III ENCONTRO NACIONAL PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA
Curitiba, 20 a 23 de julho de 1998 - UFPr
UMA ESCOLA DO BRASIL
O TRABALHO EDUCATIVO DAS IMAGENS DA
NAÇÃO NO "MILAGRE BRASILEIRO"(1969-1973) E NA COMEMORAÇÃO DOS 500 ANOS DO DESCOBRIMENTO (1998 - 2000)
Luís Fernando Cerri *
Gostaria de iniciar pela citação de um parágrafo do historiador Marc Ferro:
"Não nos enganemos: a imagem que temos de outros povos, e até de nós mesmos, está associada à história tal como se nos contou quando éramos crianças. Ela deixa sua marca em nós para toda a existência. Sobre esta imagem, que para cada qual é um descobrimento do mundo e do passado das sociedades, se incorporam de imediato opiniões, idéias fugidias ou duradouras, como um amor ..., ao tempo em que permanecem, indeléveis, as marcas de nossas primeiras curiosidades e de nossas primeiras emoções." (FERRO, 1990: 9)
Esta citação coloca-nos diante do problema da relação entre o ensino de história e a formação da identidade nacional. Procurarei aqui apresentar algumas contribuições no sentido de elucidar o funcionamento dessa relação, no que se refere ao papel das imagens visuais na formação de imagens conceituais (ou seja, as que não se dirigem apenas aos sentidos, mas também ao intelecto, não dependendo apenas de uma forma visível), identitárias, sobre a definição e a caracterização da nação, dos seus mitos de origem e estabelecimento do cidadão brasileiro, no tipo de relação que ele idealmente estabelece com a nacionalidade. Para isso, estabelecerei um recorte duplo, que considera dois períodos propícios ao nascimento e difusão de imagens com essa temática: o período do chamado "Milagre Brasileiro", que vai de 1969 a 1973, aproximadamente, e atravessa as comemorações do Sesquicentenário da Independência, e um período que apenas se iniciou: as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Evidentemente, essa parte da análise fica limitada por estarmos trabalhando apenas com as "primícias" desta comemoração do descobrimento, apenas com os indícios e inícios do que está por vir, e desde já esta fala fica condicionada a essas referências.
Há alguns elementos que é preciso discutir antes de irmos ao âmago desta problemática. Inicialmente, os pressupostos envolvidos no que chamaremos de "consciência histórica", e, em conseqüência, a compreensão que estaremos estabelecendo por "ensino de história".
Agnes Heller propõe uma teoria da história em torno da idéia das transformações na consciência das sociedades sobre si próprias em relação ao tempo, no presente, na origem, no passado, no futuro, partindo do princípio de que os seres humanos são historicidade e tempo, e as múltiplas formas de perceber e interpretar esse princípio são determinantes dos estágios da consciência histórica dos povos. Embora recusando esse etapismo evolucionista que estabelece poucas diferenças com a teoria da história comteana ou marxista ortodoxa, retenhamos o conceito de consciência histórica como uma fração do perceber-se coletivo em relação ao tempo. Já de início, portanto, atemos forte e irreversivelmente a consciência histórica com a identidade do grupo, que pode ser uma tribo, um clã, uma aldeia, uma região, uma cidade- Estado, um Império ou um Estado - nação.
Nos dias de hoje, principalmente, não é possível imaginar que haja uma consciência histórica homogênea que abarque igualmente todos os membros de uma sociedade. Convivemos com um grupo crescente de pessoas que vê a história como uma criação divina em que o homem não interfere senão como instrumento da vontade de Deus, ao lado de outros grupos que avaliam-se como a vanguarda do proletariado que fará a grande transformação histórica que conduzirá ao fim das desigualdades; convivemos ainda com outros que imaginam que já estamos vivendo o fim da história e vêem no liberalismo a forma final da evolução das relações humanas. Formamos, nós mesmos, um grupo que imagina que a história é uma construção humana, fruto de determinações, mas também da vontade de sujeitos, que pode ser alterada pela ação organizada de pessoas que compreendam minimamente como a sociedade funciona. Sem essa crença, não seríamos professores de história engajados no combate constante pelo "bom" ensino da disciplina.
