Da Nossa Morte Agora é tarde. Ninguém responde às cartas que escrevi e atirei ao mar, quando pensei que um dia serias como esse marinheiro que num sonho antigo abençoava o filho e depois partia nas asas do albatroz. Agora é tarde. Ninguém responde à sombria música dos meus punhos golpeando a cadeira vazia,a mesa,as folhas em branco onde uma única palavra se aproxima, manejando as suas armas- três letras,três sinais de fogo. Agora é tarde. Ninguém cala os tempestuosos rios no fundo dos meus olhos, quando penso nos vermes,nas viscosidades que te procuram através do cetim. Silêncio Uma noite, quando o mundo já era muito triste, veio um pássaro da chuva e entrou no teu peito, e aí, como um queixume, ouviu-se essa voz de dor que era já a tua voz, como um metal fino, uma lâmina no coração dos pássaros. Agora, nem o vento move as cortinas desta casa. O silêncio é como uma pedra imensa, encostada à garganta.
Urgência Levanta-te e deixa-me entrar, diria se pudesse, junto a esta cama onde a dor te contempla, sob este tecto frio que não inventa qualquer paisagem, qualquer lembrança de barcos ancorados no vazio da nossa alma, diria que lá fora escuto a sirene que se aproxima e a chuva que bate com as suas gotas de angústia na pedras da estrada, diria que essas quatro rodas vão levar-te,ao longo do pánico e da noite, para outras paredes onde nenhum crucifixo redime a desolação das casas, diria que se afastaram para sempre os dias antigos, as suas laranjas,a sua água, uma cerejeira breve onde os melros cantavam. Inverno O medo está no inverno. O medo bate nos olhos com as suas ferramentas negras e depois anuncia a morte. No inverno penso na terra,no silêncio da terra e dos astros e das rosas, no teu grande silêncio,pai. No inverno volto-me para baixo,para os alicerces do mundo. No inverno dizes de muito longe que não voltarás aqui. de Agora e na Hora da Nossa Morte (1998) José Agostinho Baptista
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