Liberdade| Literatura |Ligações | Contactos

 

Sístole

"Cerra,coração,as pálpebras!"
(Lucian Blaga)

Entreabres as pálpebras
quando o sangue já gela
na última diástole
do coração que cega
e sossega,sem lágrimas,
na luz que se descerra


Sangria

"Como grandes lágrimas de sangue
escorrem folhas dos ramos"
(George Bacovia)

A árvore dessangra,
assim,lágrima a lágrima,
crucificando os ramos
entre as folhas, tão magra
como a neve pingando
seus últimos coágulos


Ícone

Cada lado de Deus tem a sua sombra
iluminando a morte: a luz só pousa
levemente em seus ombros:
entre a luz e a rosa,
sobre a sombra
e a sombra


Proust em Bucareste

Falávamos de Proust em Bucareste,
por dentro da manhã,calafetados,
e a música escorria pela neve
em camadas de tempo esfacelado.

Nas vidraças doridas do silêncio
cicatrizavam lábios devorados
por frases torneadas do avesso
que ouvíamos por fora,só do lado.

donde Proust se lia em Bucareste


Teclado

(ouvindo Dinu Lipatti)

Que música começa
nos teus dedos e sobe
pelas veias do verso
quando o sangue se move

só por dentro dos ossos
entre o som e o medo?
Donde emerge o remorso
de ferir o silêncio

e deixar que o desejo
a pairar se dissolva
num arpejo de dor

quando o verso já sobe
nas veias dos teus dedos
e a música começa?

 

José Augusto Seabra

 

<<<

 

© 1998 - 2005. Lídia Pereira. Todos os Direitos Reservados.
Hosted by www.Geocities.ws

1