Mas perante tantas possibilidades, como pensar na existência de uma consciência histórica? Qual é o significado dela? Podemos afirmar que a consciência histórica não é a média entre as múltiplas percepções da temporalidade; se fôssemos usar uma metáfora matemática, diríamos que a consciência histórica aproxima-se mais da idéia de mínimo múltiplo comum. Podemos defini-la como um ponto de partida hegemonicamente aceito a partir do qual derivam-se as heterogeneidades na compreensão do grupo perante o tempo; note-se bem, ponto de partida hegemonicamente aceito, e não necessariamente universalmente aceito. A consciência histórica é um padrão de idéias e imagens que permite, como se fosse uma linguagem, a comunicação entre as pessoas e as instituições no que se refere à sua identidade e à sua temporalidade: entre os seus elementos, podemos contar a imagem da naturalidade inevitável de sermos uma comunidade nacional, o sentimento de unidade e a memória artificial dessa unidade derivado do uso da mesma língua, o senso de um passado comum (Balibar e Wallerstein, 1990). Conseqüentemente, o que vier de encontro essas idéias e imagens será visto com estranhamento.
Assim, a consciência histórica, embora comporte múltiplos focos (Ferro, 1989), ganha a sua uniformidade por derivar da história dominante e existir a partir de seus pressupostos, atuar no cenário que é posto por ela. Correndo o risco de andar num debate que leva a paragens pantanosas, podemos afirmar que o processo de formação e manutenção da consciência histórica é parte fundamental da ideologia, por esta ter como função principal a naturalização e a destemporalização de si mesma e da ordem que ajuda a sustentar. Aqui, agregamos novas dificuldades. Se há uma história dominante, é preciso admitir que a dominação não é única. Se cada grupo dominante procura refazer a história e agir também sobre a consciência histórica para legitimar-se, o que resta de comum entre as diferentes versões que os sucessivos donos do poder elaboram através de seus intelectuais? A idéia de que é natural, mais que possível ou aceitável, falar em história nacional, em história do Brasil. Não interessa se Tiradentes era esquecido pelo Império ou se o governo Fernando Henrique Cardoso finalmente instalou a efígie de Zumbi dos Palmares no panteão dos heróis da pátria: o lugar dos personagens no palco pode se alterar, alguns saem de cena, outros entram, mas o cenário, a história nacional como a biografia da pessoa coletiva que é a nação, permanece.
Disso, decorre uma compreensão do ensino de história que não pode admiti-lo como simplesmente a parte do currículo da escolar no que toca aos temas humanos no tempo, mas que exige que se o entenda como o processo de formação da consciência histórica para toda a sociedade, através de uma enormidade de meios disponíveis, do livro à festa, que sustenta, e quando necessário recria, a ideologia da identidade do grupo no passado, no presente e no futuro, o mito nacional. Para Klaus Bergmann (1989/90), a Didática da História não é apenas a disciplina que estuda os melhores métodos para se ensinar a história, mas que se detém na reflexão sobre o que e como os historiadores produzem nas instituições socialmente destinadas à pesquisa (universidade, institutos ...), sobre os meios e formas pelos quais essa produção cultural chega ao amplo subconjunto, na sociedade, de não - especialistas em história, e como estas informações são assimiladas, processadas ou guardadas. Ou seja, a Didática da história tem como um de seus objetos fundamentais o espaço entre a produção e a apropriação, pelas massas, do conhecimento histórico. Evidentemente, esse trânsito é marcado por relações de poder, por ideologias e interesses que agem sobre as origens, os rumos e a forma do conhecimento histórico, em cujas marcas é preciso evidenciar as interferências do poder, se procuramos uma autonomização dos sujeitos.
Não é mais possível para nós hoje evitarmos o trabalho com esse ensino de história não - escolar, sobretudo se levarmos em consideração a constatação de que o conhecimento histórico do escolarizado é apenas em parte devido à ação do ensino escolar da disciplina, sendo influenciado também pelo que se aprende - cognitiva e emocionalmente - através da família, da mídia, das manifestações e rituais cívicos públicos, dos monumentos, dos eventos esportivos. Em grande parte das vezes, uma educação histórica com perspectiva crítica tem que enfrentar, além do ensino tradicional que marca a vida escolar, as arraigadas formações e informações que o aluno traz de fora da escola.
