COMENDO BOLA
Marchinha Carnavalesca de Hekel Tavares e Luis Peixoto,
Interpretada por Jaime Redondo 1929.

 

Gaúcho, meu irmãozinho
Meu irmãozinho mineiro
Seu Julinho é que vai ser
Porque esse tá de Julinho
É um caboclo brasileiro
Brasileiro como quê
Tudo o mais é gauchada
Tudo o mais não vale nada
Meu irmãozinho gaúcho
Se tu amarra a cavalada
Vendo as coisa mal parada
Não agüenta com o repuxo

(Refrão)

Getúlio, você tá comendo bola
Não te mete com seu Júlio
Não te mete com seu Júlio
Que seu Júlio tem escola

Atrás do liberalismo
Ninguém vá que esse cinismo
É potoca, é brincadeira
Eu conheço muito tolo
Que acabou levando bolo
E bateu na geladeira
Eles pensam, seu Julinho
Que esse povo é zé-povinho
Que isso é pau de galinheiro
Que sem nota e sem carinho
O Brasil anda sozinho
Porque Deus é brasileiro


Getúlio, você ta comendo bola ...

 

FICHA TÉCNICA

Autoria: Tavares, Hekel, 1869-1969

Responsabilidade: Letra de Luís Peixoto

Intérprete: Jaime Redondo

Imprenta: Rio de Janeiro: Ed. Das Casas Vieira Machado,

 

BIOGRAFIAS DOS AUTORES E DO INTÉRPRETE


HEKEL TAVARES

Hekel Tavares, compositor, regente, arranjador, orquestrador e folclorista, nasceu em Satuba, Alagoas, no dia 16/9/1896 e faleceu no Rio de Janeiro em 8 de agosto de 1969.

Estudou piano com uma tia, aprendeu também harmônica e cavaquinho, demonstrando grande interesse pelas manifestações populares. Sob a influência nacionalista da Semana da Arte Moderna, ao lado de Marcelo Tupinambá, Henrique Vogeler e Valdemar Henrique criou um novo modelo musical onde se misturam elementos do erudito e do popular.

Em 1926, através do teatro de revista, estréia como compositor com o maxixe Carnaval Carioca, dele e de Goulart de Andrade, o próprio autor da peça, "Sta na hora", onde a música foi levada.

No ano seguinte, ganhou o reconhecimento através de sua composição Suçuarana, em parceria com Luiz Peixoto, mas seu grande sucesso foi de fato, Casa de Caboclo, também em parceria com Luiz Peixoto, de 1928, gravado por Gastão Formenti.

De 1949 a 1953, percorreu o Brasil em missão especial do Ministério da Educação e Cultura, recolhendo motivos folclóricos, muitos dos quais utilizou em sua obra, tais como os poemas sinfônicos: O Anhangüera, com argumento de sua esposa Maria Dutra Tavares e poemas de Murilo Araújo. Compôs ainda: Concerto em formas brasileiras, para violino e orquestra; O sapo domado e A lenda do gaúcho, fantasias infantis. Deixou ainda inacabados: Rapsódia nordestina e Fantasia brasileira, ambas para piano e orquestra; Palmares drama folclórico.

Em 1996, Fernando de Bortoli escreveu Hekel Tavares O mais lindo concerto para piano e orquestra, publicado em São Paulo, com edição própria, onde inclui a listagem de toda a obra do compositor.

Destaques musicais populares:

Azulão, Hekel Tavares e Luiz Peixoto (1929).

Banzo, Hekel Tavares e Murilo Araújo (1933)

Comendo bola, Hekel Tavares e Luiz Peixoto (1929)

Carnaval carioca, Hekel Tavares e Goulart de Andrade (1926)

Casa de caboclo, Hekel Tavares e Luiz Peixoto (1928)

Engenho novo, Adaptação de Hekel Tavares (1929)

Favela, Hekel Tavares e Joracy Camargo (1933)

Funeral de um rei nagô, Hekel Tavares (1954)

Guacira, Hekel Tavares e Joracy Camargo (1933)

Leilão, Hekel Tavares e Joracy Camargo (1933)

Suçuarana, Hekel Tavares e Luiz Peixoto (1927)

LUIS PEIXOTO (1889-1973)

Autor, cenógrafo, compositor, diretor artístico, figurinista, mas, sobretudo, um homem voltado para as coisas brasileiras, principalmente a música.

Estreou no teatro em 1911, quando produziu com Carlos Bittencourt a Revista Seiscentos e Seis. Desenvolveu atividades na imprensa e no teatro.

