Praça de Londres, onze da manhã

 

Olhei-me ao espelho e desviei os olhos rapidamente. Não queria ver a minha careca mal disfarçada nem a proeminência da barriga. Parecia-me que se eu próprio pensasses em mim como alguém mais jovem e atraente, era assim que agiria, era assim que ela me veria.

Após quase três meses de conversas e sedução on line ia finalmente conhecê-la. Nunca trocáramos fotos nem descrevêramos o aspecto físico um do outro, pelo que ignorava o que me esperava. Uma certeza porém tinha, era uma mulher meiga, sim de certeza e carente também. De alguma forma seria uma mulher atraente e... sexy, claro. O facto de ter querido combinar o primeiro encontro em casa dela dizia tudo. A voz extremamente feminina e sedutora prometia-me maravilhas ao telefone. Parecia que sentia a língua dela fazer-me cócegas ao ouvido enquanto o vizinho de baixo se punha em sentido.

Tinha tomado um banho e depois vestido um blazer e posto uma gravata, como se fosse ter uma reunião importante com um cliente. Depois tirei a gravata que me fazia parecer mais velho e austero do que aquilo que eu lhe tinha contado no chat. Despi-me de novo e vesti umas calças de ganga e uma t.shirt. O resultado era pavoroso, parecia que estava grávido. Com tanta vestida e despida, já transpirava abundantemente já que o dia prometia ser de calor. Meti-me de novo debaixo de água e quando me sequei, optei por umas calças de sarja e uma camisa branca de linho. Ficava assim meio-termo.

Não me quis ver mais ao espelho e depois de pôr perfume saí de casa. Combinara ir até à Praça de Londres onde ela me telefonaria pelas onze horas. Um pouco cedo para um rendez-vous mas muito tarde para a impaciência que me devorava. Quando me sentei no carro já tinha as costas da camisa molhadas. Os boxers justos comprados na véspera apertavam-me os testículos, mas acreditava que caso chegássemos a esse ponto, fariam melhor figura que as minhas habituais cuecas brancas com abertura lateral.

Olhei para o relógio mal parei o carro na Guerra Junqueiro, eram dez e meia pelo que resolvi ir beber um café. Estava excitado como um puto de quinze anos e não conseguia ficar quieto. Finalmente o telefone tocou. Atendi. Era ela, deu-me uma morada e avisou-me que a porta estaria encostada. Pediu-me para não desligar o telemóvel.

Enquanto me dirigia à sua porta, a respiração ofegava e o suor escorria. Parei e tentei acalmar. A sua voz macia mandou-me entrar e disse para ir para o quarto – é a primeira porta do lado direito – esclareceu.

Agora ouvia a sua voz em estereofonia, pelo telefone colado ao ouvido e através da casa. – Apaga a luz e põe-te à vontade – pediu.

Quase desmaiei de desejo. Aquela mulher que tinha alimentado as minhas fantasias, noite após noite, frente ao écran do meu PC ia ser minha. Era ainda jovem por certo, desinibida e bonita. Hesitei quanto ao “à vontade” mas acabei por me decidir a ficar apenas de boxers. A penumbra em que o quarto tinha ficado escondia a minha barriga. De repente reparei que me esquecera de tirar as peúgas mas já não ia a tempo, ouvia os passos dela a aproximarem-se.

A porta abriu-se e no meio do escuro brilhavam umas cuecas reduzidas de onde saiam umas meias de liga e um soutien de renda. Levantei-me para a abraçar enquanto esticava a mão à procura de um local onde pousasse o telemóvel. Esbarrei numa jarra que se entornou no chão e se desfez em cacos. Ouvi um palavrão e a luz acendeu-se. As minhas meias estavam encharcadas. Ela tinha cortado um pé.

Olhei-a no rosto, envergonhado. Não era a beldade que eu esperava, era apenas uma mulher de meia idade como eu. Com a luz acesa ficava ridícula com aquela lingerie de loja erótica dos trezentos. Tão ridícula como eu, de boxers esticados e meias brancas molhadas.

Sentámo-nos na ponta da cama e ela desatou a chorar, tinha esperado tanto por este momento e eu tinha estragado tudo. Tinha-lhe partido a jarra, espetado um caco no pé e ainda por cima era muito diferente de tudo o que ela tinha imaginado. Era feio e barrigudo como o marido dela – disse-me.

Irritei-me – quem é que ela pensava que era, a Sofia Aparício ? – Pois fica sabendo que a minha mulher até é melhor do que tu, tem menos celulite nas coxas e não tem as mamas, assim, tão descaídas.

Vesti-me à pressa e saí porta fora.

Ela ainda gritou lá do quarto – Anda cá, já que cá estás ainda podíamos...

Bati com a porta e afastei-me, para discutir e depois ter sexo sem grande vontade não preciso de procurar fora de casa.

 

 Pedro Farinha

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