Letras de Canções
Que há-de ser de nós
Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é ventoJá ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nósJá avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhãReencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nósQue há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nósJá enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustosJá cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi
quanto é, quanto dura?Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Sérgio Godinho
in "Coincidências" - Setembro 2001
A ilha
Fiz-me ao mar com lua cheia
a esse mar de ruas e cafés
com vagas de olhos a rolar
que nem me viam no convés
tão cegas no seu vogar
e assim fui na monção
perdido na imensidão
deparei com uma ilha
uma pequena maravilha
meia submersa
resistindo à toada
deu-me dois dedos de conversa
já cheia de andar calada
tinha um olhar acanhado
e uma blusa azul-grená
com o botão desapertado
e por dentro tão ousado
um peito sem soutien
ancoramos num rochedo
sacudimos o sal e o medo
falamos de musica e cinema
lia Fernando Pessoa
e às vezes também fazia um poema
e no cabelo vi-lhe conchas
e na boca uma pérola a brilhar
despiu o olhar de defesa
pôs-me o mapa sobre a mesa
deu-me conta dessas ilhas
arquipélagos ao luar
com os areais estendidos
contra a cegueira do mar
esperando veleiros perdidos
Carlos Tê
in "Guardador de margens - Rui Veloso" - Dezembro 2001
Porque não me vês
Meu amor adeusTem cuidadoSe a dor é um espinhoQue espeta sózinhoDo outro ladoMeu bem desvairadoTão aflitoSe a dor é um dóQue desfaz o nóE desata um gritoUm mau olhadoUm mal pecado E a saudade é uma esperaÉ uma afliçãoSe é PrimaveraÉ um fim de OutonoUm tempo mornoÉ quase VerãoEm pleno InvernoÉ um abandonoPorque não me vês MaresiaSe a dor é um ciúmeQue espalha um perfumeQue me agoniaVem me ver amorDe mansinhoSe a dor é um marLouco a transbordarNoutro caminhoQuase a espraiarQuase a afundar E a saudade é uma esperaÉ uma afliçãoSe é PrimaveraÉ um fim de OutonoUm tempo mornoÉ quase VerãoEm pleno InvernoÉ um abandono
Fausto
in "Por este rio acima" - Janeiro 2002

Será
Será
que ainda me resta tempo
contigo,
ou já te levam balas de um qualquer
inimigo.
Será que soube dar-te tudo o que
querias,
ou deixei-me morrer lento, no lento
morrer dos dias.
Será que fiz tudo que podia fazer,
ou fui mais um cobarde, não quis ver
sofrer.
Será que lá longe ainda o céu é azul,
ou já o negro cinzento confunde Norte
com Sul.
Será que a tua pele ainda é macia,
ou é a mão que me treme, sem ardor
nem magia.
Será que ainda te posso valer,
ou já a noite descobre a dor que
encobre o prazer.
Será que é de febre este fogo,
este grito cruel que da lebre faz lobo.
Será que amanhã ainda existe para ti,
ou ao ver-te nos olhos te beijei e
morri.
Será que lá fora os carros passam
ainda,
ou estrelas caíram e qualquer sorte é
benvinda.
Será que a cidade ainda está como
dantes
ou cantam fantasmas e bailam
gigantes.
Será que o sol se põe do lado do mar,
ou a luz que me agarra é sombra de
luar.
Será que as casas cantam e as pedras
do chão,
ou calou-se a montanha, rendeu-se o
vulcão.
Será que sabes que hoje é domingo,
ou os dias não passam, são anjos
caindo.
Será que me consegues ouvir
ou é tempo que pedes quando tentas
sorrir.
Será que sabes que te trago na voz,
que o teu mundo é o meu mundo e foi
feito por nós.
Será que te lembras da côr do olhar
quando juntos a noite não quer acabar.
Será que sentes esta mão que te agarra
que te prende com a força do mar
contra a barra.
Será que consegues ouvir-me dizer
que te amo tanto quanto noutro dia
qualquer.
Eu sei que tu estarás sempre por mim
não há noite sem dia, nem dia sem fim.
Eu sei que me queres, e me amas
também
me desejas agora como nunca
ninguém.
Não partas então, não me deixes
sozinho
Vou beijar o teu chão e chorar o
caminho.
Será,
Será,
Será!
Pedro Abrunhosa
in "Tempo" - Fevereiro 2002