
Por Henriqueta
SÃO
JORGE - AÇORES
As
expectativas em relação a São Jorge não eram muitas ..... mais uma ilha dos
Açores ! Mas dei o dito por não dito ..... A variedade e beleza das paisagens
, a simpatia das pessoas e muitas outras coisas cativaram-me e, depois de São
Miguel , esta é a minha ilha preferida neste arquipélago.
Tive o privilégio de
ver a ilha pelo lado norte vindo de barco da Ilha Graciosa e de contornar a
Ponta dos Rosais ( Foto ):
São Jorge situa-se no
centro do Arquipélago e tem 56 Km de comprimento por 6 a 8 Km de largura . Se
estivermos no lado norte avistamos a Graciosa , no Topo Norte temos a Terceira e
do lado sul o Pico sempre à nossa frente ( com o seu capacete de nuvens e o
mamilo saliente por cima das nuvens de "algodão " branco ) e, lá
para os lados das Velas e das Ponta dos Rosais, o Faial está presente no nosso
horizonte visual.
Os dias que passei em
São Jorge permitiram-me compreender o isolamento e dificuldades a que estes
Portugueses , em pleno século XXI , ainda estão submetidos mas, também me
deram a oportunidade de provar o melhor queijo do Mundo ( e ver como são
produzidos devido à gentileza da Direcção da Fábrica da Cooperativa Agrícola
do Topo) e desfrutar das belas piscinas naturais que se encontram ao longo de
toda a ilha.
Destaco ainda a Poça
de Simão Dias (junto à Fajã do Ouvidor )porque se o paraíso existe deve ser
muito semelhante..... ; as Fajãs ( superfícies planas que se prolongam pelo
mar , provenientes dos abatimentos da falésia e que foram convertidas em férteis
pomares e e campos de cultivo ) e o Parque das Sete Fontes.
Poça
de Simão Dias – Fajã do Ouvidor
Costa Norte da Ilha (
com algumas fajãs )
MAU
TEMPO NO CANAL – VITORINO NEMÉSIO
Quando voltei dos Açores
tive curiosidade de ler este livro, cuja acção decorre nas ilhas Centrais do
Arquipélago dos Açores, na 1ª metade do século XX. Lendo o livro revi os
locais, ainda bem frescos na minha memória, e imaginei as personagens nesses
locais..... Transcrevo aqui algumas passagens que falam de São Jorge e da
freguesia da Urzelina, onde passei bons momentos que devo a um amigo açoreano e
à sua família .
"Os primeiros
dias de desterro de Margarida correram suaves na Urzelina . Bem na Urzelina, não.
A casa do capitão José Urbanino- como a conheciam ainda – ficava um pouco
retirada da linha da povoação apontando com os seus telhados baixos e longos,
com a sua eira e engenho, na direcção da "Serra"- a Serra vaga e
toda lombar de São Jorge , mãe de milhares de vacas que parecem encarregadas
de velar por ela e de milhões de vitelas enterradas no seio do fogo, virgens do
garfo do gourmet.
Construída numa
leve ondulação de terreno, a vivenda do barão via em baixo a chamada Torre
Velha e a casa que servira de passal, relíquias dos restos humanos que a grande
erupção soterrara na lava..(...)
Ao poente
estendia-se a terra lambida e negra que o grande respiradoiro de repente aberto
na ilha, amontoado ali- a Queimada (... ) A vegetação, porém, começava a
ganhar o duelo travado há mais de um século entre aquele borralho negro e as
forças escondidas no chão; e a urzela, o pinheiro, a ruivinha que pinta os
queijos e as saias, o incenseiro de florinha cerosa e de baga melada vestiam de
folhas e de pássaros a desesperada solidão.
A nascente , aquele
atrevimento de Cíbele queimada ia muito mais longe, e floria laranjeiras,
enchia de ouriços os pequenos soutos de castanheiros serviçais, estendendo-se,
para o norte, em folhas de terras de semeadura e, depois dos
"roedoiros" ou pascigos mais pobres , nos pastos mais pobres que
alimentam de queijo a rua da Prata. Ao sul- para variar- as vinhas de
Casteletes, naquela quadra do ano já sem um bago ou uma folha , reduzidas a um
fio de seiva adormecido nas varas agarradas aos bicos sangrentos do
"biscoito". "
NEMÉSIO , Vitorino-
MAU TEMPO NO CANAL. Lisboa, Publicações D. Quixote, 2002, pp 389-390.
Boas
leituras e bons passeios..... e se não puder ir aos Açores leia este livro e
deixe voar as asas da sua imaginação !