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Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou. Para comer depois

Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
A campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.

Acácias
Minha alma quer ver a Deus. Eu não quero morrer. Quero amar sem limites E perdoar a ponto de esquecer-me Radical, quer dizer pela raiz O perdão radical gera alegria Exorciza doenças, mata o medo Dá poder sobre feras e demônios Falo. E falo é também membro viril, Todo léxico é pobre, Idiomas são pecados; Poemas, culpas antecipadamente perdoadas Eis, esta acácia florida gera angústia Para livrar-me, empenho-me Em esgotar-lhe a beleza Magnífica insuficiência, Porque ainda convoca O poema perfeito.

Adélia Prado

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