? 
de Teoria da Revolução (2000)

Fernando Guerreiro

 

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