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Sábado, 2 de
dezembro de 2000
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| Um mundo ameaçado
pelos separatismos? |
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Para o professor Pascal
Boniface, diretor do Institut de Relations Internationales et
Stratégiques, a secessão de origem puramente econômica é a novidade
geopolítica desse fim de século e tende a se prolongar pelo próximo.
Ele se interrroga, sem ter a resposta, se grandes países, de
legendária unidade como o Brasil e a China, conseguirão sobreviver
sem fraturas às suas imensas disparidades regionais
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Por Napoleão Saboia
O mapa geopolítico do mundo tende a se modificar substancialmente no
próximo século na esteira dos movimentos separatistas desencadeados nos
últimos dez anos, com o fim da guerra fria, que transformou a corrida
armamentista em corrida à prosperidade e ao consumo.
- Dentro desse novo perfil da cena internacional, os antigos valores que
informavam a unidade de um Estado ou de uma Federação de Estados - como a
história, a identidade e os interesses culturais comuns, o orgulho, a
solidariedade e a vontade de poder nacionais - estão cedendo lugar "aos
egoísmos interessados e imediatos" das regiões ricas. Estas já não
suportam subvencionar suas coirmãs pobres abrigadas sob o mesmo pavilhão.
- Estudioso da questão, o professor Pascal Boniface, diretor do Institut
de Relations Internationales et Stratégiques, em Paris, tem, entre suas
"hipóteses de trabalho", o "grande desafio colocado a países de legendária
unidade nacional como a China e o Brasil". O mestre francês se pergunta -
sem ter resposta - se as duas nações conseguirão, no século 21, evitar que
suas disparidades regionais em matéria econômica desemboquem em explosões
secessionistas.
- Autor de várias obras sobre problemas internacionais, que se situam
entre as referências de rigor da cultura geopolítica européia
contemporânea, Boniface, numa entrevista concedida ao Caderno de Sábado na
capital francesa, aborda igualmente o hipotético recurso do direito de
ingerência para a proteção do meio natural. E conclui que o Hemisfério
Norte, antes de pensar na Amazônia, deve se associar ao Hemisfério Sul na
salvaguarda de uma coisa muito mais importante ainda - a vida tout court.
- Os interesses econômicos divergentes dentro de um mesmo Estado ou
Federação não tendem a constituir cada vez mais a razão essencial para os
movimentos separatistas no planeta?
- A secessão de origem puramente econômica, desconhecida no século
passado, é a novidade geopolítica desse fim de século e que tende, de
fato, a se prolongar pelo próximo. Sem dúvida, os casos da Chechênia, do
Kosovo e do Timor Leste se situam, de prefêrencia, na categoria clássica
do separatismo fundado em reivindicações nacionais; aquelas três nações
não mais queriam continuar sob a dominação de povos que não eram os seus,
com os quais não tinham identidade. Mas o que se põe em perspectiva de
modo mais conseqüente e permanente é a tendência para o separatismo ditado
pelo PNB por habitante, pelo qual a região rica se livra da área pobre de
um mesmo Estado ou Federação, impulsionada pelo novo motor da história - a
corrida à prosperidade, à elevação do nível de consumo.
- Por exemplo... A Eslovênia com o mais alto PNB per capita da Europa
Central e Oriental tornou-se independente em 90, ao término da guerra
fria, para não continuar subvencionando as repúblicas pobres da Federação
iugoslava - da qual era a invejada integrante - e para acelerar seu
ingresso na União Européia. Pelas mesmas razões, a antiga Checoslováquia
foi dividida, com os checos mais ricos se desembaraçando dos eslovacos de
magro PNB. Poderíamos citar ainda o caso da ex-União Soviética, onde o
secessionismo foi provocado pelas três repúblicas mais prósperas (Rússia,
Ucrânia e Bielorússia, que se mantiveram, entretanto, unidas dentro das
Federação Russa) e também pelas três Repúblicas bálticas (Estônia, Letônia
e Lituânia), em posições econômicas intermediárias. Em suma, estas seis
repúblicas trataram de se livrar depressa de suas coirmãs muçulmanas, que
são pobres e bem longe da Europa Ocidental. Cingapura só virou modelo de
desenvolvimento econômico na Ásia depois que se separou da Malásia em
1965.
- Em seus estudos, o sr. fala também do quanto a motivação econômica,
hoje, pode frustrar o sentimento separatista de um lado e, de outro,
desencorajar e tornar mesmo indesejáveis reunificações nacionais tão
sonhadas no passado...
