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Tudo me doía.nas mãos o último voo.ave.corpo.tubo de
ensaio em profunda alquimia

um comboio.pesado.inexorável.desliza.devora horizontes.car-
ruagem a carruagem.ferida a ferida.não há estações.nem local
onde parar.não posso descer.nem pousar a raiva e o grito que
dentro de mim vai.

os filhos de Dhritarashtra.o cego.preparam a batalha na pla-
nície dos Kurus.dois exércitos.inevitáveis.iguais.absurdos.
poderosa é a visão de Sanjaya coberta de presságios.não adian-
ta deter os corpos.o seu destino é passagem.inexoráveis.ne-
nhum deles há-de morrer.nenhum há-de sobreviver.


espero o fim da linha.pedra.árvore.casa.muro.rua.o arrepio.
a vertigem.a mulher ria de pavor.a tua voz.não me lembro do
nome.a noite estreita.mesmo que disseses e me olhasses não sabia
que eras.viajamos em direcções supostas para longe.deixo o sonho.
um homem horizontal.qualquer coisa que já conheci.desfeita

Arjuna o arqueiro viu as coisas
em si mesmo e estremeceu.


há uma ponte.e uma impressão acessa de que tudo passa por ali.

meu Deus não me faças voltar outra vez.

de Ariadne

 

Emanuel de Sousa

 

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