Albano Martins -  50 anos de vida literária

 

Albano Martins, um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa contemporânea, nasceu numa aldeia dos arredores do Fundão e publicou o seu primeiro livro, "Secura Verde", em 1950. Licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário durante vários anos e é, actualmente, professor na Universidade Fernando Pessoa, no Porto. 

Para além dos muitos livros de poesia publicados ao longo destes 50 anos, de que se destacam o último, "Escrito a Vermelho", de 1999 e a Antologia "Assim são as Algas" onde está reunida toda a sua poesia, Albano Martins é ainda autor da tradução de grandes poetas clássicos e contemporâneos, como o "Cântico dos Cânticos"  de Salomão, "Dez Poetas Gregos Arcaicos", "Antologia Poética de Rafael Alberti", o "Canto Geral" de Pablo Neruda, com o qual ganhou o Grande Prémio de Tradução, entre outros. 

O que caracteriza a poesia de Albano Martins é, no dizer do Prof. Eduardo Lourenço, in "Vocação do Silêncio, "a inscrição da sua vida interior na escrita da paisagem, o seu romantismo controlado, a sua visão da poesia como lugar de excesso e perda intimamente ligados." E ainda, "Albano Martins, modula com um acento que é só seu, uma música que o transcende como ele se transcende nela." Poeta do amor e do silêncio, da transparência e da minimalidade expressiva. Criador de uma poética da brevidade, de gosto oracular, Albano Martins tem o seu lugar na poesia portuguesa dos últimos anos. "O lugar exacto situa-se para cada leitor no encontro, sempre possível e sempre improvável, com aquilo que nele se chama "poesia". Eduardo Lourenço in "Vocação do Silêncio".

 

 Do livro "Secura Verde" de 1950: 

 

Há em teus olhos, dados ao momento, 

uma tristeza de água reprimida,

 que é como o pressentimento

 duma próxima despedida.

 Tristeza que faz lembrar

 dias perdidos de outono 

com luz pálida a incidir 

nas folhas mortas de sono. 

Deixa que a esperança os molhe, 

os inunde de alegria. 

Cada noite passa e colhe

 o gosto dum novo dia. 

 

Do livro "Escrito a Vermelho" de 1999: 

 

Silêncio 

Não interrogues. E não digas 

também 

segredos ao ouvido. 

O próprio silêncio

 é às vezes indiscreto. 

 

Assim são as algas 

Das palavras 

que aprendeste 

só uma 

não tem tradução. 

Quando traduzes 

o amor, tu sabes

 que é já outro o seu nome.

 Assim são as algas 

quando apodrecem. 

 

Espelho

 Há um momento em que o espelho

 recusa a imagem. Percebes, 

então, que o vazio 

é contrário à luz. Que o nada 

e o salitre são 

a outra face da transparência.

Aliete Matias

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