- No primeiro caso, temos os exemplos franceses da Guiana e das ilhas da
Martinica, Guadalupe e Reunião, onde, por motivos econômicos, assiste-se
ao arrefecimento crescente das aspirações independentistas. O PNB per
capita desses Departamentos franceses é muito superior aos dos pequenos
países independentes da área. O PNB anual da Martinica, por exemplo, é de
US$ 9.500 per capita, enquanto o da República Dominicana não passa de US$
800. Citaria ainda a Guiana, cujo PNB anual per capita é de US$ 9 mil,
três vezes superior ao do Suriname vizinho (US$ 3 mil).
- Quanto aos projetos de reunificação tornados indesejáveis, o exemplo
mais notável é o das duas Coréias. Ora, hoje, os coreanos do Sul, ricos e
modernos, já não querem assumir os encargos financeiros com a reabsorção
da Coréia do Norte miserável e atrasada. No caso concreto da reunificação
alemã, é cada vez maior, segundo as últimas pesquisas de opinião pública,
a insatisfação dos alemães ocidentais pelo reencontro sob a mesma bandeira
com seus irmãos orientais após a derrocada do comunismo. Durante a guerra
fria, o PNB por habitante da Alemanha Ocidental era quase quatro vezes
superior ao da Alemanha Oriental. Hoje, inconformados com os custos da
reunificação, mais de 50% dos alemães ocidentais passaram a lamentar a
derrubada do muro de Berlim.
- Quer dizer que a solidariedade forjada por um fundo cultural comum ou
a força da História, com a qual um conjunto populacional se identifica no
mesmo Estado ou Federação, já não serão suficientes para conter as
tentações separatistas?
- Eis aí o grande desafio que se coloca a países cuja unidade se tornou
legendária como as das China e do Brasil ou que se afirmou ao cabo de
tantos golpes como a do México. Os princípios fundadores da solidariedade,
da história nacional irão se sobrepor aos egoísmos econômicos das regiões
mais prósperas de um mesmo país ou de uma Federação? É cedo para uma
resposta.
- Num país como a França, onde as disparidades regionais não são
acentuadas, os departamentos mais ricos jogam sem dificuldade o jogo da
solidariedade nacional. Entretanto, o fato de croatas, eslovenos e sérvios
falarem a mesma língua, terem combatido os mesmos inimigos até a metade
deste século, compartilhado, pois, certo número de valores históricos e
culturais, não impediu que eles lutassem entre si e levassem a Federação
iugoslava ao esfacelamento, movidos pelo egoísmo interessado, pela busca
ardente e imediata da prosperidade.
- Qual a explicação política para tal frenesi galopante por bem estar?
- Basicamente, o fato de que durante a guerra fria numerosos países e
regiões tiveram de investir brutalmente em arsenais militares, de se dotar
de esquemas de segurança onerosos e nisso sacrificaram as aspirações de
seus povos pelo consumo sem limites. Agora, a corrida armamentista
converteu-se em corrida à prosperidade e ao desfrute máximo.
- Mas o que poderia mesmo acontecer com a China, Brasil e México nesse
quadro?
- Se levarmos em conta o simples fato de que 95% da população chinesa
(acima de 1 bilhão, 250 milhões de pessoas) é de origem han, já seríamos
tentados a tomar como fantasista a idéia de fragmentação da China.
Todavia, como os fatores étnicos, a glória, o orgulho e o bem estar
nacionais, os valores culturais comuns e os anseios estão cedendo lugar às
motivações econômicas na deflagracão de movimentos separatistas de hoje,
não se pode mais excluir a possibilidade bem real de as gritantes
desigualdades econômicas e sociais existentes - e que se agravam cada vez
mais - entre as províncias costeiras e as províncias mediterrâneas da
China conduzirem esta a uma divisão explosiva. No Brasil, para se liberar
do "peso" do Nordeste e do Norte e reter, assim, a porção muito maior lhe
cabe no bolo nacional, o Sul poderá fazer "bande à part", romper com a
Federação, o que não vai impedi-lo de continuar falando português, comendo
feijoada e dançando samba. A mesma situação existe no México, onde o Norte
dá sinais cada vez mais claros de que já não suporta o Sul pobre,
fortemente indígena e presa de avassaladora violência. A revolta de
Chiapas nasceu desse estado de coisas de fato.
