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Mas qual a razão para esta tendência de procurar o belo no obscuro com tanta força se manifestar apenas nos Orientais? Ainda não há muito, também o Ocidente ignorava a electricidade, o gás, o petróleo, mas, tanto quanto sei, nunca sentiu, a tentação de se deliciar com a sombra.

Na prata e no cobre, apreciamos a patine; eles, acham-na suja e anti-higiénica, e não ficam satizfeitos enquanto o metal não brilhar, à força de tanto o polirem. Nas divisões das casas, evitam os recantos o mais que podem, pintam de branco o tecto e as paredes que os rodeiam. Até no desenho dos jardins, onde nós arranjamos bosquezinhos sombrios, eles estendem amplos relvados planos.
Qual poderá ser a origem de uma diferença de gostos tão radical? Pensando bem, é que nós, Orientais, procuramos acomodar-nos aos limites que nos são impostos, que desde sempre nos satisfizemos com a nossa presente condição; consequentemente, não sentimos repulsa alguma pelo que é obscuro, resignamo-nos a ele como a algo de inevitável: se a luz é fraca, pois que o seja! Mais, afundamo-nos com delícia nas trevas e descobrimos-lhes uma beleza própria.
Pelo contrário, os Ocidentais, sempre à espreita do progresso, agitam-se incessantemente na procura de uma condição melhor que a actual. Sempre em busca de uma claridade mais viva, afadigaram-se, passando da vela ao candeeiro de petróleo, do petróleo ao bico de gás, do gás à iluminação eléctrica, para cercar o menor recanto, o último refúgio da sombra.

Junichiro Tanizaki, O Elogio da Sombra , Relógio d' Água.

 

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