As
solteironas da net
Elas vagueiam pelas ruas com as suas bolsas a tiracolo. Trazem os lábios fechados e as mãos nos bolsos. Vêem nas montras os vestidos que nunca vestirão, e sob um céu cinzento prosseguem a sua marcha.
Sentadas
nos autocarros lêem as revistas da moda e é nas vidas dos outros que esquecem
a sua própria ausência de vida. Abraçam os sobrinhos, com uma lágrima
furtiva, lembrando os filhos que nunca nasceram. Têm falta de carinho, têm
tanto para dar e não perdoam à vida, as horas que já passaram.
E
é à noite em casa, cansadas das novelas, que nos seus grandes roupões se
sentam frente ao écran. Sensibilizam-se com os mails feitos de slides e de
lindas frases, e suspiram de alegria em declarações de amizade. Entram nos
chats com sorrisos nos lábios, falam de tudo com todos e esquecem-se da
realidade. Por vezes mentem na idade, por vezes escrevem poesia e aos seus lábios
devotos afloram asteriscos.
O
seu corpo desprezado sente a falta de um abraço e é por isso que passam tantas
horas ao écran. Têm falta de tudo, têm tanto para dar e oferecem a amizade a
cada nick que passa.
Vivem
neste ilusão, agarradas a um outro mundo, com esperança de um dia conseguirem
rimar a palavra virtual com a palavra real.
São
as solteironas da net, amargadas pela vida que encontraram um outro mundo feito
de bolas de sabão que tem tanto de beleza como se desfaz ao primeiro contacto.
São as solteironas da net com direito à vida que procuram em cada instante, a
esperança perdida. E quando à noite exaustas se entregam às almofadas levam
sonhos com elas, para se aguentarem mais um dia.