As imagens visuais são a fonte privilegiada para o estudo do ensino da história sob esse enfoque. Conforme José Murilo de Carvalho (1990: 10), as imagens são a melhor alternativa ao discurso verbal ou escrito, quando se trata de transpor as idéias da elite para um grande público, principalmente quando este público com nível mais baixo de educação formal. As imagens são de leitura mais fácil, apegam-se a referências já presentes no imaginário popular sempre que possível, e não dependem de nível de elaboração intelectual. Tão importante quanto tudo isso, as imagens geralmente atingem o aspecto emocional com força igual ou maior que o aspecto intelectual, e daí origina-se a sua efetividade em transmitir o seu significado. Além disso, a imagem visual tem o papel didático de evocar aquilo que podemos chamar de imagens conceituais ou mentais (como a imagem de nação) através de ilustrações de aspectos das mesmas, como veremos adiante.
Cabe aqui a ressalva de que as imagens visuais não excluem necessariamente o texto, que quando ocorre é geralmente forte, de impactante, curto e de fácil assimilação, dentro do espírito de maximização das propriedades comunicativas da imagem.
Durante o regime militar, temos uma situação autoritária em que o Estado, além de controlador do ensino oficial, é ainda controlador da produção científica e cultural e da circulação de idéias e informações. Na fase mais aguda do fechamento político do regime (1969 - 1974), a presença de campanhas publicitárias de empresas públicas e particulares que adulam o regime e sua ideologia reflete tanto o clima de otimismo (cf. FICO, 1997) quanto o controle sobre a informação desejável e indesejável, bem como os benefícios óbvios para as empresas privadas, interessadas em credenciar-se para usufruir das benesses de um governo centralizador de poder e de recursos. Estas campanhas que tem a nação por tema são participantes da reelaboração da identidade nacional realizada sob os governos militares, através da qual imagens e símbolos são retomados e recarregados de sentido, não necessariamente idêntico ao sentido que portavam em sua história pregressa. Passamos adiante a comentar alguns desses temas, presentes em imagens que vieram a público através de revistas de grande circulação para a época, notadamente a Veja e a Visão, pesquisadas dos anos de 1969 a 1972. O contraponto será a campanha Brasil 500, promovida pela Rede Globo, e sua produção imagética e simbólica, que é mais pobre, pelo acesso restrito que se permite a ela e pelo fato de não ter ainda se realizado totalmente.
O MAPA DO BRASIL
Podemos, sem sombra de dúvida, incluir entre as imagens portadoras da ideologia nacional, o mapa habitual dos contornos do Brasil, formado pelo desenho das costas litorâneas e o das fronteiras terrestres. Apesar de ser um desenho duplamente composto, as fronteiras terrestres têm significação diferente das marítimas: em tese, as fronteiras terrestres, que só tardiamente consolidam-se, são criação do Estado brasileiro e dentro delas este estabelece sua soberania. Contraditoriamente, as águas territoriais não figuram neste mapa - símbolo, contradição aprofundada pelo fato de que as águas territoriais do Brasil foram ampliadas exatamente nesse período, como um ato de afirmação de soberania por parte do Estado. Este mapa - símbolo é um mapa das terras brasileiras emersas, e não do território sobre o qual a soberania é exercida; nele, o desenho das costas evoca a idéia de perenidade da nação remetendo ao tempo geológico, ao desenho fixo, ainda que os territórios litorâneos tenham sido palco de disputas durante o período colonial (França Antártica e Equinocial, "Invasão" Holandesa e Confederação dos Tamoios, por exemplo) e o período imperial (notadamente a Confederação do Equador), em que a soberania sobre o conjunto do litoral não estava consolidada.
O mapa do Brasil, exaustivamente visto, copiado e estudado pelos escolares, é também continuamente projetado na retina do conjunto dos brasileiros, e remete à identidade única dos que partilham o mesmo espaço. Esta insistência no desenho formado pelas fronteiras "naturais" termina por naturalizar a construção histórica e política da nação.
figura 1 - veja104, 2/9/70,
p. 51
Nesta transparência, referente ao Censo Populacional de 1970, financiada por uma série de empresas particulares, podemos observar a identificação da coletividade nacional ao mapa do Brasil, utilizando como reforço a popularíssima frase de canção alusiva à copa mundial de futebol daquele ano. É interessante notar que os quadrinhos estabelecem um movimento, uma evolução, que vai do mapa como pequena parte de uma interrogação ao mapa como supressor da dúvida a partir de seu crescimento.
