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Em memória de Mário Botas

O teu diário que Hades o exauriu,
quando a manhã ainda,
se espoliava do seu orvalho?

Para te receber, que Tártaro
se engalanou na falência do teu prepúcio,
pressentido fibroso em teus desenhos
de rebeldes orgasmos de nanquim?

Da solidão, de que têmpera era o aço,
em que febril seis anos resististe,
sem uma fresta de luz,
no horizonte de pó, de prematura incineração?

De que verde-pálido, assomava a última gota
de sangue à tua face, desfocada,
que quiseste em teus quadros, delida?

Que palavras se enredaram
numa certidão de óbito,
ajoelhando-te aos pés de Orco?

Com que dedos, de cera,
davas corda ao teu “Horloge”, em 78?

Que Fúrias te levaram os lençóis,
que seriam os da tua liberdade
nas coxas da noite, submissas
a leveza de versos brancos?

Trucidados, que pensamentos te levaram
a contemplar o “Sacrifício de Isaac”?

Não eras o peito, o legítimo herdeiro
da rosa e do mirto, da bela Dione
e do seu carro, tirado por pombas?

Em que silêncios decifraremos Ela,
a existência, negada no seu óvulo,
num “lit conjugal” de votos afrodisíacos?

Nos lábios da deusa, da puta Mors,
que prazeres, incauto, provas?

Que segurança, a dos teus dedos,
num corpo de aguarela, que cedia a unguentos
de inadiáveis apelos, numa folha?

De que barro saiu a tua alma,
que não cede a cozedura, que resista
no seu esmalte, a um pouco mais de vida?
Em que encruzilhada, “Hécate”,
te beijou na magia da saliva, na almofada?
Teus órgãos vitais, que Cronos os decepou
e os lançou no abismo das angústias,
de onde nascem os teus desejos, os teus desenhos?
Que palavra, do Talmude ou do Corão,
te julgou, atado?

Eternos, deixaste os desenhos
numa coroa de louros,
que foi de espinhos,
porque a ausência também vive,
forte,
nos que te lembram.

Todos os dias amanhece no fundo
de uma Noite de Nanquim,
iluminada por tímidas cores
de pulmões de terra.
E não se sabe nem do Norte nem do Sul,
na ponta do giz,
que narra a eternidade da incerteza.

Grave-se Mário Botas, no fio,
em diamante,
de um cinzel de cinza!
Extraia-se um rosto esculpido
no óleo de uma begónia
de pétalas brancas de folhas A-4!

 

Joaquim Matos

 

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