No início da década de 20, trabalhou como cenógrafo em Paris, montando peças, e trazendo idéias e técnicas que irão revolucionar o teatro de revista no rio de Janeiro.Quando retornou da Europa, estava disposto a substituir o uso musical de ritmos ultrapassados, pela intensa utilização de ritmos da atualidade, especialmente os das composições populares, segundo a pesquisadora Neyde Veneziano.

È considerado o maior revistógrafo de todos os tempos, vai interferir no teatro, na poesia, e principalmente na música brasileira.

Principais sucessos musicais:

Ai, ioiô (Linda flor), com Henrique Vogeler e Marques Porto, 1928.

Azulão, com Hekel Tavares, 1929.

Brasil Moreno, com Ary Barroso, 1941.

Casa de Caboclo, com Hekel Tavares, 1928.

Disseram que eu voltei americanizada, com Vicente Paiva, 1940.

É luxo só, com Ary Barroso, 1957.

Maria, com Ary Barroso, 1932.

Na batucada da vida, com Ary Barroso, 1934.

Por causa dessa caboca, com Ary Barroso, 1935

Quando eu penso na Bahia, com Ary Barroso, 1937.

Suçuarana, com Hekel Tavares, 1927.

Tome polca, com José Maria de Abreu, 1950.

Jaime Redondo 1890 -1952

Jaime Fomm Garcia Redondo, cantor, compositor, pianista, violonista, ator e cineasta, desde pequeno tocava violão, piano e compunha. Filho do engenheiro e escritor Manoel Ferreira Garcia Redondo, um dos fundadores e ocupante da cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras.

Cantou e foi diretor de música popular na rádio de São Paulo, a Educadora Paulista (fundada em 1923).

No cinema, foi ator, produtor, fotógrafo, diretor e argumentista: A voz do Carnaval (1933), de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, Jaime fez parte do elenco.

No início da carreira cantou e fez muitas versões. Mais tarde abandonou a carreira de cantor e foi ser diretor artístico do Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, RJ.

Seu maior sucesso como autor foi o samba-canção Ave Maria, em parceria com Vicente Paiva. Como autor foi interpretado por Francisco Alves, Luiz Alonso (Alonsito), Lila Dias, Abgail Parecis, Helena Pinto de Carvalho, Gaó (piano), Eli Barreiros, Zezé Lara, Arnaldo Pescuma, Jeannete & Fernandinho, H. G. Americano. Irmãs Pagãs, Paulo Tapajós, Dalva de Oliveira, Rubens Leite, Poly (guitarra havaiana), Orquestra Cassino de Sevilha, Cláudio de Barros, Alberto Ribeiro, Lana Bittencourt, Luciene, João Gilberto, Maria Bethânia, entre outros.

Principais sucessos como intérprete:

Alguns dias bons, N. Shilkret e L. Pollack (1929)

Ao cair do pano, Sherman, Lewis e versão de Jaime Redondo (1929)

Comendo bola, Hekel Tavares e Luiz Peixoto (1929)

Harmonia! Harmonia, Hekel Tavares e Luiz Peixoto (1929)

Ilusão que se vai, Jaime Redondo (1929)

Jaci, Jaime Redondo (1929)

Mas que trapaiada, Jaime Redondo (1929)

Meu pintassilgo, Jaime Redondo (1929)

Mulata, Domínio popular (1929)

Saudades, Jaime Redondo (1929)

Principais composições gravadas por outros intérpretes:

Ave Maria, Vicente Paiva e Jaime Redondo, gravação de Dalva de Oliveira (1950)

Que noite!... E que pequena J. L. Sanders e versão de Jaime Redondo, gravação de Francisco Alves (1929)

Biografias retiradas dos sites:

www.geocities.com/aochiadobrasileiro/biografia/biografialuis peixoto.htm

www.geocities.com/aochiadobrasileiro/biografia/biografiahekel tavares.htm

www.geocities.com/charlegiana-biografia/Biografiajaimeredondo.htm

CONTEXTO

As marchinhas de carnaval tiveram o seu auge nos anos 30, 40 e 50 do século XX. O sucesso obtido foi resultado de melodias simples e de forte apelo popular, com letras irônicas, engraçadas e de caráter ambíguo. O compasso binário das marchinhas agradava o povo, e o apogeu das marchinhas está ligado à popularização das mesmas. Trazendo crônicas urbanas, elas tratavam normalmente de temas cotidianos, da história dos subúrbios carioca, e muitas vezes, tinham conotação política. Aqui, cabe ressaltar que o ambíguo, o duplo sentido, era muito explorado, com o intento de dar leveza a temas que não eram tão leves, como é o caso da marchinha aqui trabalhada, de cunho extremamente político, em que os autores da marchinha fazem sua escolha política, bem como, a ideologia que irão popularizar através da difusão da música, até mesmo pelo conflito que ela apresenta.

