Clarice Lispector:A construção do mundo
De regresso ao êxtase,surpreendo-me de novo
neste sem fim das coisas.
A inocência avança em cada movimento,mesmo uma sombra
pode de repente afluir à boca quando o princípio do mundo
não é senão este momento.A solidão alastra.Alastra nos lençóis
o fogo negro.Por alguma razão me perco em cada instante
e a voz de Deus toca o meu espírito.Mais que humano é este
toque de lâmina nos meus dedos,este sangue espalhado
sobre alma,
este caminho.Ignoro de onde venho e onde vou.
E sendo-me perguntado
quem sou,não posso mais que a pedra que responde
pela ausência
quando se enche o céu de ramos de aves sobre um repouso
em que não há repouso.A lâmpada queima a noite,
sobe ao olhar
este vertigem de ossos e palavras em que menos
que um corpo se perde
para sempre.A cicatriz oculta-se sob a pele.O coração amplia
este fugaz sentido dos sentidos.E quando a morte por fim
vem alcançar-nos
é menos do que vivos que nos alcança enquanto a vida exulta
nos meus braços.
Esta é a sede do meu deslumbramento.Não tarda aí o inverno
De regresso ao êxtase,surpreendo-me de novo neste sem fim
das coisas.
Amadeu Baptista
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