Operário fabril, poeta do IRC

 

Na fábrica ninguém sabia o seu nome, e era apenas mais um que enrolava bobines na comprida linha de montagem. Passava por apático ou indiferente e poucos lhe tinham ouvido a voz timida em mais que um "bom dia" ou um "até amanhã".

Tomavam o seu silêncio como tristeza e admiravam-se quando, a propósito de nada, um sorriso lhe assomava à cara.

Mal eles sabiam que o seu gesto mecanizado escondia a liberdade de espirito. e que, enquanto mudo trabalhava, redigia, mentalmente, poemas para à noite no IRC declamar perante um auditório de nicks.

Por vezes um sorriso breve alegrava-lhe a cara , quando antevia a plateia do canal rendida em estrepitosos aplausos de smiles.

Tinha sido há três meses atrás que descobrira os chats e duas semanas depois que se redescobrira num canal de poesia.

O seu nick mudou, de um vulgar Luis23, para um sonhador verso_nocturno. A sua vida ganhara sentido e um objectivo. Quando, agora, via na letra impressa do écran, os seus pensamentos transfigurados em rima, percebia, finalmente, porque, e para que, nascera.

Depois de passar uns poemas, entrava na tertúlia ou, se apanhava uma rapariga sonhadora com um nick sedutor, a sua noite prolongava-se e discutia acaloradamente o sentido da vida, a beleza das palavras ou os mistérios do amor.

O seu nome era Luís, operário fabril, poeta do IRC, tinha só o 9º ano mas formou-se em filosofia da noite pela faculdade da net.

Pedro Farinha

Voltar

Hosted by www.Geocities.ws

1