A marchinha "Comendo Bola" se insere no período de sucessão presidencial de 1930, e exalta a figura do candidato do governo Julio Prestes e ironiza a candidatura oposicionista de Getúlio Vargas, lançada pela Aliança Liberal.

A depressão que afetou a economia mundial, com a crise de 1929, detonada pela queda da Bolsa de Nova Iorque nos EUA, teve efeitos nos países da América Latina, cuja economia agro-exportadora foi afetada pela retração dos investimentos estrangeiros e a redução das exportações de matéria prima. O Brasil neste período era governado por Washington Luis, que visando assegurar a continuidade de sua política econômico-financeira, indicou para a sua sucessão o paulista Júlio Prestes.

Com a candidatura de Julio Prestes, lançada por Washington Luis, aconteceria a quebra da política do "café com leite", que consistia no revezamento do poder entre mineiros e paulistas. Esta decisão causou revolta, já que o próximo presidente seria o mineiro Antonio Carlos Ribeiro de Andrada e não outro paulista.

A oposição mineira buscou apoio com o Estado do Rio Grande do Sul e foi formada a Aliança Liberal, que lançou a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas para presidente e o paraibano João Pessoa para vice, os oposicionistas.

A campanha foi acirrada, mas, o resultado do pleito de 1 de março de 1930 deu vitória a Júlio Prestes. Muito embora, a fraude tanto da situação como da oposição foi dominante neste momento.

Os oposicionistas acusaram o pleito de fraudulento, e as denúncias de fraude ganharam espaço, reforçadas pelas articulações dos oposicionistas civis e militares que prosseguiram, vindo a resultar, no mês de outubro de 1930, na Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.

METODOLOGIA

A música "Comendo bola" poderá ser trabalhada ressaltando a importância dela dentro da cultura popular e política da época. Isso porque o Brasil passava por um período eleitoral, disputado entre Getúlio Vargas e Júlio Prestes. Esta música denigre a imagem do político gaúcho Getúlio Vargas e exalta a figura do candidato paulista e da situação Júlio Prestes.

Será necessário relacionar a letra da música com a queda da bolsa de valores de Nova York e sua crise mundial, com a busca da manutenção da economia do presidente Washington Luis e a indicação de Julio Prestes para a sucessão presidencial. Evidenciando também a questão da política do "Café com leite" e a quebra desta política pelo presidente Washington Luis, ocasionado o conflito e a formação da Aliança Liberal.

Em questão da disputa política retratada na letra da música, percebemos uma diferença cultural: paulistas x gaúchos, com a presença forte de regionalismos. Na marcha carnavalesca é visível essa diferença. É necessário questionar com os alunos quais são essas diferenças e pedir exemplos. E questionar ainda, qual o motivo da exaltar o paulista em detrimento do gaúcho, já que através da marchinha o povo zombava das instituições enquanto se espalhavam pelas ruas da cidade no carnaval.

Trabalhar com os alunos a música, com a necessidade de abordar os conceitos de estrofe e verso, e a marchinha como um todo, para melhor entendimento da mesma.

Partindo da música, o professor poderá trabalhar com a crise econômica mundial que antecipa a disputa presidencial de 1930, a disputa propriamente dita, a eleição de Julio Prestes e as fraudes da oposição e da situação, a política do "café com leite", o surgimento da Aliança Liberal e suas propostas, os regionalismos, a Revolução de 1930, Getúlio Vargas no poder e o seu governo populista.

PERGUNTAS QUE SERÂO FEITAS AOS ALUNOS:

REFERÊNCIAS

SITES:

www.geocities.com/aochiadobrasileiro/biografia/biografialuis peixoto.htm

www.geocities.com/aochiadobrasileiro/biografia/biografiahekel tavares.htm

www.geocities.com/charlegiana-biografia/Biografiajaimeredondo.htm

www.bn.br/argonauta/webnauta.exe

www.fgv.br/pesquisashistorica/index

www.fgv.cpdoc.fgv.br/comum/htm

Enciclopédia da Música Brasileira:

http:cf2.uol.com.Br/encmusical/listaverbete.asp?code=2392

http:cf2.uol.com.Br/encmusical/listaverbete.asp?code=2970

 

CATIANE MATIELO

DANIELY RIBEIRO DOS SANTOS

MARINA VIEIRA JOHANSEN

VIRGINIA TONIOLO ZANDER

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