Nas duas imagens seguintes, o mapa do Brasil é destacado e ganha terceira dimensão, parecendo sólido. A figura 3 é uma das formas do bordão nacionalista do auge do período da repressão, que voltaremos a abordar por fundir ainda o símbolo nacional da bandeira, o delineamento de uma identidade nacional específica e a personalização do país.
figura 2
figura 3 
veja 140 - maio 71 veja 105 - 9/09/70, p.17
Não basta, entretanto, que o mapa seja visto. É preciso que ele seja experimentado e vivenciado pela população, e isto se faz através do ritual comemorativo da grande data nacional, o 7 de setembro, amplificado pelo seu sesquicentenário em 1972. Os festejos incluíram o repatriamento dos restos mortais de D. Pedro I e sua peregrinação cívica por todas as regiões do Brasil. Assim, simbolicamente, o libertador vai ao encontro de toda a nação, e neste movimento colabora com outra idéia muito cara ao imaginário nacional inovado pelos militares, o tema da integração e da unidade nacionais. Na figura 4, podemos acompanhar o mórbido trajeto que traça a linha de identificação e de unidade, como um fio que costurasse a integração das diversidades nacionais.
figura 04 - veja 190 - 26/4/72 - p. 23 
Esta peregrinação também tem um outro significado complementar, que é o de unificar as múltiplas histórias e possibilidades de história sob o manto de uma só narrativa, a da história nacional tal como se define na perspectiva oficial. Assim, o ato central da biografia da nação, a Independência, é experimentado de alguma forma por todas as histórias pessoais, familiares e regionais que ate então não tinham nenhum contato direto com aquele momento histórico, exceto pela história ensinada nos livros didáticos e cerimônias cívicas. D. Pedro I e a Independência são incorporados por exemplo ao Acre, que ainda não participava do território nacional em 1822, ou ao Nordeste, que em parte formou a Confederação do Equador como uma alternativa de Independência mais popular que a proclamada pelo Imperador. A similaridade com o imaginário cristão, com a idéia de relíquia, com a idéia de peregrinação, são patentes, evidenciando mais um exemplo que confirma a tese de que o nacionalismo ocupa os espaços de exercício da identidade do grupo deixado pela religião durante a modernidade, como uma religião pagã do Estado nacional (Balibar e Wallerstein, 1990: 130) (Hobsbawn, 1990: 108).
Hoje, a retomada do mapa do Brasil na preparação das comemorações do descobrimento não passa incólume a essa carga de sentido anterior ao período autoritário, mas reelaborada por ele. O logotipo da Campanha Brasil 500, promovido pela Rede Globo de Televisão, incorpora o mapa do Brasil como o ponto de partida de uma projeção que transforma-se no número 500. Note-se que o mapa do Brasil agora está incrustado no logotipo da emissora, que por sua vez representa o planeta, mas a relação entre a emissora e o país fica bem simbolizada, segundo o que esta planeja para as comemorações. A imagem da "projeção", seja curvilínea ou em perspectiva, também usada no logotipo das comemorações do sesquicentenário da independência, evoca a sensação de linearidade, de conseqüência ou desenvolvimento natural de um determinado princípio, de continuidade não problemática entre o passado e o presente, estabelecendo uma duração para a identidade.



figura 05 - Logotipos das campanhas do Sesquicentenário da Independência (Governo Federal - 1972) e dos 500 anos do Descobrimento do Brasil ( Rede Globo de Televisão - 1998-2000)
A realizar-se o cronometrado plano de comemorações montado pela emissora, teremos, até o ano 2.000, uma série de shows e manifestações em que a participação popular será movida pela máquina de propaganda global, que inclui os seus artistas e os vastos recursos de comunicação e de utilização de símbolos de identidade. A própria Globo, impulsionada pelo regime militar, tornou-se um símbolo de identidade nacional, e é nessa condição que coloca-se como líder das comemorações de um país que, se não é de todos, pelo menos é um direito de todos. Uma empresa particular, uma indústria de entretenimento, assume a tarefa pública de coordenar a festa dos "500 anos do Brasil", e o significado disso é tão grave e postiço quanto se a mesma fosse organizada por um governo autoritário e pouco representativo. Nas palavras da emissora, a festa pretende "mostrar o Brasil para o Brasil", e nessa expressão fica claro que não temos na base de tudo uma instituição representativa da comunidade política Brasil como um todo, mas uma parcela da sociedade brasileira que pretende mostrar o Brasil, tal como ela vê, para o restante dos membros da nação. Outro agravante é não ser uma festa pública: apesar de nos remeter ao "hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier", nem todos são convidados. Não vão entrar as outras emissoras e artistas a elas ligados. Destoantes culturais da Globo e da sua estética também não são bem-vindos. Questionadores político - culturais do padrão estão fora. E assim por diante. A campanha Brasil 500 é um sintoma da privatização da esfera pública.
