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Primeiro poema no Anfiteatro

Uma mulher desfaz-se na água dos túneis.
Os seus gestos são uma arte secular,
reflectidos no tecto, ondulando como uma
cobra. Se fosse um peixe o seu corpo
subiria pelo pilar onde estão gravados os olhos
das vítimas. Uma grande fogueira anuncia o fim
do amor. Trata-se de uma mulher em cima
de uma ponte, coberta de espinhos e de
musgos. Os seus pés apenas batem na madeira,
sem som, e o anfiteatro fecha-se sobre ela
cobrindo-a com um véu. Todas as sombras
que ali habitam passam a seu lado sem a ver.
É o desenho de um túmulo, uma abóbada
incandescente na tarde. Quando cai enfim
a noite, uma lágrima escorre para o fosso
libertando um gás branco, devorador.

Segundo poema no Anfiteatro

A luz está despida. Há um uivo cravado
na terra que se enche de fulgor,
multiplicando-se. A areia ilumina-se,
rodeada de um incêndio. Trata-se de um
jogo de vísceras. Dois homens decepam
as mãos num pacto luminoso, à procura
do universo. Enquanto contemplam
o sangue, o anfiteatro encolhe-se com
a geada. Uma flecha atravessa os contornos
das árvores, morre no círculo mágico
do marfim. O sol parte-se em dois, dividindo
a arquitectura das pedras. Sabe-se que
é a ciência, uma mulher que se estende
lentamente na loucura.

Poema três no Anfiteatro

Um homem espreita por uma muralha e vê um
vulto a debater-se com a morte. Existe um pacto
entre ele e esse fosso misterioso por onde corre
um rio encarnado. Um leão caminha de rastos
à procura de uma saída. Vai ferido a uivar no
meio das pedras. O homem esconde-se numa gruta.
A sua espada reflecte uma luz solar. Corta-se num braço,
enterrando a lâmina devagar. Tudo à sua volta se
levanta e o abençoa. O céu tapa-se respondendo ao seu
apelo, definindo-lhe uma alma e um corpo vitorioso.


Jaime Rocha

 

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