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A Raiz Afectuosa

Com os anos
a pouco e pouco
a raiz afectuosa
penetrou
no fundo da terra
até chegar ao mais pequeno
e mais antigo
veio de lágrimas.

 

Elegia para Ana Achmatova

Foi em 5 de Março, quase no fim deste Inverno.
Com outra luz gostaria de ter entregue o corpo.

Nevoeiro que nos montes se rasgava, despeda-
çado pelas árvores mais altas, herdara de Emily
Dickinson o deslumbrante hálito sonâmbulo e
de Safo o voo apaixonado.

Safo, Emily Dickinson- duas vezes mortas.

 

O Regresso

Regressado da morte
procurava o calor das fogueiras,
o cheiro lêvedo do pão,
o passo dos cegos na rua,
o ninho ancorado à varanda
com o seu frágil, suspenso
voo de barro, as grandes rugas
das casas que envelhecem.

Oh a alegria
de tocar na própria carne,
no rosto que vira inquietamente crescer.

Nem que fosse um instante,
seguia o rasto ido do futuro
e sonhava ser aquilo que não fui:
o Inca clandestino, a coberta das árvores
depois das últimas chuvas do Outono,
o cúplice dos que se amam, ou nuvem
que de outras nuvens se aproxima,
rio que noutros rios deita a sua água,
pai exangue ou filho de tudo quanto existe.

 

De: A Raiz Afectuosa (1972)

 

Aparições No Poço

Quando chegam as primeiras nêsperas
ao lado florescem as cilindras
e as folhas de bambus amarelecem.
O mirto aguarda, entre laranjeiras
elevam-se famílias daninhas.
Há quem chame Deus às legendas
que acompanham a película da terra.
Dentro (isso é certo) nas entranhas
de tudo existe um cronómetro sádico.

 

Fala o arrumador de automóveis

Assustado com a miséria e estes anos,
pouco espero de Deus e dos homens.
Não mendigo, olho de soslaio, adivinho,
sem gratidão guardo no bolso os óbolos.
E fui pescador, depois faroleiro: longe
deitava a alma, relâmpago
sobre falésias, em estrelas tocava,
a sirene era o meu grito de amor.
Transluzente e distante e bom
como clarões de um farol nunca foi fácil:
algo se afundava debaixo de mim,
desconhecida culpa. Odeio, sim, odeio
este parque onde chuva e sol impõem as mãos
e na pele penetram sem bálsamo.
Primeiro a luxúria, depois vinho,
escuridão. No fundo de um poço
cujas paredes ressumam lágrimas e avencas.
Custa ganhar a vida e perdê-la.
Tudo foi defraudado, sou eu
-eu ou alguém por mim-quem aperta
desde a infância o nó que me estrangula.

 

Para os ciganos

O pirilampo, aquele semáforo apenas verde
e oiro, na manta estava dos ciganos.
A lua era a cocheira onde dormiam.

Dois jumentos escutavam os ralos,
torpor, a litania das rãs.

O tanque era mãe grande,
parturiante de águas e insectos.

Passara a floração das olaias.
A noite, gota a gota, destilava calor.

E os figos exsudavam uma lágrima de doçura
para os ciganos, na manhã seguinte.

 

Não só as árvores

Não só as árvores detinham ruídos misteriosos.
Havia o apelo tocante do amola-tesouras;
o ronronar do fogareiro do petróleo
aquecendo a cara e a cozinha;
a buzina pedinte do carvoeiro;
o atrito da roda, húmida de lama,
as mãos ágeis, deslizantes, dos oleiros;
o estremecer da lã cardada pelo colchoeiro;
a trepidação enraivecida dos canos pelas paredes;
e a corrosão mineira do caruncho
expelindo colinas de pó e escombros.

 

Não ignoro a morte

Não ignoro a morte, nem ela,
maré subindo, me ignora.

Sismógrafo
de suas investidas,
berços, fendas.