É interessante notar que a campanha inclui uma peregrinação cívica pelo território nacional, semelhante àquela feita pelos restos mortais de D. Pedro I, só que agora o objeto de culto será a "chama do descobrimento" que será acesa no rio Tejo, em Portugal, acenderá os fogos do Réveillon em Copacabana e viajará pelo país até chegar a Porto Seguro para uma nova celebração do mito de origem.
O TEMPO DA NAÇÃO
Outro grande tema imagético de identificação nacional reelaborado no período do regime militar e evocado pela Campanha Brasil 500 é o da atemporalidade da nação. O nome da campanha é uma afirmação de que o Brasil não é o Estado - nação fundado com a proclamação da Independência, mas um "espírito" de unidade que surgiu desde pelo menos o contato de Cabral com os indígenas . É o que afirma o locutor do relógio da contagem regressiva para os 500 anos: "- Faltam tantos dias para os 500 anos do Brasil". Com essa visão as comemorações do sesquicentenário eram coerentes, pois não se colocava o Brasil como aniversariando 150 anos, mas tão somente a emancipação política.
Ora, essa imprecisão sobre a "idade" do Brasil não é fortuita. Toda ideologia, no processo de sua "naturalização", precisa aparecer como algo que está fora do tempo, tanto no sentido de estabelecer uma origem mítica, longe do alcance humano, quanto no sentido de apresentar-se como imune às mudanças impostas pelas transformações históricas, como idéia invariável.
figura 06
figura 07
veja 115, 18/11/70, p. 72 veja 94, 24/6/70 (capa)
figura 08 
Cartaz governamental comemorativo do 7/09/71
A figura 08 é o cartaz oficial do regime para as comemorações do 7 d setembro de 1971; a figura 06 é a resposta do empresariado paulista, através da FIESP e instituições relacionadas, ao apelo do cartaz oficial e a figura 07 é a capa da revista Veja comemorativa do tri campeonato mundial de futebol, em 1970. Embora refira-se à posse definitiva da Taça Jules Rimet, refere-se também à imagem atemporal da nacionalidade e colabora com ela.
Atemporalizada, a nação aparece como potência, como algo ainda irrealizado, latente, mas que encontrará realização plena no futuro, superando todos os entraves e conquistando um lugar de brilho no firmamento das nações. Em 1964, o futuro chegou, afirma o cartaz comemorativo dos 5 anos da assim intitulada "Revolução de 1964". Ao mesmo tempo em que assume como concretos os graves problemas do país, este mito do futuro como a realização de todos os nossos sonhos calca-se numa concepção teleológica da história, herdada provavelmente da tradição positivista entre os militares e na fundação da República brasileira (cf. CARVALHO, 1990). A idéia de que a nação brasileira realiza-se plenamente no futuro como um destino que se efetiva é evidentemente uma idéia desmobilizante, que, apesar de reconhecer problemas, não vislumbra a possibilidade de que as diferenças sejam acertadas através do conflito ou da negociação: a nação ideal virá com o desatar dos nós por algum sujeito impessoal, como um regime salvador, o "Brasil", ou simplesmente o passar do tempo, condição para que os destinos se realizem. De fato, as imagens que mais efetivamente arraigam-se no imaginário popular são aquelas calcadas em referências já presentes nesse imaginário. Para o Brasil pleno no futuro, a imagem referencial é a figura judaico-cristã do Reino de Deus, que se realiza no final dos tempos não por ação humana, mas pela graça do Criador.
Na outra ponta do atemporalidade do mito nacional, quanto mais antigo parecer o Brasil, melhor para sua compreensão como realidade a-histórica. Daí a idéia de "descobrimento", ou seja, a idéia de que o Brasil já existia, e foi incorporado à história pela chegada dos portugueses; daí também a idéia de Brasil - Colônia, expressão que subentende que não havia outra possibilidade histórica para a América Portuguesa além da de tornar-se Brasil. Não é pelo posterior que se explica o que vem antes: não é porque a colônia portuguesa tornou-se Brasil em 1822 que ela sempre foi um Brasil potencial, aguardando ser desembrulhado pelo evento de um Estado próprio. As múltiplas possibilidades de nação que se descortinaram - inclusive o projeto da Inconfidência, tido como exemplo máximo de brasilidade avant la lettre - são silenciadas ou integradas como primícias da nação que efetivamente se realizou.
