A cara, sem ossos, não suporta o espaço, encurva-o até o escurecer, o que se vê é uma sombra afundando-se, informe como a espessura de um pântano, onde os olhos são o brilho que me fixa e te mancha, às vezes tentas falar, mas as palavras só têm os lábios deformados que as pronunciam, sons deformados que antecipam os lábios e ficam a estremecê-los do seu desejo de serem plenos, os lábios porém não suportam essa plenitude, torcem-se pelo esforço da palavra que quer ser límpida e sai apodrecida, olho-te: e a minha mão não chega a fazer o gesto, ergue-se curvada ao peso dos dedos: a manga do casaco descaiu e o braço surge, nu, de cartão prensado, glabro como o de um manequim, a pele tem uma espessura de uma mortalha de cigarro: um pingo de chuva ou uma lágrima torná-la-á de uma transparência de soro, qualquer gesto será um erro, porque no teu corpo o meu gesto é a tua morte que te afaga e isso, para mim, que te amo, é insuportável. Rui Nunes, Rostos, Ed. Relógio de Agua, 2001.
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