Poesia
Porque
Porque
os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia Mello Breyner Andersen - Outubro 2000
Quasi

Um pouco mais de sol - eu era brasa
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...
Assombro ou paz ? Em vão ... tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor ! - quase vivido ...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o principío e o fim - quase a expansão ...
Mas na minh´alma tudo se derrama ...
Entanto nada foi só ilusão !
De tudo houve um começo ... e tudo errou ...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim ...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou ...
Momentos de alma que, desbaratei ...
Templos aonde nunca pus um altar ...
Rios que perdi sem os levar ao mar ...
Ânsias que foram mas que não fixei ...
Se me vagueio, encontro só indicios ...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de heroi, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios ...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí ...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi ..
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...
Mário de Sá-Carneiro - Agosto 2001
Estavas sentado e havia uma paisagem agrestenos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,os espinheiros agitados com a erosão das dunas,um mar picado, capaz de todos os naufrágios. O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -era a força do vento contra o corpo do navio; umamiragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;a ameaça surda de um trovão que resgatasse a irados deuses com o mundo. quando te levantaste, disseste qualquer coisa muito breve que me feriude morte como a lâmina de um punhal acabadode comprar. (Se trovejasse, podia ser um raioa fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.) Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojosque as ondas espalham de madrugada pelas praias.
Maria do Rosário Pedreira - Junho 2002


Às vezes tenho medo de esquecer tudo:a casa onde nasci, o recreioda escola, essas vozesque lembram um copo de águano verão. Jorge Gomes Miranda - Outubro 2002

Mulheres de preto Há muito que são velhas, vestidasde preto até à alma.Contra o murodefendem-se do sol de pedra;ao lumefurtam-se ao frio do mundo.Ainda têm nome? Ninguémpergunta, ninguém responde.A língua, pedra também. Eugénio de Andrade - Março 2003
Descobrir amar os outros
reconciliou-me comigo mesmo
estou fascinado pela beleza do mundo
que cor dou ao ar que sabor à água
as pequenas coisas todas as pessoas
o teu nome sobre mim inscrito
o encantamento mais profundo
vive longe no canto secreto da vida
é preciso descobri-lo lentamente
deixá-lo sair transportá-lo ao colo
como o que é frágil um tesouro
todos os momentos quando bem vistos
têm tudo ou quase tudo até a solução
do que podemos sentir para se ser feliz
deixa-me sentar-te ao teu lado
mesmo que não aconteça nada
isso é já muito um começo
o gosto de acreditar no outro
há pedaços que só se colam assim
memórias que crescem então
como ramos de árvores talvez
sabes as noites que passamos em claro
depois de não saber que fazer aos dias
têm iluminadas as estrelas
lembras-te quando te ensinaram constelações
era verão com toda a certeza
e perto de ti uma voz mais velha
segura terna plena de afecto
dizia começa ali a cassiopeia
que cabia toda na palma da mão
se souberes onde está vénus
a estrela que dizem de todo o amor
não te perdes nunca
no entendimento do céu nocturno

Pedro Strecht - Junho/Julho 2003