Cremos que esses dois polos - a nação que já existe potencialmente desde tempos ancestrais, e a nação que realizar-se-á em toda a sua plenitude no porvir, são expressões de um mecanismo fundamental da ideologia, o estabelecimento da a-historicidade de si mesma, num movimento de "petrificação do tempo" , ou melhor, de colocação da idéia de nação fora do tempo (Chauí, 1990: 4). Negar a história e o que ela traz, a mudança, o imprevisto, o extraordinário, é fundamental para que as representações da ideologia sobre os fenômenos que ela explica tenham o efeito desejado sobre as pessoas.
O BRASIL COMO ÍNDICE DE INDETERMINAÇÃO DO SUJEITO
Quando o nacionalismo estabelece a possibilidade e a realidade de uma história nacional, uma característica constante é a transformação do "Brasil" em sujeito, dotando-o de interesses, vontade própria, características distintivas, enfim, os atributos de um indivíduo composto pela soma e média dos cidadãos que o compõem. Não se trata simplesmente de metonímia: a história nacional, sob a ótica do pensamento nacionalista, mais que a "genealogia da nação" (FURET, s.d.), é uma biografia da nação. Esta é uma característica comum nas falas comprometidas com a identidade de seu próprio grupo .
A construção da história nacional no Brasil é um longo processo, iniciado com o surgimento do Estado Nacional no século XIX, passando por sucessivas reavaliações, como na proclamação da República, e permanecendo como um trabalho não - terminado. Entretanto, a história nacional tal como é ensinada a partir dos currículos oficiais, apesar de ser apenas uma das histórias possíveis, é a história à qual os cidadãos aderem como sua, por opção de integrar-se ao grupo ou por absoluta falta de conhecimento de outras possibilidades de história com que identificar-se, inclusive a própria história experienciada em grupos menores. Com isso, a história nacional torna-se memória comum na qual será necessário fazer caber a multiplicidade e a diferença, assimilando-as quando possível ou aniquilando-as (pelo silêncio) quando colocam sob suspeita a unidade do trançado de narrações da história nacional (CANIVEZ, 1991: 122).
É sob esta esta perspectiva de unicidade que a história nacional recorre à "personalização" do Brasil, o que fica muito claro no desafio feito pela propaganda do regime: "Brasil, Ame-o ou Deixe-o" (figura 09). Um dos efeitos desse mecanismo é facilitar a identificação entre a vontade da nação e o regime vigente em cada conjuntura, o que transforma a oposição política a um projeto em oposição ao país. Não é cedo para retomar um outro exemplo tirado da campanha presidencial de 1994, em que o candidato a presidente que seria eleito acusava o seu concorrente direto, Lula, de ser contrário ao Brasil por criticar o Plano Real, que na visão de Cardoso expressava o "interesse nacional".
figura 09 
Plásticos e distintivos utilizados especialmente na conquista do Tri
Campeonato Mundial de Futebol e na Semana da Pátria de 1970,
reproduzidos na Veja 105, 9/9/70, p. 17.
Perante esses exemplos, podemos afirmar inicial e provisoriamente, que no discurso nacionalista sobre a história, no mínimo no recorte que propomos, o uso do termo e do conceito de "Brasil" serve como mecanismo de indeterminação dos sujeitos históricos por trás dos processos narrados, facilitando a idéia de unicidade e a possibilidade de adesão da maioria dos cidadãos a essa história, assumindo-a como sua. Isso generaliza para o passado coletivo as decisões, erros, vitórias, crimes, ganhos, que foram de alguns grupos específicos no decorrer da história. Processos inconversíveis a esta lógica, onde aparece a clara divisão entre os membros da nação, como é o caso a Revolução Constitucionalista de 1932, são silenciados, descritos sumariamente apenas para não faltar com a "verdade" (já que os tecelões da história nacional prezam a cientificidade de seu trabalho), ou então reinterpretados de forma a estabelecerem-se como contribuições valorosas à nação desviada de seu destino, e posteriormente reconduzida com a conciliação dos envolvidos na guerra civil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Poderíamos ainda, abordar com mais detalhe estas imagens que apresentamos acima, como também poderíamos trabalhar com outras, como o modelo de relacionamento entre o indivíduo e a nação, cristalizado no civismo e na cidadania, a utilização dos símbolos nacionais, como a bandeira e o hino, a divulgação de imagens clássicas sobre momentos da biografia nacional, como os quadros sobre Tiradentes ou o Grito do Ipiranga, pelo viés da reprodutibilidade técnica da obra de arte, mas esses alongamentos não seriam adequados ao tempo que dispomos nesta atividade. Entretanto, para encerrar, creio que é oportuno discutir algumas alternativas, no ensino, ao trabalho ideológico de formação da identidade nacional, contribuindo para experiências críticas em relação a esta temática.
