Sermão do Padre Luizinho Sponchiado
na missa do encontro da Família Piovesan.
Encontramo-nos diante de Deus para mais um encontro dos Piovesan, que buscam a unidade familiar e a cultura que preserva a identidade, que o próprio cristo não dispensou em dois evangelhos para provar que era o messias prometido. Vejamos, dez quilômetros ao sul de Treviso, cidade do Vêneto, se encontrava o comune de Preganziol, ainda hoje conforme listagem telefônica ai vivem aí treze lares parentes ou do tronco Mateo Piovesan casado com Angélica Badin nascidos na era napoleônica. Contam quatro filhos, Giuseppe de 1837, Benedeto, Arcangelo e Giovanni Ferdinando. Nascidos uns e Preganziol outros em Santa Cristina, mudanças que denotam serem famílias de "poveri contadini" dependentes de aluguéis de terras poucas e exauridas e explorados pelos Marqueses e Condes e outros grandes 'Signori". A nós interessa hoje o primogênito Giuseppe e o benjamim da família Giovanni Ferdinando, os que emigraram para essa nossa quarta colônia imperial e para esse nosso núcleo Soturno. Giuseppe com 26 anos casou a 2 de janeiro de 1863 com a conterrânea Antonia Crescencia Parizzotto quatro anos mais moça. Em vinte anos geram oito filhos, sendo que o último de 1883 é um natimorto de parto infeliz que também mata a heróica mãe de inestancável hemorragia puerperal. Conta a tradição que a sangueira do "pian de sopra" alertou os vizinhos que habitavam o térreo que quiseram ajudar trazendo gelo da grande neve que cobria o casebre. Além dos sete órfãos o casal adotara uma menina Elizabetha Tozzello, que a mãe moribunda sabia deixar em seu lugar e recomendou "caldamente", como uma última sua vontade que casasse com o filho mais velho Luiggi, que se encontrava então no serviço militar de dois anos e sete meses, como "capporale maggiore del 12º reggimento dei bersaglieri" sediado em Verona. Não houve dúvida Luis deu baixa no quartel a 17 de agosto de 1885 e um mês depois, a nove de setembro, casava em San Trovazo com Elizabetha, tanto para cumprir a última recomendação da mãe como por conhecer os préstimos da orfãzinha que desde criança sobrevivera no lar, e ia de fato preencher o vácuo doloroso que Antônia deixara com a prematura e desastrada morte. Desde então Giuseppe, ora viúvo, como também os filhos Luiggi, Giovanna, Angelo, Luiggia, Giovanni Marco, Angelo e Maria pensaram na possibilidade de emigrar, era um salto no escuro, uma aventura discutível, porquanto os que tinham vindo, uns escreviam convidando para a "cucagna de la Merica" e outros, noticiavam horrores de mortes e selvagerias indescritíveis. No lar era diametralmente contra a partida a jovem nora Antonia que já tendo o segundo filho, pois lhe morrera o primeiro no parto com a primogênita Terezinha. Sua opinião valia muito, mas, as observações do sogro que na Europa profetizava sobreviriam guerras sanguinolentas, assustavam. Além disso, na sua piedade cristã o velho argumentava: a sobrevivência dos filhos e dos netos que começavam a aparecer não seria um convite divino a enfrentarem o problema buscando melhores oportunidades? Não fizera assim Javé quando em semelhantes circunstâncias convidara Abraão a deixar sua terra e ir para aquela que lhe ia mostrar? Ali o faria pai de numerosa descendência próspera e abençoada?
Este doar-se, doloroso sim mas garantindo o futuro dos lares que eles sonhavam ser de fiéis unidos e íntegros e puros os decidiu a partir. Deixando a filha e mana Giovanna, já casada, como também o mano tio Ferdinando, percorreram 416 quilômetros de trem alcançando o porto de Genova. Munidos de dois passaportes embarcaram no vapor Adria da companhia Florio Ruvatino: primeiro Piovesan, Giuseppe, viúvo com cinqüenta anos e os filhos; Angelo de 18, Luiggia de 16, Giovanni Marco de 14 anos, Angela de 12 e Maria de 10. E segundo passaporte Luiggi de 25 anos sua esposa Elizabetha de igual idade e o filhinho Giuseppe neto de seis meses, portanto um grupo de nove pessoas.
