Sístole
"Cerra,coração,as pálpebras!"
(Lucian Blaga)
Entreabres as pálpebras
quando o sangue já gela
na última diástole
do coração que cega
e sossega,sem lágrimas,
na luz que se descerra
Sangria
"Como grandes lágrimas de sangue
escorrem folhas dos ramos"
(George Bacovia)
A árvore dessangra,
assim,lágrima a lágrima,
crucificando os ramos
entre as folhas, tão magra
como a neve pingando
seus últimos coágulos
Ícone
Cada lado de Deus tem a sua sombra
iluminando a morte: a luz só pousa
levemente em seus ombros:
entre a luz e a rosa,
sobre a sombra
e a sombra
Proust em Bucareste
Falávamos de Proust em Bucareste,
por dentro da manhã,calafetados,
e a música escorria pela neve
em camadas de tempo esfacelado.
Nas vidraças doridas do silêncio
cicatrizavam lábios devorados
por frases torneadas do avesso
que ouvíamos por fora,só do lado.
donde Proust se lia em Bucareste
Teclado
(ouvindo Dinu Lipatti)
Que música começa
nos teus dedos e sobe
pelas veias do verso
quando o sangue se move
só por dentro dos ossos
entre o som e o medo?
Donde emerge o remorso
de ferir o silêncio
e deixar que o desejo
a pairar se dissolva
num arpejo de dor
quando o verso já sobe
nas veias dos teus dedos
e a música começa?
José Augusto Seabra
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