À conversa com ...
Claudia Galhós
Na edição nº 13 d'As letras de Paganini e a propósito do seu primeiro livro - Sensualistas, escrevi:
"Eram três e estavam desenquadrados com a vida. Não se reviam na rotina do dia-a-dia, mas as fugas normais a essa mesma rotina, seja no sexo ou na internet, tinham-se tornado uma outra rotina.
Cada um tinha a sua história, e cada história tinha as suas personagens que por vezes se cruzavam.
Este livro de Claudia Galhós prima por uma escrita moderna e desinibida, e por descrever ainda que talvez com algum exagero, uma realidade muito actual de pessoas que não se revêm em actos eleitorais ou em casamentos vestidos de branco, mas que também não encontram outra saída.
Vale a pena ler este livro, só a beleza do prefácio justifica a compra."
Agora fui encontrar Claudia Galhós no Parque das Nações, junto ao netparque onde exerce a profissão de jornalista, e enquanto bebiamos um café numa esplanada com vista para o rio, pusémo-nos à conversa começando por ai mesmo:
Pedro Farinha (PF) - O jornalismo. Começaste no Blitz ligada à area da música, não foi ?
Claudia Galhós (CG) - A música, e também a moda, e cheguei depois à dança que gostei logo imenso porque a dança não é linear, a possibilidade de intrepretação deixa muito em aberto e isso em termos de escrita dava-me muita liberdade. E comecei a ficar obcecada pela dança, queria saber sempre mais ...
PF - Tudo isso no Blitz ?
CG - Sim, no Blitz. Depois, também no Blitz, comecei a escrever sobre música mas mais sobre escritores de canções, músicas que têm uma vertente de palavras muito forte, como Sérgio Godinho, Leonard Cohen, Nick Cave, P.J.Harvey, por exemplo.
PF - P.J.Harvey cuja musica faz de pano de fundo a uma das partes do "Sensualistas", aliás todo o livro está cheio de referências, não só a musicas, mas também a livros.
CG - Sim e essas referências têm a ver com os meus gostos. Aliás essa parte em que eu misturo a atmosfera musical com o que se está a passar com a personagem, já era algo que eu fazia nos tempos do Blitz. Também punha a descrição dos sentimentos que a música me provocava.. Tentava no mesmo espaço por também um pouco de mim.
Aliás ao longo desta conversa, percebi que o jornalismo não tinha vindo por acaso. Claudia desde nova que escrevia e quando chegou a altura de seguir um caminho apercebeu-se que nunca conseguiria viver da escrita, mas queria uma profissão que tivesse algo a ver.
Ingressou assim em Comunicação Social, curso que nunca veio a acabar. Mas nessa altura já trabalhava para uma rádio pirata onde escrevia textos que eram lidos acompanhados por musica suave, mais tarde foi para a Rádio Miramar e estagiou na RDP. Ao longo deste tempo, para além de manter um diário, algo que faz ainda hoje, escrevia pequenos contos, ficção, "eram exercicíos de escrita pois não tinham principío, meio e fim ... eram fragmentos de qualquer coisa ".
PF - E nunca acabaste nenhum ?
CG - Acabei um que era uma história de um táxista e a ideia que eu tinha nessa altura era muito romântica, em que as pessoas entravam para o táxi e partilhavam as suas histórias com o taxista. Era quase um exercicío de psicologia. Este livro entreguei-o na Camara Municipal de Almada para um concurso, nunca me responderam.
PF - Tinhas que idade ?
CG - 17 anos.
PF - Mas foste sempre escrevendo.
CG - Sim, mas para a gaveta.
PF - E o que é que te fez dar o salto com o "Sensualistas" ?
CG - Não sei explicar bem, eu tinha deixado o Blitz e fora trabalhar para uma editora de música onde estive durante dois anos ... escrevia menos profissionalmente e sentia uma necessidade de escrever, também já tinha uma maior maturidade.
Tive uma ideia que era a das reuniões sensualistas e quando comecei, escrevi "os três amigos" (3º capítulo do livro) e continuei a escrever sem muito controlo.
PF - Não houve nenhuma sinopse feita primeiro ?
CG - Não, comecei pelo 3º capítulo, mas depois escrevi o prefácio e o primeiro "eu" (2º capítulo) e o resto da história foi-se escrevendo. Foi como se eles cada vez me contassem mais coisas.
PF - Como se fosse um processo interactivo entre ti e essas personagens ?
