Anistia
Ary Barroso - 1934
Anistia, anistia
Nos três dias de folia
Seu doutor não faça isso por favor
Na prisão basta já meu coração
Por isso é que eu peço
Anistia, anistia ...
Passo a vida no batente,
Ali rente
Somente porque que sei
Que o trabalho é natural
Seu doutor quero ir s'imbora
É hora lá fora
Começou minha festa, o carnaval
Ai, seu doutor
Anistia, anistia...
Meu amor tá me esperando
Chorando passando um pierrô
Que comprei à prestação
Seu doutor, por piedade
É maldade essa grade
Separar de mim
O meu coração
Contexto
A canção está sintonizada com o tema político dos mais importantes do momento em que surge, a anistia para os opositores do governo provisório de Getúlio Vargas, principalmente os líderes paulistas envolvidos na Revolução Constitucionalista de 1932, que tinha tentado derrubar Vargas. O autor capta o tema, mas transforma-o numa alegre paródia ao aplica-lo a um folião que, por algum motivo, foi preso na época do carnaval e fica isolado de suas grandes paixões: o amor e o carnaval.
Comentários Sobre o Autor:-
Ary Evangelista Barroso apaixonou-se pela música aos oito anos, idade de sua iniciação no piano aos doze já trabalhava como pianista auxiliar no Cinema Ideal em Ubá, Minas Gerais, cidade de seu nascimento. Três anos mais tarde, aos quinze, fez sua primeira composição musical: De Longe, um cateretê* e logo depois a marcha** Ubaenses gloriosos. A partir daí não parou mais, ao todo foram 288 composições, na sua maioria em parceria com outros autores. Em 1921 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade de direito na rua do Catete e lá passou a freqüentar as rodas boêmias da capital, onde conheceu vários de seus futuros parceiros musicais, entre os mais famosos estão: Lamartine Babo, com quem compôs a marcha: Amor de mulato e o fox-trot*** : Nina (1928); os sambas: Na virada da montanha, E o samba continua (1936); e as marchas: Grau dez e Cachorro quente (1938). Foi ainda parceiro de Noel Rosa em sambas como: Deixa disso, Mão no remo e Estrela da manhã (1931); com Vinícius de Morais compôs o célebre: Escrevi um bilhetinho (1938), participou ainda de várias composições para o teatro musicado, a convite de Olegário Mariano e Luís Peixoto, revistógrafos do Teatro Recreio no Rio de Janeiro, foi nesta época que viu sua carreira deslanchar, ao ter seus primeiros sambas gravados pela Odeon, a mais conceituada gravadora da época. O reconhecimento veio por parte de Mário Reis Odeon, proprietário da gravadora e seu colega de faculdade. Passou a dedicar-se a escrever- marchas, modinhas, valsas, mazurcas,° mas a paixão verdadeira eram os enredos, apaixonado confesso pelo carnaval, tornou-se um grande compositor de sambas-enredo, entre os mais famosos está Aquarela do Brasil, tema apresentado pela Escola de samba Império Serrano, no ano de seu falecimento num Domingo de carnaval em 09/02/1964.
Em 1934, escreveu o samba Anistia°°° onde demonstrou toda sua paixão pelo carnaval, retratando os dias de folia, o seu amor pela liberdade e a figura mais presente nos carnavais dos blocos e desfiles, o pierrô°°. Mas na década de trinta os três dias de folia já não eram os mesmos de outrora. Antes de 1930, não havia a intervenção°°* do Estado na organização da festa. Com a era Vargas surge o intervencionismo estatal, que passou a controlar toda a ação social do país, e a festa mais esperada do ano, passou a ser dirigida pelo Estado, que cuidava de seus interesses fiscalizando as músicas, bem como todo o seu repertório, que a partir de então teve de apresentar suas letras a apreciação dos órgãos de censura da época, os mesmos que fiscalizavam com rigor cada uma das composições. Os dirigentes de cada bloco deveriam apresentar os componentes e retirar uma licença para participarem da festa, não poderiam haver bailes de carnaval sem a devida licença, havia também uma predeterminação quanto ao horário do encerramento das festas. Mas as restrições não acabam aqui, havia ainda uma proibição quanto ao tipo de roupa usada pelos foliões, a de que ninguém poderia usar máscaras nas ruas, isto impedia a pronta identificação dos foliões em caso de suspeição por parte da polícia.
Acadêmicos: Andrea Klas, James Proença, Keila de Oliveira, Lucimara Bigaski.