Entrevista por Pedro Farinha a:
Possidónio Cachapa
Pedro
Farinha - Quatro romances publicados, uma peça de teatro, inúmeros textos
e crónicas e um blog na internet sem falar das experiências como argumentista ou
das colaborações nas produções ficticías. Como é que tudo isto começou ? Ao
contrário de grande parte dos leitores d'As letras de Paganini o blog não foi a
primeira forma de pôr outros a ler o que escrevia...
Possidónio Cachapa - Nunca se sabe bem onde é que o
processo começa. Podemos apontar um momento decisivo, mas chega-se sempre à
conclusão que aquilo que fazemos sempre lá esteve.
Vi-me, durante a maior
parte da minha vida como leitor. Achava que o meu desempenho em termos de
escrita ("correcto", "com jeito", na minha visão) era um resultado directo de
anos de leitura. Literatura era dizer alguma coisa de novo aos outros. Logo,
enquanto não senti que podia contribuir com um grãozinho para o conhecimento do
mundo, não escrevi...
Mas, um dia alguém nos desafia a escrever uma história.
E várias pessoas gostam. E voltamos a escrever outra. E as pessoas voltam a
gostar (desta vez já protestam sobre o tema...). E nós voltamos a escrever. Foi
assim comigo, tal como a maior parte dos escritores.
Mas, foi quando
publiquei o "Nylon da Minha Aldeia", em 1997 (sai agora nova versão sob o nome
"O Nylon e outras histórias") que senti que tinha passado uma linha invisível.
Sem querer estava do outro lado da barreira invisível. E essa barreira
chamava-se "és escritor".
Pedro
Farinha - Já com nome
firmado na literatura portuguesa criou o Prazer_inculto, é uma outra faceta de "ser escritor"
ou, antes pelo contrário, é um escape. Um lugar onde pode escrever o que lhe vai
na alma, ainda que possam ser apontamentos de cariz literário, sem preocupações
com editoras, revisões de texto e afins. A questão é curiosa porque conheço
muitas pessoas que criaram os seus espaços na internet como forma de alcançarem
alguma visibilidade que de outra forma lhes seria dificil. Hoje em dia no
entanto, e através do fenómenos dos blogs, verifica-se precisamente o contrário
- um conjunto de nomes conhecidos e com crréditos firmados que criou os seus
blogs.
Possidónio Cachapa - Entrei no blog por
contágio. Visitei a colunainfame e o blog-de-esquerda e tive vontade de dizer coisas.
Primeiro limitei-me a comentar, depois achei que necessitava de mais
espaço.
Não o vejo o Prazer_Inculto apenas como um escape. É, desde o nome,
uma provocação. E, sobretudo, um espaço que me permite, AINDA MAIS, expressar-me
com total liberdade. Não posso ser despedido nem tenho a responsabilidade de não
chocar em demasia a velha guarda intelectual. E tem um lado da imagem que me
diverte. Gostaria que esse lado descontraído de ver o país e a cultura passasse
para os visitantes.
Pedro
Farinha - Penso que passa, eu pelo menos é assim que o vejo e é a razão
porque me sinto, lá, em casa. Mas essa forma mais leve que não mais leviana, de
encarar a cultura, não poderá "contaminar" a sua imagem de escritor, publicado e
editado. Ainda há quem veja a internet como veículo menor da cultura... ou quem
ache que o uso da internet afasta as pessoas, os jovens em particular, da
leitura. Qual é a sua opinião ?
Possidónio
Cachapa - Poder "passar em casa das pessoas" é o acto mais simpático que
existe. É como ser recebido para lá da soleira da porta (quem sempre morou na
cidade talvez tenha dificuldade em entender esta expressão oriunda das casas
baixas, de um piso...). Isso deixa-me contente, porque significa que, de alguma
maneira, estou a partilhar uma experiência humana com os meus
contemporâneos.
Acredito que "diminua" a imagem; faz a imagem descer do seu
pedestal, ficar ao alcance da crítica e do olhar mais directo. Há quem tenha
medo disso. Eu, não. Aquilo que serei para a Literatura, se algum dia significar
alguma coisa mais do que alguém que escreve livros e os publica, ainda estará
para vir. O presente não significa nada, nesse sentido. Por isso, escolho estar
com os vivos.
Não acredito que a internet afaste os jovens da leitura. A
prova é que neste momento me estão a ler ;-) Por isso, já não podem ser acusados
de nunca ter lido um escritor português (lol).
Pedro Farinha - Espero que sim, que o
estejam a ler. E que após a leitura desta entrevista que será publicada no dia 1
de Junho possam ir lêr o seu novo livro que, quanto eu sei, é um livro de
contos. Fale-nos um pouco deste novo livro...
Possidónio Cachapa - "Segura-te Ao Meu Peito Em Chamas", é
um livro que reúne algumas das minhas histórias breves (uma novela e vários
contos) escritos nos últimos anos. Inicia-se com "O nylon da minha aldeia",
publicado em 1997 e há muito esgotado das livrarias e termina com "Entre, disse
a Avó", um conto de 2003. Entre todas as histórias um fio condutor, algo que
Florbela Espanca definia como "um astro que flameja". O sol como metáfora do
amor e da passagem da vida. Relatos de encontros inesperados entre pessoas que
não eram supostas cruzarem-se, e quando o fizeram nasceu entre elas algo que
perdurará para lá do seu fim.
Um livro de afectos.
O lançamento será na
feira do Livro de Lisboa, a 14 de Junho (19 horas).
Bloguistas, desde já convidados!