O
encontro
Deram-se
as mãos mas acima de tudo deram-se os olhos.
Olharam-se,
elas que nunca se tinham visto, mas que se conheciam como se muitas fossem as
vezes que tivessem vagueado juntas, falando do tudo e do nada. Nunca se tinham
visto mas sabiam muito uma da outra, sabiam as coisas importantes e as coisas
menos importantes. Sabiam quais os fantasmas que as atormentavam mas sabiam
igualmente qual o perfume preferido ou de que maneira gostavam de barrar o pão.
Parecia-lhes
irreal.
Parecia-lhes
irreal estarem ali frente a frente. Parecia-lhes irreal nunca terem estado
frente a frente.
O
tempo passou sem que as mãos se soltassem, mas foi apenas um segundo se bem que
para segundo era daqueles que se arrastam como as mãos se arrastaram umas sobre
as outras até que o toque da ponta dos dedos se desvaneceu. E o ar se interpôs
de novo entre aqueles dois seres. Mas o ar separa muito menos que um oceano e as
palavras puderam finalmente brotar, desta vez e pela primeira vez, acompanhadas
pelos gestos.
Gestos
simples, gestos carinhosos. Uma mão que se pousa sobre um ombro, um olhar que
se pousa sobre uma face.
Conheceram-se
na net, esse ponto de desencontro mas também de encontro. Conheceram-se na net
e nos mails que trocaram, em que trocaram não só mails mas gostos, confissões,
pequenos prazeres ou grandes sonhos. Trocaram os medos e as esperanças. Talvez
se se tivessem conhecido na vida real precisassem de muitos anos para se
conhecerem assim. Ou talvez não ...
Eram
duas amigas que se viam agora, sem teclados de premeio, com as caras e as mãos
em movimento que as fotos trocadas não o permitiam. Eram duas amigas com um A
grande, daquele tamanho que distingue as Pessoas das pessoas ou que pinta a
cores um filme de uma vida a preto e branco.
Eram
duas pessoas unidas por este sentimento que é o mais bonito que existe, a
Amizade. Podiamos falar de amor mas a amizade e o amor andam de braço dado e
para mim o amor é, tão só, uma amizade especial.
E,
ao vê-las assim, pisquei um olho cúmplice ao Miguel Sousa Tavares e retirei-me
sossegado com a secreta convicção de por vezes ser mais que apenas as palavras
que escrevo no écran.