Inicialmente, qualquer trabalho com esta pretensão crítica não pode reproduzir o modelo comunicativo do mito nacional, que é uma via de mão única, que transmite sua mensagem identitária, utiliza-se das referências familiares aos que recebem esta mensagem e instala-se, estabelecendo o que Balibar chama de "etnicidade fictícia". É preciso que este trabalho seja dialógico, que leve em consideração as percepções e sensibilidades pessoais em relação aos temas Brasil e brasilidade, num trabalho coletivo de análise das identidades e descoberta conjunta do processo de sua construção.
De nada adiantará procurar demolir os símbolos e mitologias nacionais tradicionais e procurar estabelecer outras: é o caso, por exemplo, de paradidáticos que evidenciam o caráter mulherengo de D. Pedro I ou a seu padecimento intestinal no momento em que proclamou a independência, ou ainda quando se discute a falta ou não de heroísmo de Tiradentes, se ele de fato um revolucionário ou apenas um D. Quixote tupiniquim. Essas abordagens podem até desmistificar heróis e grandes fatos nacionais, mas não são capazes de desmitificá-los, ou seja, de retirá-los do lugar-chave que ocupam no universo simbólico que compõe o imaginário e a consciência histórica. Comunicados de forma não - dialógica, estes "desmentidos" geralmente conduzem à apatia e à desmobilização, pois não se fazem acompanhar do esforço de descoberta de outras identidades, ou do repensar da identidade nacional, e o enfraquecimento da identidade coletiva apenas conduz à desmobilização. Sem identidade de grupo, o indivíduo é incompetente para qualquer ação política, entendida como ação com o coletivo e para ele.
Partir de um caráter dialógico e retrabalhar as identidades. Estes são princípios para uma abordagem educativa crítica do mito nacional.
Os trabalhos com a história local prestam-se a essa preocupação, desde que sejam capazes de articular seu objeto com a história mais ampla, vivenciada por grupos maiores, e que estejam vacinados contra o bairrismo.
As tentativas de pôr em contraste os símbolos nacionais, inclusive a narrativa da história nacional, e a realidade do país, evidenciando contradições e gerando a oportunidade de rediscutir identidades e reivindicar novos símbolos, é também uma alternativa muito interessante. Uma realização disso em escala significativa foi o projeto "Pátria Amada, Esquartejada", realizado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo durante o governo Luiza Erundina, sob direção da filósofa Marilena Chauí.
O sentimento nacional, criado num trabalho educativo, é como um gancho preso às costas dos indivíduos: quando movimentos politicamente inócuos e alienantes ou então manipuladores de caráter nacionalista surgem, engancham-se no sentimento de identidade nacional das pessoas e levam-nas para onde precisam. Foi assim com o Milagre Brasileiro, o Tri e o Tetracampeonato Mundial de Futebol, o Sesquicentenário da Independência, o funeral de Tancredo Neves e o Plano Cruzado, a eleição e a deposição de Collor de Melo, o Plano Real, o Brasil 500. Um trabalho educativo crítico é aquele capaz de colocar esses ganchos na mão dos indivíduos, para que, sob o controle de seu senso crítico, permitam que ele decida em que engajar-se e o que recusar, com base em seus princípios filosóficos, políticos e seus interesses específicos de classe. Isto é autonomizar os sujeitos, e isso é um passo fundamental da mudança na concentração do poder.
Por fim, para que esse tipo de trabalho seja honesto, é preciso que tenhamos claras as nossas próprias concepções de nação, nacionalismo, civismo / cidadania, regime político e utopias, para que os educandos possam relativizar mesmo os seus educadores, autonomizar-se e subjetivizar-se, e não sofrerem uma nova doutrinação que, mesmo invertendo sinais, não inverta no fundo as situações e relações.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS e ALGUMAS OBRAS IMPORTANTES NÃO CITADAS AO LONGO DO TEXTO