Zarparam a 21 de dezembro de 1887, alcançando a inspetoria dos imigrantes na Ilha das Flores no Rio de Janeiro a 15 de janeiro de 1888, travessia relativamente curta e bem sucedida, mas, acidentada pela perda de todas as bagagens por extravios portuários. Ficaram aguardando, Deus sabe com que ansiedade, o pouco que tinham até 10 de fevereiro, ou seja, 26 dias, mas aconselhados retomaram o paquete da nossa Loid Brasileiro que os deixou em Porto Alegre a 19 e a 21 de fevereiro sobem Jacuí acima até a margem do Taquari onde apanham o trem até a estação Colônia, hoje Camobi. Com transporte muar do governo sobem a Silveira Martins para se alojarem enfim nos barracões depósitos dos imigrantes junto a praça da comissão de terra dessa ex-colônia.
Apesar dos contratempos o piedoso Giuseppe apressou-se em buscar a igreja, em construção, e agradecer a providência de um Deus que até por linhas tortas e difíceis conduz e acompanha a história de uma família que amam e teimam de observar seus santos mandamentos. Bendita religiosidade, valor sempre antigo e sempre novo, que salva as criaturas de não caírem no desespero quando as adversidades batem a porta. Alojada a família em Silveira Martins conforme facultava o regulamento e a necessidade, Giuseppe com os filhos Luiggi e Angelo passaram a trabalhar como assalariados na abertura da nossa estrada desde o passo velho do Soturno até aqui. Ficou na memória familiar a busca de algumas abóboras, cultivadas pelos caboclos a beira do rio, para matarem a fome no meio da mata gigantesca dessas baixadas, e a expressão do nono afirmando "e comme la era bonna". Naquelas circunstâncias como de fato ela foi apetitosa. As obras da estrada rasgando a floresta alcançaram as atuais residências dos Prettos quando foram avisados que a filhinha menor, a Maria de 10 anos passava mal em Silveira Martins, correram os 35 quilômetros de volta no meio do matagal e encontraram a criaturinha morta. Ela que engordando dizia "comme me fá bem l'aria de l'america" como é bom o clima americano. Contudo foi enterrada a 2 de março de 1888, encomendada pelo coadjutor de então padre Julio Scardovelli. Este inesperado falecimento e por ficarem mais próximos do trabalho os Piovesan trocam o abrigo de Silveira Martins pelo barracão do Soturno erguido rusticamente sobre as margens do Portela sobre o lote 81, mas já não eram nove, faltava a Marietta. Foi providencial porquanto, a piedade de Giuseppe tornou aquele barracão uma igreja onde celebrou o tríduo da semana Santa e a Páscoa, que ocorreu, naquele ano, de 29 de março a primeiro de abril.
Terminado o serviço da estrada, que por esse tempo alcançou o Soturno, Luiggi e Angelo, acompanhados do adolescente Giovanni Marco, foram para as bandas de Arroio Grande onde retiravam das matas dormentes para a estrada de ferro que então alargava seus trilhos para a fronteira além Santa Maria. A sustentação da família, enquanto aqui aguardavam os trastes extraviados, exigia essa tortura. Giuseppe, porém, com a bela celebração pascal foi, desde logo, considerado o padre leigo, o capelão, reunindo o povo para o terço dominical, as crianças para o catecismo, enterro de mortos e principalmente criou aquela unidade para que as famílias ainda esparsas na floresta se unissem em mutirão para acabar a capela iniciada ainda em 1886. Serravam tabuas a mão nos estaleiros junto a nossa praça onde se fizera a derrubada a mando da comissão de terras. Nessa capela, ainda não aprontada, foi que neste mesmo ano de 1888, a 28 de maio, padre João Vogel pediu colocarem como patrono a Santíssima Trindade. Em agosto deste mesmo ano também cegaram as roupas e os objetos extraviados há cinco meses e foi-lhes designado o lote de número 141 encravado na linha dois e posse dos Portela, confinando com o de Arcangelo Crestanello que na divisa ergueu o capitel de São Caetano que até hoje bem demarca o local. Em rústico tugúrio que ali ergueram em tempo, nasceu o primeiro Piovesan americano que foi a terceira filha de Luiggi e Elizabetha Tozzello, Maria Antônia a 22 de junho de 1889, que casa em 1910, com Giuseppe Rossatto de Giusto, futura mãe de 15 filhos que por sua vez se multiplican hoje nas famílias Belé, Rigon, Binotto, Dorigon, Buzanello, Piovesan e Rossatto. A este primeiro nascimento seguiu-se, a 27 de maio de 1891 o casamento de Luiggia Maria Piovesan com Giuseppe Redin, furlan de Udine, pais de seis filhos que recasaram a seu tempo com Cancian, Santinni, Belé, Bulegon, Buzatto e Barato. Prevenimos que se prestarem a devida atenção, apesar da grande assembléia, subdivisionada em quatro ou mais gerações, poderão todos, apesar dos sobrenomes diversos, reencontrar a linha ascendente dos distantes ancestrais, o que num encontro destes é muito válido e desejável.