CG - Sim. Claro que é um processo psicológico e afectivo porque racionalmente são personagens, mas foi isso que senti. E nos momentos em que em casa me sentava frente ao computador e escrevia sentia uma evasão total como se tivesse ido de férias durante uma semana.
A influencia da musica afecta o livro e é numa atmosfera carregada com as palavras de P.J.Harvey que uma personagem se suicida. Mas existe uma história por detrás deste episódio.
CG - Ele estava solitário, completamente à margem do que está a acontecer e encaminha-se para o quarto. Lembrei-me então da história, na altura do Blitz, em que morreu o vocalista dos Inxs que morreu enforcado e especulou-se naaltura sobre se ele estaria sob o efeito de drogas ou se estaria a tentar obter o orgasmo máximo.
E, no rapaz solitário da história, ele está desesperado mas tenta alcançar algum prazer e, isto para mim é uma ironia tem um sorriso por trás, ele quer alcançar aquele prazer máximo que tem aquele meio para chegar lá que é terrivel, mas no instante antes de morrer não se sabe se ele conseguiu atingi-lo.
PF - Todo o livro passa-se com uma geração de pessoas que se sentem desencontradas daquilo que é o cotidiano, que desprezam o casamento tradicional, as eleições europeias, que se sentem diferentes e que tentam encontrar alguma fuga.
Até que ponto é que isso tem a ver contigo ?
CG - Tem, aliás essas pessoas são muito mais do que parece. Mesmo as pesoas que vão de encontro a esses padrões, acham que têm uma identidade e procuram a sua própria identidade.
E a mim, o que me chateia, é que se tente padronizar a identidade individual de cada um. Porque todas as coisas têm um valor simbólico que é o valor que tu lhes dás. O valor que o casamento tem, é o valor que tem para mim, não é o que é imposto pelas outras pessoas.
PF - Tu és casada, não és ?
CG - Sou. Mas foi mais pelos meus pais, eu já vivia junta e não me passei a sentir mais casada por ter assinado um papel.
PF - No livro fala-se muito de tentar fugir à rotina, masàs tantas tentar fugir à rotina, é uma rotina á mesma, ou não ?
CG - Completamente.
PF - E o livro não aponta nenhuma saida ?
CG - Não só não aponta, como diz que estas pessoas não são melhores que as outras. No fundo estes comportamentos tem os seus lados positivos e os seus lados negativos, como todos. E o que é mais importante que são os momentos de felicidade ou de tristeza, existem sempre na mesma.
Um dos personagens, Filipe, todos os dias de manhã vai a um chat chegando a afirmar ser D.Afonso Henriques, outra vez diz que é uma mulher loura, boazona e cheia de vontade de ter sexo em todas as posições. Curiosmante ninguém acredita da primeira mas ninguém duvida da segunda.
CG - As pessoas acreditam no que querem acreditar, mas este episódio retirei das experiencias de amigos meus que alguns até andavam muito solitários e conheceram pessoas através dos chats e contaram-me histórias. Eu experimentei uma vez ou outra entrar num chat mas nem sei muito bem como aquilo funciona.
PF - Tu consideras-te uma sensualista ?
CG - Isso tem algo a ver coma dança. A dança contemporanea dá uma grande lição que é o que me fascina muito, é que tu não tens de estar em bicos e de tutu num estilo completamente estereotipado de beleza, como uma bailarina de dança clássica, para teres uma relação de sensibilidade e de consciencia do teu próprio corpo.
Na dança contenporanea, tens todas as possibilidades, podes ter consciencia de uma linguagem fisíca, mesmo nos pormenores mais insignificantes podes ter uma relação optima com o teu corpo independentemente do formato dele.
O importante é a pessoa sentir-se bem com ela própria.
PF - Mas esse sensualismo não tem muito a ver com as práticas sensualistas do livro ?
CG - Esse foi o ponto de partida mas no livro é um exagero, é chegares ao extremo.
PF - E agora estás a escrever um novo livro ?
CG - Já entreguei, vai chamar-se "Conto de Verão" mas acabei de o entregar ainda nem sei se gostaram.
Ficamos assim a aguardar o novo romance de Claudia Galhós, que deverá sair em 2002, e onde ela foi buscar a nostalgia que sente por Setubal, pela serra da Arrábida, pela gruta do Portinho da Arrábida mas com a mesma geração se bem que num enredo bem diferente.
Entrevista de Pedro Farinha