25/4/2002
Por Pedro Falcão

SOZINHO, NÃO
Carlos Burle faz questão de dividir as glórias com Eraldo Gueiros

Carlos Burle entrou para a história ao ganhar cinquenta mil dólares e mais uma pick-up Nissan, prêmio oferecido a quem dropasse a maior onda durante o inverno 2001/2002. Um título que ele faz questão de dividir, principalmente com seu parceiro no surfe rebocado (tow-in), Eraldo Gueiros. Eraldo foi quem pilotou o jet ski na onda que Burle colocou pra baixo e entrou pra história. Ainda comemorando a conquista, Burle colocou o papo em dia com a gente.

E agora, o que você pretende fazer para se manter no topo?
Não quero nem pensar nisso. Estou mais interessado em evoluir meu surfe. Estou mais é curtindo o prêmio. Sinto que eu e o Eraldo temos uma capacidade muito grande e podemos conseguir resultados positivos tanto pra gente, como pro Brasil. É uma questão de estar focado mesmo.

O surfe é um esporte altamente individualista. Você ganhou o prêmio, mas faz questão de mencionar a parceria com o Eraldo.
Realmente é difícil, porque a mídia procura mais a pessoa que ganhou o prêmio e, no caso, foi a minha onda. Mas tenho a consciência de que somos um time e que quem "pegou" a onda não fui eu, e sim, o Eraldo. É muito importante valorizar as pessoas, ter esse espírito de companheirismo. Na verdade a vida dele está nas minhas mãos e a minha vida está nas mãos dele. O desempenho dele vai depender do meu e o meu, dele. A gente têm de participar como um time. Quando a gente vai competir em um campeonato de tow-in existe um time. Não dá pra participar sozinho. Ele é meu parceiro e estamos aí para a vitória e para a derrota, para as alegrias e tristezas.

E o limite? Existe diferença entre buscá-lo, seja na remada ou rebocado?
Buscar o limite, seja no tow-in ou na remada, faz parte do esporte. Se você quiser surfar a maior onda da sua vida na remada, você vai entrar em uma onda de dez metros. No tow-in esse tamanho seria bem maior, mas o desafio é o mesmo. Em qualquer coisa em que você quer chegar no limite, o desafio é o mesmo. Estamos falando de ondas grandes, né? Uma onda de trinta pés na remada é uma onda grande. Você não tem ajuda do jet ski, tem de se posicionar embaixo do pico. A mesma coisa no tow-in. Se você quer chegar no extremo do tow-in, se você errar em uma onda de 60 pés você está sujeito a morrer.

Em 98 você foi campeão mundial de ondas grandes, remando nas morras de Todos os Santos, no México. Agora, em Mavericks, nos Estados Unidos, rebocado, voltou a brilhar. Dá pra comparar esses dois momentos?
Acho que Todos os Santos foi muito importante, porque abriu meus horizontes, me apresentou ao mundo. Mas este prêmio agora foi o máximo. Eu estou no topo do mundo. Recebi junto com o Eraldo Gueiros a maior premiação da história do surfe. Cada um no seu tempo, cada um na hora certa, assim com o terceiro lugar no mundial de tow-in também foi muito importante. Acho que tenho de focar minha carreira em ondas grandes mesmo.

O Havaí ainda é um prazer?
É bem mais corrido do que antigamente. Antes eu chegava no Havaí e tinha bem mais tempo para treinar, melhorar o preparo físico, ficava quatro meses direto em Oahu e vez ou outra era que viajava para as ilhas vizinhas. Hoje é uma coisa de logística, seguir o swell, estar preparado. É diferente. Eu carrego uma responsabilidade maior, ao mesmo tempo em que estou mais maduro. Não dá mesmo pra comparar. Agora, é prazeroso, pois estou em Oahu, na capital do surfe mundial, fazendo o que eu mais gosto e ganhando pra isso. É mais puxado, mas estou ganhando mais, me realizando como profissional. Tem um lado positivo também.

E no dia-a-dia no Brasil, ainda existe aquela fissura?
Não tenho mais aquela vontade, aquela gana toda, pois meu surfe não está mais evoluindo em ondas pequenas. O meu tesão mesmo, o que me instiga é fazer tow-in. Eu vou sentindo aos poucos que minhas performances estão melhorando. Às vezes nem consigo dormir direito... Em certos dias fico tão excitado… Eu me sinto jovem de novo, mas tenho a consciência de que tenho de estar dentro d'água sempre. Assim, sempre que posso caio na remada aqui no Brasil: tenho o meu quiver, fiz um longboard pra levar pra praia… Aquele negócio família, está entendendo? É mais uma questão de amor ao esporte. Agora, tesão, evolução mesmo é sempre em ondas grandes, na remada ou no tow in.

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