DIDÁTICAS DA HISTÓRIA NO SÉCULO XX

Uma reflexão didática na História do Ensino de História no Brasil

 

Prof. Dr. Luis Fernando Cerri *

 

O desafio da pesquisa em Didática da História tem sido contribuir para a melhoria do ensino da disciplina, entendendo essa melhoria como o atendimento às necessidades educativas da população, conjugadas ao acompanhamento – e quando possível, incorporação - das inovações epistemológicas ocorridas no âmbito da Educação e da História. Entretanto, muitas vezes verifica-se trabalhos que carecem de historicidade no encaminhamento das análises e das propostas, prejudicando sua eficiência e a do avanço do debate na área. Como exemplo, temos a perplexidade diante do baixo grau de mudanças no ensino de História em determinados recortes, mesmo após a aplicação de diversas iniciativas, como novos materiais, cursos de formação docente em serviço e mudança de currículos.

A hipótese é que a lógica da sala de aula, tanto no que se refere à mudança quanto à permanência, obedece também a fatores históricos, como as motivações sociais do surgimento da disciplina História (por exemplo, o fato de surgir como instrumento de construção de identidades sociais, e não de criação de pensamento crítico em bases científicas) e fatores inerciais da prática de ensino. A partir dessas afirmações, apresentamos no presente texto o projeto "A arena da História escolar: debates sobre a Didática da História no Brasil – 1889-2002", que procura sistematizar os debates históricos em torno do ensino da História no Brasil, de modo a identificar as lógicas de interação entre as idéias políticas, sociais e econômicas, a demanda identitária que estabelecem, os debates sobre a configuração da Didática da História em função da demanda dessas idéias. Pretende-se, dessa forma, contribuir para a área de pesquisa em Ensino de História na atualidade com um acréscimo de reflexão sobre a historicidade da mesma, favorecendo o debate sobre as limitações e possibilidades das propostas atuais de aperfeiçoamento do ensino de História.

Para Bergmann, a Didática da História, além do seu núcleo fundador, que é a metodologia do ensino, após as mudanças epistemológicas dos anos 1970, passa a dedicar-se também à tarefa empírica, ou seja, ao levantamento e análise do que é aprendido e ensinado em História, seja na escola ou em qualquer outro espaço de educação histórica. Dedica-se à tarefa reflexiva: quais as intenções conjunturais nos processos que investiga, intenções e interesses da disciplina, bem como seus pressupostos, teorias, métodos, resultados e forma de apresentacão deles. Dedica-se, enfim, à função normativa, que consiste no estudo do que e como deve ser ensinado em História, de acordo com os princípios pedagógicos, metodológicos, políticos e científicos vigentes. Bergmann define, portanto, a Didática da História como campo interdisciplinar, vinculado à História e à Educação, responsável pela produção do conhecimento necessário à metodologia do ensino e à política educacional para a História informadas e críticas.

A categoria central para a investigação em tela é a de circulação social do conhecimento histórico, ou seja, de que sua produção ocorre em todos os âmbitos da sociedade, com características qualitativas distintas, e que portanto é possível tentar captar o trânsito desses conhecimentos entre o debate social e político e o debate educacional, mais especificamente sobre o ensino da História. A categoria de circulação social do conhecimento histórico, por sua vez, está sustentada no conceito de consciência histórica, discutido por Agnes Heller e Jörn Rüsen, entre outros. Para Agnes Heller, a consciência histórica é inerente ao estar humano no mundo e é composta de diversos estágios, que vão desde o momento em que um dado grupo cria normas de convivência, substituindo com elas os instintos – em que o sistema mítico do grupo legitima-o e significa, para ele, a origem do universo, e em que o grupo é identificado à humanidade – até o momento em que num dado grupo, após se ter tomado consciência de que a humanidade transcende-o, concebe-se o mundo como histórico. Para Rüsen, mobilizar a própria consciência histórica não é uma opção, mas uma necessidade. Embora seja teoricamente imaginável estar na corrente temporal sem atribuir sentido a ela, não é possível agir no mundo sem essa atribuição de sentido; como deixar de agir também parte de uma interpretação, na prática também não há opção de atribuir ou não significado ao tempo que passamos ou que passa por nós. Para Rüsen, o homem tem que agir intencionalmente, e só pode agir no mundo se interpretá-lo e a si mesmo de acordo com as intenções de sua ação e de sua paixão: uma reflexão sobre si e o grupo no tempo é imprescindível, seja ou não chamada de História. Antes de ser algo ensinado ou pesquisado, a historicidade é a própria condição da existência humana, e nos constitui enquanto espécie. O que varia são as formas de apreensão dessa historicidade, ou, nos termos de Rüsen, as perspectivas de atribuição de sentido à experiência temporal. É nessa perspectiva que o projeto pretende captar alguns recortes do fenômeno social pelo qual esses conhecimentos sobre o tempo e a História sistematizam-se e agem no sentido de pautar o ensino escolar da História, buscando aí uma reprodução da identidade social; ao mesmo tempo, esse fenômeno inclui o fato de que os cidadão são formados pelo ensino escolar e extra-escolar da história, ou seja, são atingidos pela formação histórica originada das visões que, na geração anterior, são vitoriosas no debate sobre o que e como ensinar a história. Além dessa versão, as pessoas são formadas por sub-versões presentes nas falas dos membros da família ou da comunidade. Esse conjunto dinâmico se saberes, por sua vez, integrando experiência, narrativas e processos de controle ideológico e de resistência, constituem o ambiente no qual a geração debaterá a formação histórica de seus filhos, recomeçando o ciclo.

