E levantam-se as pessoas
E levantam-se as pessoas
como quem se adormecesse.
Preparam-se para o sono
de uma vigília nas ruas
nas casas e nos empregos.
E naufragam e sufocam
nas avenidas do Tempo.
Conversam como quem fecha
creches gaiolas enterros
-crianças aves e mortos
Nos sorrisos e nos risos
na lucidez dos reflexos
pensam os tristes dos homens
ganhar os dias correndo.
Mas são retidos nas sombras.
São amarrados aos vento
são sacudidos em potros
e forcas de entendimento.
Eles que são cabeleiras,
nas chuvas de outros intentos
nos rios e nas goteiras.
E levantam-se as pessoas
como quem fosse viver.
Dá o Sol por sobre o Dia
faz o dia apodrecer.
(Maduro quer dizer Morte
com toda a sabedoria)
Deitam-se então as pessoas
para a morte de outro dia.
Assim
Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento
Assim pensar em mim quando vivias.
Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.
Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos, noutros nomes
Assim desconhecer aonde habito.
Assim por muito mais e muito menos
Se acaba, em vida, a vida ao suicida.
Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.
A morte de calar
As viagens que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das palavras. À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol. São fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum lugar.
Decifro nas entranhas das trevas migradoras
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar, com setas voadoras
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.
Meus Irmãos de astronaves, guiadas por um morto,
Que me esperam e estão, que me cantam e falam.
Que na vazia Cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor, mesmo a meio da sala.
À janela rasgada, para as cinzentas águas,
Encostam-me, sem olhos, e deixam-me ficar.
Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
E mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.
Cor
É preciso soltar o ritmo que me prende.
Esta amarra de ferro à palavra e ao som.
Emudecer, no espaço, o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.
Não saber se uma flor é mesmo uma criança.
Se um muro de jardim é proa de navio.
Se o monumento fala, se o monumento dança.
Se esta menina cega é uma estátua de frio.
Um pássaro que voa pode ser um perfume.
Uma vela no rio, um lenço no meu rosto.
Na tarde de Fevereiro estar um dia de Outubro.
Nos meus olhos de morta uma noite de Agosto.
É preciso soltar o ritmo das marés,
Das estações, do Amor, dos signos e das águas,
Os duendes das plantas, os génios dos rochedos
Nos cabelos do Vento, as tranças de arvoredos.
Desordenai-me, luz! Que nada mais dependa
Das águas, das marés, dos signos e do Amor.
É preciso calar o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.
Comem de Noite
Comem de noite pelos caixotes.
Comem de noite.
Grandes famílias, sob capotes
Que são açoites.
Sob capotes de chuva e pranto,
Pátrias perdidas.
Chave na porta, a cama à espera,
A fuga à terra das suas vidas.
Cumpriram sonhos e não mataram,
Cruzaram sangues e não traíram.
Filhos de humildes embarcações
Árvores soltas de Áfricas vivas.
Quem corta fitas de liberdade
A sua gruda em fundos poços.
Somam-se contas de ambiguidade:
Milhares de mortos, milhares de ossos.
Antes que o Tempo cobre a verdade
Crescem as teias entre as aranhas.
E muitos comem pelos caixotes
Enquanto engordam estranhas espanhas.
Natércia Freire
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