- Voltando aos casos da China e do Brasil, observaria ainda o seguinte:
o tamanho do espaço geográfico ou territorial, que constituiu durante
séculos um fator de poder, depreciou-se muito na escala de valores que
definem a força de um país. Ao contrário, até parece que o slogan "small
is beautiful" foi criado para estimular as reivindicações separatistas nos
moldes de Cingapura, Eslovênia e Taiwan.
- Não vai ficar mais difícil ainda pôr ordem num mundo "esquartejado" em
centenas de micro-Estados?
- Nos últimos dez anos, 20 estados foram criados na planeta. Se
examinarmos o quadro geopolítico, veremos cenários separatistas plausíveis
um pouco por toda a parte. Nesse ponto, a situação da Rússia é
particularmente terrível porque há riscos de novas defecções em seu seio
por parte das repúblicas da Sibéria ricas em minérios. É inegável a ameaça
de uma proliferação incontida de Estados (cerca de 200 hoje) num mundo que
conta com cinco mil povos e etnias. Não se poderá viver com cinco mil
Estados! Em suma e sendo comedido, acho que não chegaremos a 500 Estados
nos próximos 20 anos.
- Não seria paradoxal que essa vaga separatista, fomentando os valores
da soberania nacional, ocorra quando a criação de blocos econômicos e o
processo de globalização do capitalismo tendem a limitar as prerrogativas
nacionais no quadro da interdependência tida como a doutrina geopolítica
do próximo século?
- Esses movimentos podem parecer contraditórios, mas na verdade eles são
complementares e desempenham uma função estabilizadora no processo de
construção das novas identidades geopolíticas. É a constituição de blocos
regionais na América do Sul, na América do Norte, na Ásia do Sudeste que
desperta sentimentos micronacionalistas e impulsiona ao mesmo tempo o
processo de globalização. É ao abrigo do teto comum europeu, por exemplo,
que se desenvolvem os nacionalismos escocês, lombardo, catalão, flamengo,
que, afinal, estabilizam o conjunto de nossa construção identitária.
- Como conciliar o respeito às soberanias nacionais e as exigências
crescentes do direito de ingerência, cujo campo de aplicação tenderia
agora a ultrapassar os casos humanitários para ser usado, por exemplo,
contra os países acusados de envolvimento no crime organizado?
- As proposições apresentadas ao G-7 (Grupo dos 7 grandes países
industrializados) em suas discussões sobre o tema não visam a estender a
aplicação o direito de ingerência aos chamados "países delinqüentes"- ou
seja, aqueles comprometidos na lavagem do dinheiro da droga, da corrupção
e de outras transações suspeitas -, mas a assegurar o respeito puro e
simples do direito internacional. Todo o problema agora consiste em saber
quem vai precisar o conceito de país delinqüente. Para ser uma coisa
aceitável, é preciso que a definição seja feita com o concurso de toda a
comunidade internacional. Naturalmente, entre outras, deverá ser
considerada a questão levantada pela França, a questão dos paraísos
fiscais ligados a potências ocidentais e sem os quais a delinqüência seria
menos protegida.
- Desenvolvido no Hemisfério Norte, o direito de ingerência não poderia
igualmente ser invocado daqui a pouco e de modo mais perene para proteger
os espaços e riquezas naturais tidas como indispensáveis à sobrevivência
da humanidade?
- Estudiosos brasileiros de questões geo-estratégicas se perguntaram,
quando da intervenção no Kosovo, se esta não seria uma eventual preparação
para a ocupação da Amazônia pelo Hemisfério Norte em nome do resguardo do
patrimônio comum da humanidade, etc. Sem dúvida, a Amazônia precisa ser
preservada, mas só o Brasil, dentro dos limites geográficos que lhe cabem
na região, pode definir os termos dessa política de proteção. Ninguém pode
impor normas ao Brasil, que precisa talvez ser ajudado nessa tarefa imensa
e onerosa, se o princípio de tal ajuda, devidamente discutido, vier a ser
aceito pelos brasileiros. De resto, os países industrializados do
Hemisfério Norte podem lamentar e condenar as queimadas na Amazônia, a
exploração predatória da floresta, mas sem perder de vista o fato de que
eles, consumindo a maior parte das riquezas naturais e das diversas formas
de energia produzidas no planeta, são os maiores poluidores deste.
Portanto, ninguém tem lições a dar a ninguém na matéria, não há lugar
nisso para "gendarmes ambientais". A hora é para um esforço comum e
urgente visando a proteção de um patrimônio bem maior do que a Amazônia -
a vida tout court.
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| Napoleão Saboia é jornalista e
escritor
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