Entrevista a
Avelino Rosa
O autor de Macau (via Hong Kong) entrevistado pel' As letras de Paganini . Não deixe, também, de visitar o site de Avelino Rosa.
Pedro Farinha :
O facto
de Pedro, o personagem principal do teu livro, ser açoriano, trabalhar na função
pública e ir para Macau, tal como tu, é mais que mera coincidência. Até que
ponto este romance é auto-biográfico?
Portanto, as coincidências que referes podem, nalguns casos, ter a ver directamente comigo, mas não se trata de uma autobiografia. Tem a ver sim, como disse, com as minhas vivências directas ou apercebidas enquanto vivi em Macau, deixando a imaginação fazer o resto. Aceito, no entanto, que Pedro foi, parcialmente, decalcado de mim próprio, não no intuito de descrever o meu percurso, mas apenas de inserir a personagem nas realidades que melhor conhecia. Daí, por exemplo, ser dos Açores e funcionário público. A Aline, por sua vez, é um bocado de várias mulheres. Neste ponto, acho que posso fazer uma confissão: - Nunca conheci uma chinesa com a profundidade suficiente para a transformar numa personagem com as características típicas da mulher do País do Meio. Por isso recorrei ao artifício de colocar Aline como tendo nascido em Xangai e vivendo em Hong Kong, dando-lhe uma dimensão um pouco ocidentalizada.
Pedro Farinha :
Este teu
romance conta duas histórias paralelas, o amor de Pedro e Aline e a transição de
Macau para a China. Esse facto histórico é mais que mero pano de fundo na
narrativa, qual a ideia que te surgiu primeiro a história de amor ou a história
de Macau, ou seja: idealizaste a paixão de Pedro por Aline e depois
"colocaste-os em Macau" ou querias escrever um romance que se passasse nos
últimos anos de Macau sob administração portuguesa e só depois "criaste" o Pedro
e a Aline?
Avelino
Rosa : Na verdade, o Macau
(via Hong Kong) é, na sua génese, a colagem de dois livros que gostaria de
escrever.
O tema do primeiro tinha a
ver exactamente com essa mistura que sempre fomos capazes de fazer com os outros
povos, sem anular a cultura de cada um. Em Macau isso via-se e sentia-se, talvez
como em nenhum outro lugar. A primeira ideia surgiu-me em conversa com um
português, dono de um restaurante, um daqueles castiços que foi cumprir o
serviço militar para aquela colónia portuguesa e por lá ficou enraizando, casado
com uma chinesa típica, de quem tinha uma ninhada de filhos. Pareceu-me
interessante construir um romance à volta deste tema, do relacionamento entre
portugueses e chineses no Oriente.
Quanto mais o período de
transição dos poderes de administração sobre o território de Macau, de Portugal
para a República Popular da China, se aproximava do fim, mais sentia a
necessidade de escrever sobre os principais acontecimentos que tinha vindo a
presenciar e a viver desde 1984. Macau havia mudado, nalguns aspectos
radicalmente. Portugal fez um esforço enorme para deixar à China um território
desenvolvido e moderno e não só no tocante a infra-estruturas e ao aspecto
físico da península e das duas ilhas. Apetecia-me escrever sobre isso, quase
compulsivamente.
Porém, as minhas funções
profissionais pouco mais tempo me deixavam do que para umas poucas anotações,
uns quantos poemas e algumas crónicas, estas publicadas num jornal local. Só
após o meu regresso, em finais de Junho de 1999, e arrumado o conteúdo dos
caixotes, pude, ainda no gozo de férias e de uma licença sem vencimento,
sentar-me ao computador e começar a escrever, aproveitando a memória ainda
fresca. Pelo caminho, tinha ido pensando que um livro apenas sobre a história
recente de Macau pouco interesse teria. Mas, aliado a um romance entre um
português e uma chinesa, poderia ter outro sabor. Foi isso que fiz, mudando os
personagens que inicialmente tinha imaginado por outros, pelas razões que já
revelei, tentando ainda dar a conhecer um pouco outros locais do Sudeste
Asiático, que os portugueses procuravam para férias, numa espécie de quebra da
rotina que se vivia em Macau.
Pedro Farinha :
Este foi o teu segundo livro e o primeiro romance, após o
qual criaste um site na net, até que ponto achas que esse site te
poderá ajudar a promover o teu próximo romance?
Respondendo mais concretamente à tua pergunta, não nego que
uma das motivações iniciais foi também a de dar a conhecer o “Macau (via Hong
Kong). E esse objectivo teve um razoável eco. Julgo também que poderá contribuir
para promover um próximo romance ou outro livro qualquer que venha a publicar.
No entanto, apesar da “loucura” da Net, penso que estamos perante um meio de
divulgação ainda muito limitado no nosso país. Basta ver que não abundam os
“sites” de cultura e quando se faz uma pesquisa, mais ou menos exaustiva,
percebe-se que muitos vão morrendo pelo caminho. A apetência das pessoas por
estas páginas é um pouco o espelho do país, no cenário cultural. Todavia, parece
que nunca se publicou tanto, mas a verdade é que também não se vende muito,
sobretudo quando não se trata de autores consagrados e mesmo estes, diz-se,
servem mais para enfeitar as prateleiras da sala, numa atitude de ostentação que
não de cultura.
Portanto, neste momento, já não me preocupa muito que a
minha página possa ou não ser um veículo de promoção do autor ou dos seus
livros. É mais um espaço de encontro, de amigos que gostam de partilhar, de
gente que vai deixando mensagens de incentivo. É quanto me basta para sentir que
vale a pena continuar.
Pedro
Farinha