b.
aprende a falar- diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágile,
ao papel que para ela
voltas. então, falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue,
de assombro em
assombro.
Revolução orbital: vai-se a rosa transformando
na coisa múltipla, amante e amada, na acção
que assim a faz e nos acidentes mínimos- paisagens,
estações dos dias e das noites, dos anos da história.
Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz
desenham. E a rosa é uma hélice que vibra
no ar que a respirar obriga(s): torção dos pulmões,
de tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos
que ser respondem: como um coração que desflagra
a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces
e o chão sobre que danças.
A história tece esta coroa de água
que se equilibra sobre a sua própria
sombra caindo oblíqua sobre a rotação
da terra.
Rios de albumina lumi-
nascem nesta árvore que a noite abre
por detrás do sol. Vertiginosas as estrelas
correm à suprerfície destas águas que
não cessam no meu corpo
de te fazer.
de Dois Sóis, a Rosa- A arquitectura do mundo (1990)
8.
É isto: a noite de manhã
Tu levantas-te
Manhã e noite não se vêem ao espelho
antes o estilhaçam para dentro
desencontram-se interminavelmente
mas ouvem-se uma à outra entre as salas da casa
Tu estás súbita ali na esquina do corredor
sinto por momentos a tua cara negra
e a imensidão do teu corpo anoitecido
passas-me a manhã devagar
de mão a mão
como um mapa fosforescente
onde por certo íamos morrer
de Mapas O Assombro A Sombra (1996)
Manuel Gusmão
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