Em suas idas subindo e descendo as serranias a geringonça, Giuseppe admirou muito um coro que ali se formara desde 1892 no lar do Buzanello, comandado por notas, compassos e instrumentos, executando magistralmente canto sacro e profano, pediu ao filho Giovanni Marco que fosse participar dos ensaios semanais e noturnos. Iniciativa arrojada, arrojadíssima mesmo naquelas distâncias cobertas pela floresta subtropical plena de sovacões e animais selvagens, mas o jovem de 20 anos perseverou, tornando o clã Piovesan até hoje famoso como cantores e músicos. Teriam presenteado ao jovem Giovanni um diapasão que usou como diretor no coro sacro de nossa igreja matriz de Nova Palma até a sua morte que ocorreu a 10 de dezembro de 1953.
Nos primeiros meses de 1895, padre Francisco Schuster, que de Vale Vêneto vinha atender Soturno benzendo casas e preenchendo as anágrafes, isto é levantamento escrito das famílias teve um desencontro com Giovanni Batista Marconni na linha um. Um Masson escritor chamado Luiggi Donatelli, escreve fortes acusações mentirosas e inventadas em nome do colono analfabeto que era Marconni e manda-as para Roma. Encontrando-se na comunidade uns que eram contra o padre Giuseppe, na loja de Luciano Descovi, se insurge sozinho contra eles gritando: “com quem contaremos nós sem o padre?” Padre Schuster ao se retirar de Soturno, bastante magoado, entrega ao corajoso capelão a anágrafe para que ele pessoalmente anote óbitos ou batizados com água de socorro que venham acontecer na ausência, provocada também pelos distúrbios da revolução federalista que ensangüentava o Rio Grande do Sul, um cometimento de fato de muita responsabilidade.
Neste mesmo ano de 1985, a 30 de abril e 11 de junho se dão os casamentos dos filhos Giovanni Marco com Rosa Rossatto e de Ângela Piovesan com Ângelo Rigon, esta última se torna mãe de 13 filhos Rigon, que no andar da história formam outros lares matrimoniando-se com Rossatto, Girardello, Buzatto, Bulegon, Dalcin e Belé.
De nosso já citado Giovanni Marco se editou um livro genealógico em que documentalmente se conhece a numerosa proliferação de cinco ou mais gerações. Que, a começar de 1938 em diante, enxameiam destas velhas terras para as terras novas de Baril onde se constituíram pela fraterna piedade e apego ao trabalho, forte alavancas de progresso daquele Alto Uruguai, além de testemunharem vívida e vivida religiosidade, que transformaram aquela região de matas na diocese de Santo Antônio de Frederico Westphalen.
A 27 de abril de 1897, já se completando dez anos na América, casa o último filho dos sete de Giuseppe Piovesan, é ele Ângelo Piovesan, com dona Ingarda Rigon, de Arsênio, que se tornam pais de 10 filhos. Que de 1920 em diante casam aqui em Nova Palma, já agora paróquia, com Boton, Belé, Pegoraro, Zanon, Bataglin, Rossatto, Giovelli, Trentin, Manfio, DalBianco e Buzanello, terminava assim, e muito bem, a primeira missão do venerando Giuseppe, de assegurar a descendência que Deus prometera, como a Abraão que seria numerosa e abençoada, assegurava uma terra abundante "senza signori scravagisti" onde geraram famílias integras e puras queridas de Deus e dos homens.
O venerando Giuseppe sempre lidando como capelão e catequista, acompanhou o desenvolvimento da colonização no lar na linha Rigon, herdado agora pelo último filho Giovanni Marco, donde em 1906, já alquebrado e velho se transferiu para a família de Luiggi que morava na linha Soturno no lote 27, adquirido então da família Santi. Na manhã de nove de novembro de 1907, padre Burman visitou-o de cama, passando para sacramentar uma Rossatto mais adiante e lhe prometendo; “Giuseppe na volta ficarei aqui contigo”. E no entardecer deste dia, com o sacerdote a sua cabeceira e os descendentes todos rodeando-o, aconteceu a morte de um justo. Netos, Bisnetos, quiçás trinetos e tataranetos de Giuseppe Piovesan, sintam-se herdeiros de tão valiosa herança de fé cristã, trabalho honesto sem corrupção e de famílias fiéis e indissolúveis.