Pretende-se, com essa investigação, Contribuir para as reflexões sobre a historicidade da Didática da História no Brasil, produzir elementos para a compreensão da circulação social dos conhecimentos, valores e idéias referentes à História, compreendendo a Didática da História como instância privilegiada de luta pela normatizatização desses fluxos. Procura-se ainda contribuir para a elucidação das relações entre as conjunturas do pensamento histórico e os debates sobre a didática da História que produzem a normatização dos componentes do sistema educacional no que se refere às disciplina e outras ações escolares e extra-escolares.

Esses objetivos serão alcançados com a produção de banco de dados destinado a sistematizar a produção sobre a Didática da História no período considerado, fornecendo à comunidade de pesquisadores dessa área um poderoso instrumento para o avanço quantitativo e qualitativo da pesquisa, bem como através da produção trabalhos acadêmicos com temáticas específicas e sub-recortes cronológicos dentro do período abrangido pela pesquisa, e ainda por meio da produção de síntese sobre os debates referentes à Didática da História dentro do período considerado. Dessa forma, uma das metas mais ousadas é a constituição de um referencial metodológico para a pesquisa dentro da área da Didática da História tomada em perspectiva histórica.

Por mais que tenhamos que apontar que o recorte cronológico do presente projeto é mais amplo que geralmente praticado na pesquisa histórica e educacional na atualidade, trata-se de uma característica a ser enfrentada em trabalho de equipe, com orientandos de Iniciação Científica e mestrado e ao longo de ao menos três anos de trabalho. Ele se justifica por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, não há, na área de ensino de História, nenhuma abordagem de síntese sobre a área ao longo do século, o que constitui uma lacuna importante que ainda não foi enfrentada sistematicamente. Por outro lado, um período relativamente extenso como este não significará um número excessivo de fontes a considerar, uma vez que a "explosão" de textos referentes ao ensino de História ocorre apenas a partir do final do regime militar. Além do mais, mesmo considerando as dificuldades que a pesquisa científica em geral – e a pesquisa em Ciências Humanas em particular – enfrenta em termos de financiamento e continuidade, o fato de não se obter uma abordagem exaustiva do universo possível de fontes não inviabiliza o trabalho, uma vez que indícios centrais da relação entre as conjunturas e os principais tópicos do debate podem ser acessados através de um número de documentos expressivo, em vez da totalidade dos documentos possíveis.

O levantamento de fontes será feito a partir do critério de textos sobre o ensino da História presentes em periódicos de caráter cultural amplo (como a Revista do Brasil, Revista de Cultura Vozes, Anhembi, Revista Civilização Brasileira), revistas acadêmicas da área de História e de Educação e revistas destinadas a professores, tanto editadas pelo poder público quanto por órgãos de classe. Para esse levantamento, recorre-se aos acervos em Ponta Grossa (Acervo do Centro Cultural Euclides da Cunha, Casa da Memória Paraná), Curitiba (Biblioteca Pública do Paraná e Arquivo do Estado), São Paulo (Arquivo do Estado, Biblioteca Mário de Andrade) e Rio de Janeiro (Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional).

O processamento dos documentos consiste na criação de um arquivo eletrônico único baseado no programa AskSam 5.1 ou similar, que permite a conjugação das funções de banco de dados com processador de texto e armazenamento de texto e imagem. Cada texto levantado alimentará uma ficha dentro desse arquivo, com entradas de localização da informação (autoria, título, informações bibliográficas, palavras-chave) e um resumo do conteúdo do texto; sempre que possível, será adicionado também o texto integral, obtido por reconhecimento ótico de caracteres dos textos originais, fotografados ou escaneados, ou, se for o caso, serão adicionadas as cópias digitais do texto.

A produção desse tipo de fichamento com base nesse tipo de recurso informacional tem como vantagem a flexibilidade para a geração de múltiplas listagens, relatórios e cruzamentos, uma vez que as ferramentas do programa percorrem todo o texto incluído no arquivo geral, não se limitando às entradas da base de dados. Serão possibilitadas, portanto, a abordagem temática e a abordagem cronológica do corpo documental constituído, de modo que, com apoio do debate da equipe e a orientação do coordenador, sejam produzidos relatórios parciais e textos reflexivos, que têm por finalidade tanto demonstrar as possibilidades de pesquisa nesse banco de dados, que posteriormente poderá ser expandido, quanto possibilitar investigações que atendam aos interesses temáticos e cronológicos específicos de cada pesquisador.

A base de dados resultante desse trabalho poderá ser disponibilizada na Rede Mundial de Computadores, a exemplo do material obtido pelo Projeto Integrado Gestão da Escola Básica, da Unisinos, que disponibiliza um sítio para a consulta de textos sobre o tema da gestão escolar.

Estima-se que o impacto do projeto terá as seguintes dimensões. Para a comunidade de pesquisadores do EH: além dos resultados das análises e sínteses, a base de dados que poderá gerar outras pesquisas. Produção de uma visão global sobre o desenvolvimento da discussão sobre a Didática da História, permitindo a geração de parâmetros de compreensão e avaliação do desenvolvimento deste debate na atualidade, bem com a identificação de áreas de pesquisa com lacunas, com possibilidades de desenvolvimento ou em esgotamento. Espera-se ainda o desenvolvimento de análises que permitam uma compreensão dotada de maior historicidade para a discussão, avaliação e implementação de políticas públicas para o ensino da História (formação de educadores e pesquisadores, produção e avaliação de material didático, elaboração de currículos e programas).

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