| Alguns
depoimentos* O guincho do coelho
Alguns ciprestes magníficos erguiam suas
copas acima da velha cabine de hóspedes, para onde tínhamos voltado nossa atenção.
Papai, meu irmão Pete e eu estávamos em nossa primeira caçada de coelhos, no sítio de
meu avô em Michigan. Os coelhos que faziam morada nessas árvores eram, segundo
papai,muito rápidos. Pete e eu não dissemos uma palavra ao darmos a volta pelos fundos
da cabine. Sabíamos que se os coelhos nos escutassem, fugiriam mais que depressa sem
permitir um tiro.
Preparei minha garrucha
calibre 20. Papai veio do outro lado e, no momento em que ele entrava em minha visão
periférica, vi o coelho saltar duma moita no quintal. Nada poderia ter desfeito minha
concentração naquele coelho enquanto eu o mantinha ao alcance visual, como papai me
havia ensinado. Ele parou justamente na moita que dividia o quintal. Eu sabia que teria de
chegar bem perto para disparar, por isso aproximei-me mais; antes, porém, de encurtar a
distância entre nós, a caça estava encerrada. A onda de choque do rifle de papai me
atingiu no mesmo instante em que vi o coelho cair. Pelo som do guincho do animal, eu sabia
que o tiro de papai não o matara imediatamente. O guincho foi tão intenso e penetrante
que cada um de nós correu para o lugar onde ele jazia contorcendo-se em dores. Papai
agachou-se, agarrou-o pelas pernas traseiras, colocou-o no chão, pôs seu pé sobre a
cabeça do bicho e puxou. O sangue jorrou, enquanto seu coração fazia o último esforço
pela vida.
Estou certo de que
tentei, mas falhei em esconder o horror que sentia por dentro. Papai deve tê-lo visto em
minha face, pois o que me disse mostrou que ele também precisava justificar sua ação
perante os dois filhos. É o modo mais rápido de tira-lo de sua miséria,
disse.
- Mark F. Carr |
As
penas do faisã
Eu me orgulhava muito de minha nova
espingarda calibre 12. Tinha conseguido o dinheiro para comprá-la colhendo vagens. Meu
alvo era aprender a arte de caçar faisões, gansos canadenses e outros pássaros tão
abundantes no Vale de Willamette. Meus pais pareciam estar certos de que quatorze anos era
idade suficiente para essa atividade.
As primeiras saídas com
meu amigo Bob nada produziram. Apesar de nossos melhores esforços e do fato de os
faisões chineses serem vagarosos e barulhentos quando levantam vôo, erramos todos eles.
Sobretudo, fazíamos longas caminhadas nas manhãs úmidas de outono, pontilhadas de uns
poucos momentos de excitação e de tiros ineptos.
Finalmente, numa manhã
de fim de semana, fomos caçar com os marmanjos, o irmão mais velho de Bob e
seu amigo. Como os mais jovens, Bob e eu fomos instruídos a ir até o fim do milharal e
esperar. Os outros dois, com seus cães de caça alemães, caçariam primeiro. Se errassem
o alvo, nossa tarefa era atirar nos pássaros ao virem em nossa direção.
E assim aconteceu. Um
magnífico faisão chinês levantou vôo, escapou e veio diretamente para onde eu estava
agachado. Mirei e disparei quando ele estava justamente acima de nós. Penas voaram por
toda parte. Um cão veio correndo e pegou a parte maior que restara do faisão. Ele tinha
quase se repartido em dois. Mas no que restava pude ver o anel branco do pescoço, as
penas vermelhas, o verde-escuro da cabeça, e as listas brilhantes das longas penas da
cauda. O irmão de Bob olhou para o pássaro morto e declarou que não valia a pena
leva-lo para casa. Lançou-o então numa moita de amoreira preta.
Disfarçando o
desapontamento e simulando coragem, tomei uma das longas penas e a enfiei no meu boné de
caça. Mais tarde, sozinho em casa, estudei a pena. Não podia apagar a imagem daquele
pássaro colorido, cuidando de seus interesses e alvejado sem um bom motivo. A estupidez
irreparável de tudo aquilo me acabrunhou. Pus a espingarda no armário, vendia no ano
seguinte e nunca mais cacei.
-Gerald R. Winslow |