Prazo de remissão lhe peço.
E generosa seja
com a infância deste cão,
Bravor, que tudo
ignora e o nome
repete de outro, íntimo
do cheiro de meus pais.

Prazos concede, os seus,
solertes. De credor avaro,
exigente
de segunda, última praça.
E por um nada arremata.

 

De: A Ignorância da Morte (1978)

 

Convulsões

Convulsões,
volúpia
de olhos fechados,
simulacro de tanta agonia.

De olhos abertos
os gatos
entre si repousam, dividem,
sem da morte se aproximarem.

 

Matriz

Matriz
de remos caminhando;

terreiro de buscas,
mainupalções;
cela
onde não há desespero:

o lugar do amor.

 

Sonho

Gostaria me sonhasses
   vento sobre flor;
espiga de outro sono,
   bolbo de outra vida.

Gostaria me encontrasses
   ave caída;
e lhe desses depois
   o voo de outros séculos.

 

Muitas coisas


Não é uma coisa só,
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.

 

Amor de Goya

A Carlos Nejar

Qual das duas, a nua ou a vestida,
contém a sua alma? Seguramente
ambas percorreu poro a poro,
afundou-se no seu peito, na suave
cratera do ventre, na fenda
gomosa que nehum filho lhe deu
e no bosquete, no acre perfume das axilas;
beijou em ambas os olhos tremendamente inexplicáveis,
o ponto equidistante dos lábios e sua delicada união,
tocou-lhes na anca, nessa parte
que nem a garupa do mais esbelto dos seus cavalos
excedeu alguma vez
e acariciou-lhes os joelhos,
implorando, sem palavras, morrer entre eles.

Se pudesse trocar de alma, a tua, Goya,
escolheria. Felicidade da pintura:
eis vivo, duplo, evidência cósmica, o que mataste
e tu dentro delas, sangue, carnação, a luz
distante, orgulhosa, dolorida de seus olhos.

 

De: O Lugar do Amor (1981)

 

Augúrio

Não antecipes a tristeza
de morrer: não queiras muito
às lágrimas: consola-te
bebendo-as. E sê grato ao dia
em que, vivo, as tragaste.

 

O Poeta é um pintor cego
(Miguel Ângelo)

Cego de palavras.
Intempéries, da verdade.
Chuva
futura, manancial
de nuvens.

Palavras ígneas:
acendalha, carqueja,
lava impreterível.

Ou constrangidas:
pureza, embalsamar o tempo,
amor desdobrável.

Palavras desgraçadas:
orfanato, coval, magarefe
untuoso de sangue.

Ou felizes:
filodendro, verdelha, cordeiro
dormindo no dorso de sua mãe.

Palavras proibidas:
absoluto, garganta
do rio, vidente do insolúvel.

E outras cegas palavras:
a imunidade
(orgulhosa) do suplicante.
O resgate-ilacerável, imenso.

 

De: Décima Aurora (1982)

 

Para Mário Botas

Ele próprio acabou renunciando
discretamente ao desejo
de ser cremado: os mais íntimos
lançariam do alto as cinzas pelo mar.
Útil seria a peixes, a recente matéria.
De frente veria a terra da Nazaré,
as mulheres crucificadas de luto,
a praia onde algas se avizinham,
incautas, de molestos anzóis.

 

Arqueólogo de seu rosto,
a outros dado e recolhido
como fogo de raízes. Um olhar
de âmbar (dos felinos) sobre o alvor
e a escuridão. A abundância
do grotesco, do sinistro, água
cancerosa de lodo. Denunciar,
purificando, isso dele ficou.

 

Infame, até para uma velho, é morrer
no dia de Natal. Outro, o seu, de Setembro.
Dói o que deixou de fazer.
O revés estava no próprio sangue,
contra o qual lutou, pestiferado,
com a ajuda de uma casal de galgos persas,
como ele quase ascéticos e frugais no medo.
E correndo demasiado rápidos.

 

De: Planetário e Zoo dos Homens (1990)

 

António Osório

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