As palavras que eu escrevo
Tu
lês as palavras que eu escrevo e bebe-las. Devora-las. Saltas da cama e é
ainda, apenas, com a tua camisa de dormir de cambraia pois gostas de dormir sem
elásticos a apertar-te, que ligas o computador e perscrutas se te mandei algum
mail depois de o teres desligado na noite anterior.
Sabes
que escrevo pela noite dentro e anseias por teres palavras minhas, servidas ao
pequeno almoço, pela manhã.
Isto
é o que tu me dizes. Isto e muito mais, são as palavras que me escreves nas
respostas que me envias. Dizes que as minhas palavras são mais importantes para
ti que as palavras do teu namorado, pois as que eu escrevo sente-las dentro de
ti e as dele deixam-te sempre com dúvidas. Sente-las como se só pudessem ter
sido escritas para ti. Achas um milagre veres em palavras escritas os
sentimentos que, nem tu, consegues exprimir.
Eu
leio essas tuas respostas que me fazem cócegas no ego e escrevo mais palavras.
Mais palavras que envio para ti. Mais palavras que vais sentir como se fossem
tuas mas que porém não o são.
Eu
escrevo as palavras para mim. Tu lês as palavras que eu escrevi e sente-las.
Eu
escrevo-me. Tu lês-te.
Tu
escreves-me e dizes o bem que te fizeram as minhas palavras e eu espanto-me com
as minhas palavras tão sofridas poderem fazer bem a alguém. E pensar que a
minha dor pode fazer bem a alguém provoca-me uma nova dor e escrevo-a. Tu lês.
Somos
apenas duas pessoas que se escrevem utilizando umas máquinas que se chamam
computadores mais uns cabos e outras máquinas que são servidores, modems e
antenas.
Somos
duas pessoas mas por acaso eu sou homem e por acaso tu és mulher. E como por
acaso tu és mulher e eu sou homem e porque temos dois modems a separar-nos o
que faz uma distância muito grande, tu escreves – Amo-te.
Tu
escreves “amo-te” e eu não consigo ler essa palavra. Enterrei-a no dia em
que a minha mulher morreu com cancro de mama. Foi a última palavra que ela me
disse com um sorriso nos lábios pois ela sabia que essa seria a palavra que
perduraria entre nós para toda a eternidade em que eu estivesse vivo para além
dela.
Essa
palavra enterrei-a no meu coração juntamente com o sorriso da minha mulher e
com todas as lembranças felizes da nossa vida em comum. Eu escrevo para mim mas
penso sempre que a minha mulher lê o que eu escrevo. Tu lês o que eu escrevo e
escreves-me “amo-te”.
Eu
encho mais uma vez o copo, a noite vai avançada e sonho que o teu “amo-te”
são palavras vindas da minha mulher através de ti que é como se fosses um
modem dela.
E
desato a escrever palavras felizes, de momentos felizes, de uma vida feliz em
que a palavra “amo-te” era dita através de um sorriso, de um gesto ou de
uma mão acariciando uma face. E estas palavras felizes mando-as para ti e para
toda a gente, para que tu e toda a gente oiço palavras felizes.
E
tu, deixas de sentir, em ti, as minhas palavras pois elas só podem ser sentidas
por quem conheceu o verdadeiro amor.