Giovanni Ferdinando Piovesan, oito anos mais novo que o mano Giuseppe, aguardou até 21 de abril de 1889 para emigrar, com sua mulher Tereza Zaggo e seis filhos Ana, Antônia, Antônio, Giuseppe, Luiggi e Ferdinando. Estabeleceram-se a "la meglio " no lote 40 e 41, ao norte da nossa atual gruta de Lourdes, onde nasceram mais Fortunato, Rachele e Angélica. A terra era semisobrada e descômoda, mas entestava com a de Giuseppe nos travessões, o que era um grande valor pela interajuda tão necessária no início. Giovanni Ferdinando não veio junto com Giuseppe, e demorou a emigrar porque entre os anos de 1884 e 1888, tinha licença escrita comunal de "intrometittore ambulante de animali bovini, suini, ovini ed altri", um emprego de veterinário perambulante de casa em casa. Conseguiram em 1896 pagar as duas colônias com trabalhos na estrada de ferro e extração de dormentes em Arroio Grande. Já tendo casado Maria e Ana com Luiggi Bonaldo e Isaco Danielli, que enxamearam para Tapera, onde se encontra hoje a grande descendência Bonaldo/Danielli. Com os últimos sete filhos resolveram mudar-se para a Saxônia de Silveira Martins, perto de Val Veronês para montar alambique, cultivar fumo em folha e de corda e criação de porcos e outros. Ali se da a 09 de fevereiro de 1901 o casamento de Antônio com Viriata Bertagnoli, mas treze dias depois desse casamento morre, de doença na garganta, Giovanni Ferdinando com apenas 56 anos enterrado no distante hoje cemitério de Val Veronês.
Antônio recém casado com a aquiescência da mãe viúva traz de volta a família para Soturno. Vendendo os lotes para os Prendin na meia encosta, adquire terras plainas do Sfinto Ribas em Linha Base, ali procriam 12 filhos, mas somente dois homens; Julio casado com Carolina Rossatto que são os pais e avós dos nossos Piovesans de Linha Base e ativos colaboradores desse encontro. Ao passo que Fernando com Tereza Stefanello enxamearam para Palmeira das Missões. São grossas famílias com abundância do sexo feminino onde desaparece o sobrenome original. Ainda em 1902 se dá o casamento do quarto filho do finado Ferdinando que é o Giuseppe com Lúcia Brezolin, este casal é o primeiro a partir da nossa região em 1905 para Bela Itália, hoje, Tapera e procriam lá 10 filhos, naquela região então abrangida pelo município de Não me Toque e região de Passo Fundo.
Giovanni e Luiggi Ferdinando Piovesan, os dois últimos que vieram de Preganziol, casam no mesmo ano em 1909 com Regina Grassi e Joana Rossatto, do primeiro casamento houve seis filhos que casaram com Redin, Pegoraro, Manfio, Facco, Bisognin e Lopes. Luiggi Ferdinando, porém a o gerar o segundo filho, morre fulminado por um raio, a 26 de agosto de 1912. A viuva dona Joana recasou em segundo matrimônio com Segundo Bisognin. Fortunato Piovesan, o sétimo filho de Giovanni Ferdinando e Tereza, o primeiro nascido na América. Casa com a parenta Luiza Maria Bonaldo, até 1922 tem cinco filhos e desaparecem por Arroio Grande, Arroio do Tigre e além Jacuí até hoje. As duas últimas filhas de Giovanni Ferdinando e Tereza Zaggo são Raquele e Esther que casam respectivamente com José Pegoraro e geram dez filhos em Linha Base e Ester com Michele Piccin a 04 de julho de 1914 e geram 11 filhos.
Muito e muito mais sabemos, graças ao nosso Centro de Pesquisas Genealógicas, e documentamos, inclusive de outros ramos Piovesan que constam em São Paulo e nas colônias do Nordeste, escasseiam porem, sobre esses Piovesans, documentos que provenham do mesmo tronco de Treviso e quando aportaram na América. Valeria a pena dia mais dia, saber junto aos arquivos italianos se são, de fato, do mesmo tronco e parentela.
Conhecendo a fé cristã de doação desses nossos ancestrais que arrostaram tudo pensando em nos sejamos-lhes gratos. Guardando o legado de crença cristã trabalho honesto unidade familiar que nos deixaram e adoremos, outrossim, a misericórdia de Deus que os acompanhou e nos acompanha