Roteiros

 

 

 

Por Henriqueta

Évora  

Nesta edição de Maio das Letras Paganini optei por vos fazer uma proposta de Roteiro ligeiramente diferente das anteriores : Se  este é um site dedicado à literatura  então porquê não propor um roteiro literário ?

Escolhi Évora porque na Primavera o Alentejo fica muito colorido: É uma óptima terapia passear pelas estradas alentejanas ladeadas de giestas de flores  amarelas ou sargaços  de flores brancas  e repousar o olhar no arco-íris em que a planície se transforma nesta estação . O segundo motivo que me leva a sugerir-vos um passeio até Évora é porque é a minha terra :A Praça do Geraldo ( onde “geralmente” os eborenses se encontram ),a Sé Catedral , a Universidade , o Templo Romano , a Igreja de São Francisco com a Capela dos Ossos  (“Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos “), a Fonte das Portas de Moura, conventos , palácios , ruas estreitas e sinuosas .... Enfim se optarem por deambular pelas ruas e ruelas têm muito para descobrir !

 

Como disse Florbela Espanca :

 

 Évora

 

"Évora! Ruas ermas  sob os ceús

Cor de violetas roxas... Ruas  frades

Pedindo em triste penitência a Deus

Que nos perdoe  as míseras vaidades!

 

Tenho corrido em vão tantas cidades!

E só aqui recordo os beijos teus,

E só aqui eu sinto que são meus

Os sonhos que sonhei noutras idades!

 

Évora... o teu olhar... o teu perfil...

Tua boca sinuosa, um mês de Abril,

Que o coração no peito me alvoroça!

 

.. em cada viela o vulto de um fantasma...

E a minh`alma soturna escuta e pasma...

E sente-se passar menina e moça....”

Um roteiro mais específico é –nos proposto pelo escritor Vergílio Ferreira que na sua obra “Aparição  fala-nos  de vários locais da cidade :

 

“Pelas nove da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora .(...)Um moço de fretes (...) promete-me uma pensão muito boa , mesmo na Praça , “que é já ali “(...) Está uma manhã bonita , com um sol íntimo dourando o ar, um vento leve da planície, fresco de orvalhos.(...) A Praça não é “já ali “, como me garantira o moço.(..)

Pelo empedrado das ruas, carroças estremecem com um estrétipo de ferragens, cruzam-se diante de mim as fachadas dos prédios numa alucinação de luz, uma vaga de aridez abre-me à imensidão da planície .Sobre o casario branco vou descobrindo aqui e além manchas negras de velhos templos , e ao alto disparadas ao céu , as torres da Sé.(...).Mas a cidade é fácil nesta rua principal : o que se perde nela não são  os passos mas apenas, quando muito o olhar.Com efeito, nas súbitas arcadas que levam à Praça , abre-se-me um obscuro labirinto onde julgo repercutirem-se, como ecos de uma gruta, os ecos do tempo e da morte.”

 

Nota : Neste  texto o percurso descrito é o seguinte : Estação da CP, Avenida Dr Barahona , Rossio de São Brás, Rua da República e  Praça do Geraldo .

 

  Avenida Dr Barahona

 

              
  
“Sobre o casario branco vou descobrindo aqui e além manchas negras de velhos templos , e ao alto disparadas ao céu , as torres da Sé.(...).

 

Arcadas e Praça do Giraldo

“Lavei-me  enfim , mudei de roupa , saí para o Liceu com uma tranquilidade nova. A cidade resplandecia a um sol familiar, branca, enredada de ruas, como de velhas ciladas, semeada de ruínas , de arcos partidos, nichos de santos das orações de outras eras, janelas góticas, como olhares embiocados. Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuário dos séculos , e dos séculos, como te lembro, como me dóis! (...) Subo a rua que me leva à Sé, viro no largo do Templo de Diana. E, nas colunas solitárias ouço como o murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O Zimbório da Sé brilha , dourado ao sol matinal. Fico a olha-lo longo tempo, parado sob um arco que se lança sob a rua , suspenso de silêncio e de memória. Depois as ruas descem apressadas, oblíquas a velhos medos, até outras ruas obscuras, onde me perco. E finalmente descubro o edifício do Liceu.”

 In “Aparição

 

Nota : Neste  texto o percurso descrito é o seguinte :   Praça do Giraldo, Rua 5 de Outubro , Largo dos Condes de Vila Flor (Sé), Largo Dr Mário Chicó , Rampa de São Miguel e Colégio do Espírito Santo  ( Liceu Nacional de Évora nos anos em que o escritor aí leccionou e actualmente Universidade )

 

 

Templo Romano de Évora (incorrectamente designado por Templo Diana)


 

 

Colégio do Espírito Santo – Actual Universidade de Évora)


 

 

Com este Roteiro apenas vos pretendo abrir o apetite para visitar Évora e para (re)ler a “Aparição”. Muitos outros espaços de Évora ele nos  descreve como por exemplo a Praça de Geraldo às  3ªs feiras (Dia de Porcos .... ou seja de negócios de gado ) , O Alto de São Bento onde viveu ....

 

  Moinhos do Alto de São Bento
 

Não posso também deixar de me referir a Eça de Queirós que viveu alguns meses em Évora onde fundou e dirigiu o Jornal Distrito de Évora . E com um convite para visitarem a Feira de  São João ( que se realiza anualmente de 24 a 30 de Junho) deixo-vos com uma descrição do evento pela mão de Eça:

 

A feira de São Brás

“ Eis aqui o que é a feira de S. Brás.

Embora  venha o passeio disputar concorrência com ela , ela é uma das mais queridas diversões da  monotonia insuportável que pesa constantemente sobre o mundo eborense; ela perfaz por si só uma das raras épocas em que o homem conhece a mulher, em que vive com ela e perto dela, em que os dois sexos se confundem momentaneamente , em que se ri, em que se folga , em que se mostra por instantes a vivacidade aliás tão própria dos povos do Meio Dia.

A feira de s. Brás é  tão popular que até o pai Luís , o nosso velhinho pai Luís , lá andava este ano, rindo também (...).”

EÇA DE QUEIROZ -  A FEIRA DE S. BRÁS  In Distrito de Évora, 1867, N.º 9 , 7 de Fevereiro

 
 

Para itinerários mais detalhados poderão consultar o seguinte endereço : http://www.cm-evora.pt/itinerários

  
   Henriqueta 

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