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Poesia Infantil

Duas Estrelas

 

A estrela que está no céu

Pôs-se um dia a voar

Viu outra estrela nas ondas

Era a estrela do mar

 

As duas estrelas se olharam

E ficaram encantadas

Juntas nadaram, voaram

Duas estrelas apaixonadas

 

E ao darem o primeiro beijo

Tornaram-se uma estrela cadente

Se a vires, pede um desejo

Como faz tanta gente

 

Pedro Farinha – Julho 2001

 

 

 

Dormem  numa cama de algas

entre rochas e corais

só não podem bronzear-se

na extensão dos areais

 

Porque peixes fora de água

não conseguem respirar

mexem as guelras depressa

e voltam logo ao mar

 

Os peixes de muitas cores

das águas fundas dos mares

sabem por ovos fresquinhos

com peixes aos milhares

 

Dona Pescada Merlusa

foi um dia convidada

para ir ao baile dos peixes

e para ir bem mascarada

 

Mascarou-se de moreia

e enfeitou as barbatanas

fez um buraco na areia

e limpou bem as escamas

 

Os peixes de muitas cores

das águas fundas dos mares

sabem por ovos fresquinhos

com peixes aos milhares

 

"Para onde vai mascarada,

Dona Pescada Merlusa?"

"Vou para o baile dos peixes

com uma saia e uma blusa".

 

"E quando voltar do baile

venha dar-me boas novas;

e que tal se esta noite

nos desse um pratinho de ovas?"

 

Os peixes de muitas cores

das águas fundas dos mares

sabem por ovos fresquinhos

com peixes aos milhares

 

José Jorge Letria

Letra de uma canção escrita para o programa de televisão - "A Arca de Noé" - Outubro 2001

 

Levava eu um jarrinho
P'ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P'ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás

De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.

 

Fernando Pessoa - Maio 2002

 

A Formígrafa

Formigavam as formigas
de um buraquinho no chão
todas muito direitinhas
numa fila perfilada
que contornava o torrão.
Eis senão quando uma delas,
sem motivo, nem razão,
deu dois passos de guinada
e mudou de direcção.

Foi a fila para um lado
e a formiga dissidente

para outro bem diferente.

E assim, sem companhia,
num andar desassombrado,
caminhou até achar
o abrigo de um telhado.

Devagar, mas persistente,
galgou, cansada, um degrau,
marinhou por um sobrado,
contornou uma cadeira,
subiu a perna da mesa
e pousou sobre um papel
onde havia quatro versos
que a prenderam como mel.

Era ali que queria estar
e acabar o seu dia
entre as curvas dançarinas
das letrinhas elegantes.  
                       

Queria ser caligrafia.

         Pensou ,talvez, ser acento.

Mas um grave, nem pensar.               
e agudo muito menos...
Não suportava a tortura.
De tanto se inclinar
ficava numa tontura.

Com um jeito de coluna
podia ser circunflexo. 
                       
Mas a torção era um excesso!

Podia, se bem quisesse
pôr um ar mais donairoso,
ser um til bem saboroso...
               

E deitada, bem esticada
tornava-se travessão...

Mas não gostava de nada.
Não achava a vocação.

Foi então, desanimada,
que parou no fim da linha,
encolheu-se, redondinha,
a sentir-se uma falhada.

E assim adormeceu.

Vai daí chega o poeta
que fora dar um passeio
a espairecer a cabeça
do desespero de ter
um poema em formação
e não saber que escrever
para lhe dar conclusão.

Olha então para o papel
e solta um grito espantado!
O poema interrompido,
vai-se a ver, estava acabado.

Abriu um olho a formiga
e, espertinha, percebeu.

Satisfeita, regalada,
ainda mais se encolheu.

Estava agora consolada.
Tinha um destino, afinal.

Ia ser ponto final.

                                          Margarida Ribeiro - Junho 2002

 

A oração do Luís

 

Todas as noites a mãe

Quando deitava o Luís

Nuna percebia bem

A oração do petiz.

 

Sempre que o filho rogava

O pão nosso de cada dia

Não sei o que suplicava

Que ninguém o percebia.

 

Até que numa ocasião

De sono quae perdido

Fez mais alta a oração

E descobriu-se o pedido.

 

Luís. cheio de fervor

Com uma vozinha meiga

Pedia a Nosso Senhor

O pão-nosso.. com manteiga.

 

António Costa - Janeiro 2003

 

As crianças mal amadas

 

As crianças mal amadas

Têm os olhos

Da cor da noite

E uma nuvem

No lugar do coração.

As crianças mal amadas

Gostam dos recontos

E dos desencantos

Da solidão.

Não têm amigos

Conversam com os dedos

Não estragam brinquedos

E têm segredos

Adormecem com medo

Do Bicho Papão.

 

Maria João Domingos - Maio 2003

  

 

 

 

 

 

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