SITUAÇÃO ENCRENCADA
(
Cornélio Pires, 1929)

 

Tomara qui chega logo

O tempo da inleição

Pra vê se assim acaba

Esse grande barulhão

O jogo de Antónho Carlos

Muito dano tão causando

Já tem muita gente pobre

Que até fome ta passando

Já quebrou uns fazendero

Assim que o governo qué

Tamo todos sem carreira

Com a baixa do café.

Acabou o movimento

Até lá pra Noroeste

Povo todo gritando

A curpa é do Júlio Preste!

Quase todo fazendeiro

Andava de Chevrolet

Já tão andando a cavalo

Com a baixa do café

Aqueles grande banqueiro

Cheio da libra estrelina

Encostou o carro de um lado

Por farta da gasolina

Desta revorta passada

Ninguém pode ter saudade

O gigante democrata

Não queria Artur Bernardes

Por ele ser o curpado

Na revolução passada

Se for como o povo fala

É que a coisa tá danada!

Valei-me Nossa Senhora

Tem dó desse pessoar

Se o café não defendê

O povo vai passar mal

Fazendeiro todo pronto

Não é farta de vontade

Colono trabaia um mês

Recebe só pra metade

Mas depois da inleição

Nós podemos ser feliz

Deixar o Getúlio Vargas

No lugar do Washington Luís

Por todo o lado que eu ando

Os votos é todo iguar

Pelo jeito que se fala

Todo mundo é liberar.

A música composta por Cornélio Pires, em 1929, é interpretada por Mineiro e Manduzinho, que no estilo sertanejo, com palavras coloquiais sem a preocupação de regras gramaticais, visam atingir o povo humilde, uma forma de publicidade política, ao usar as palavras do povo eles tornam-se iguais, uma forma simples mas eficiente de levar a ideologia política a toda a população. Antecede as eleições de 1930, quando Getúlio Vargas perde as eleições para Júlio Prestes, apoiado pelo então presidente Washington Luís.

É uma música carregada de propaganda política a favor da candidatura de Getúlio Vargas, na qual nota-se claramente o contexto histórico pelo qual o Brasil estava passando. A crise mundial de 1929, afeta consideravelmente a economia nacional, pois o café, principal produto de exportação, baixa notoriamente. Durante a República Velha, (1889-1930) a política nacional era influenciada pelos estados de São Paulo e Minas Gerais (maiores produtores de café e gado respectivamente), desta forma, a "política do café-com-leite" alternava-se, ora um presidente mineiro, ora um paulista. O fim da república velha é marcado com a revolução de 1930, quando fazendeiros descontentes com Washington Luís, por apoiar para as eleições o paulista Júlio Prestes, em vez de um mineiro, apóiam o candidato da oposição Getúlio Vargas, gaúcho. Como foi explicado, Júlio Prestes vence as eleições, causando a ira dos fazendeiros e militares, que em 24 de outubro de 1930 tomam o poder, colocando o governo provisório sob a chefia de Getúlio Vargas, que posteriormente, seria eleito presidente pelos constituintes, de 1934-1937, começa aí, a República Nova.(1930-1945).

A crise econômica durante o governo de Washington Luís é expressa na música, ao relatar o descontentamento dos fazendeiros, a alta do combustível (gênero importado, já que não havia nem prospecção nem refino do petróleo no Brasil), daí os "carros parados por falta de gasolina", a fome da população e os problemas trabalhistas. Na música o pensamento liberal é evidente, e a "única esperança" do povo sofrido seria a eleição de Vargas.

Pode ser trabalhado em sala de aula abordando diversos aspectos, desde as sucessões dos presidentes, até assuntos mais polêmicos como as revoluções armadas e a crise econômica mundial, é uma música com grande valor histórico, indispensável ao conhecimento de qualquer historiador.

 

Acadêmicos: Amanda Cristina Rosa, Hélcio José Lourenço, Josiane Chiquito, Nilton Costa Júnior, Huiara Hilário Silva, Janete

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